segunda-feira, 23 de maio de 2016

Naro Pinosa
URANO RIDES AGAIN

            Arvo, depois de quase dois meses sem chover, finalmente o inverno chegou neste fim de outono, nesta cidade onde nunca chove. Neste começo de mundo. Bem, não é inverno ainda, mas esfriou bastante. Por isso mesmo que já vou avisando, não será uma mensagem alegre como das últimas vezes em que enchemos a cara de vinho e cerveja e tropeçamos lânguidos e suavemente estúpidos no sofá.
            Pois bem, choveu o dia inteiro, sem um mísero intervalo. Logo pela manhã dei aula, enfrentei as caras entediadas de pessoas que, como toda a humanidade, não têm mais saco de ouvir, mas querem opinar sobre tudo o tempo todo. Pela tarde, apreciei a chuva, o frio, me deprimi horrores. Você sabe como sou, muitas vezes quando intuo a nostalgia me cercando, eu impeço, digo que não.
            Mas hoje eu deixei...
            Por algum motivo eu deixei. Ficamos bons amigos. Falamos banalidades, contamos mentiras, fingimos vestir essa tarde monocromática de esperança, nos poupamos de estancar o jorro. Foi uma tarde atípica, confesso. Tenho mil coisas a fazer, nada fiz. Sentei sobre as minhas pilhas de papeis, e apenas observei o tempo passar, meus prazos vencerem, minhas tarefas se danarem, meus compromissos se acumularem, meus desejos se empilhando. Ordeiro como um animal domesticado pelo seu passado e fiel a ele, dando-lhe a pata quando deseja.
            Tudo estava imóvel nessa tarde. Se eu tacasse minha xícara de café contra a parede, ela empacaria no ar, flutuaria estática no meio da sala. Mas, tem dias que é assim mesmo, Arvo. Sentimos falta de tudo. Do que tivemos pouco, do que tivemos muito. Reclamamos até os duros dias que não queríamos viver jamais outra vez.
            Deitei-me na cama de tarde, senti falta de quando fazíamos isso e conversávamos sobre assuntos aleatórios, banais, imprescindíveis. Fortuitas pérolas num lixo moderno. Ríamos muito, piadas que ninguém mais entenderia, cócegas de Deus na nossa pele entediada de mundo. Mesmo exposto, me sentia protegido. Mesmo infeliz, me sentia completo. Era assim. Tudo estava bem, mesmo nos dias turvos, chamuscados de incertezas, de felicidades barrentas, tudo estava bem e eu não poderia reclamar. É que hoje a tarde me bateu a consciência, feito um murro no meio do peito, de que é muito difícil estar sozinho em dias assim. Digo, em que você poderia estar comigo. Tomaríamos café, provavelmente por volta das cinco (você diria que era um péssimo horário para café pois te estorvaria o sono, mas teceria elogios ao pão). Lavaríamos a louça do almoço ouvindo o radinho sobre a geladeira, faríamos planos de viagens que nunca aconteceriam. Retardados.
            Você sabe, Arvo, como eu odeio ser bucólico, odeio pessoas bucólicas ou situações bucólicas. Mas hoje foi inevitável. Aceitei todos os sentimentos, passivo, com uma prudência inexperiente. Os sentimentos bons e os ruins. Deixei meu peito aberto para eles, me esvaziei das proteções, dos anticorpos, do teu corpo.
            Agora observo a noite cair, o pior horário do dia em que a lucidez borra a natureza e o mundo é posto num vazio inoportuno. Entre mim e você há uma imensa lacuna... O amor foi nossa lacuna: o vão entre a plenitude e a decepção. Entre a nobreza e a mesquinharia.
            E, olhando aqui pela janela, o barulho dos pneus sobre o asfalto úmido, cadelas molhadas, cafés frios, dois garotos melancólicos jogando chinquilho sob a marquise da farmácia, cabeças anônimas, prazeres interditados, tudo o que penso é:





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