terça-feira, 6 de setembro de 2016

DENSIDADE MÍSTICA

Naro Pinosa
Vinha percebendo as mudanças dele, assim como evolui uma doença. Percebia os sintomas (quase sempre ignoráveis), observava as feridas criarem cascas (quase sempre intransponíveis) e tentava métodos de cura ( quase sempre paliativos). Observava a relação-placebo com bom gosto. As recaídas audaciosas, os jogos airosos, as indelicadezas elegantes, as pílulas ululantes. Uma feição meio agnóstica, um jeito embaraçado de atravessar as espessas paredes da indecisão, da falta de contentamento-modelo, de orgasmo-ileso. Vinha percebendo as descaídas descerimoniosas, os tropeços, sempre muito limpos e as piedades caseiras, sempre tão laicas. Era óbvio. A doença avançava harmoniosamente entre os dois. Manifestava-se em singelos refluxos e tímidos sopros de dor. Ninguém padeceria de agonia, definharia sobre o leito do limbo, perdendo funções vitais, aparentando psicopatia conservadora ou humilhando-se ante a eficiência biológica da natureza morta. Deixariam o plano material como dois pândegos que adormecessem depois do álcool descomedido e da putaria.