segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Num gesto muito louco

Loomis Dean
Quando ele encheu a taça de vinho e colocou um disco da Zizi Possi em plena segunda-feira, já sabia no que aquilo ia dar. Nem gostava de Zizi Possi, mas aquela voz, aquelas letras passionais polvilhadas com blush pareceram tão pertinentes naquele começo de noite, seco e túmido. Embora se sentisse incompleto, pelos mais diversos pretextos (como todos os seres humanos) e um tipo bem agradável de solidão lhe remoçasse a face, estava feliz.
            Aqueles poucos momentos em que é bom ser adulto. Em que achar-se completamente responsável por si parece uma recompensa, e não um carma.
            Zizi tinha gosto de cigarro, um tabaco muito nobre que realinhava os exauridos pulmões.
            Ouvia que lá fora duravam buzinas, cães ladrando, motocicletas, motores, pássaros, portões, construções, amarelos. Tudo continuaria, independente dele. De certa forma é libertador saber que tudo prossegue, ainda que nós sigamos com nova caminhada, em outra jornada, por outros costados.

            As buzinas não dependem de nós, tampouco os cães, os amarelos ou o bêbado na calçada alucinando verbos desconexos.  Naquela segunda-feira tão sólida, tão real, que de real parecia opaca, translúcida, empoderada, era maravilhoso depender apenas do disco de Zizi Possi, uma taça de vinho, e uma nesga de perspectiva inconclusa cintilando a sua alma em paz.