quinta-feira, 26 de maio de 2016

Artificialmente natural

Naro Pinosa
Naturalmente cada um com seu poço profundo, intransponível, cuja água muito salubre não se pode beber. Totalmente potável: não se pode beber. Naturalmente ali dos desejos, o mais oculto, sem contornos, sem nitidez, sem forma. Cheio de substância, irrefreável. Naturalmente arrependido, louça e sem culpa. Do que se enterra junto aos tratores, suas máquinas. Naturalmente detrás de florações montanhosas e depressões carnívoras. Naturalmente químico, quimicamente quântico, relativamente sutil.
Artificialmente físico, mental e paradisíaco. Preste atenção: da pele, da pele. Sem ela não há ele, não há coisa santa, carne branca, plástico perfeito, flácido concreto, sintético eleito, paralisia, solução aquosa: beijo. Não há. Nem poesia-esbórnia, brotação gratuita, senso. Naturalmente gástrico, de comer, de botar pra dentro e ceder o ventre, incorporar, penetrar, sofisticar o lixo, virar um, absorver alvorecendo, engordar daquilo, dele, sim.  Sápido: suas moléculas.
Naturalmente inteiro, distante, frouxo, incoerente. Artificialmente meu.

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