segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

CULPA E OUTRAS INUTILIDADES

Culpa é compunção doente. Sentimos culpa como uma forma de efetivar o arrependimento, mas a culpa não passa de autodestruição, de busca de paz pelas vias da punição. Externalidade pura. Somos ensinados a sentir culpa porque a associam facilmente à moral e à ética. É uma fórmula para se alcançar a bondade. Mas sentir culpa não faz evoluir, pelo contrário, a inutilidade deste sentimento é tão nítida quanto a sua dor. A culpa não tem valido nem para os assassinos, traidores, quem dirá para aqueles que se julgam santos. 
Algumas pessoas de fato  possuem uma facilidade admirável em sentir culpa. É uma distorção de um preceito fundamental para o ser humano: procurar a sua responsabilidade em quaisquer atitudes (mesmo aquelas alheias a ti e que te ferem) não significa culpar-se indiscriminadamente para cumprir a cota do homem cordial. Se não há consciência, é mero cilício. Procuramos a sabedoria pelo castigo, ao outro e a nós. Confundimos sermos críticos conosco com nos tornarmos cruéis com nossa natureza. Justificamos a culpa através de um homem crucificado, sem entender que sua imagem nada tem a ver com culpa: trata-se tão somente da aceitação da dor e de qual a sua responsabilidade sobre essa dor. O que pode ser feito internamente, ainda que por fora tudo pareça irremediável?

Tendemos a resolver nossos mais duros problemas culpando o mundo. Antes de nós mesmos, todos serão culpados. Ao fim, quando não houver mais ninguém para responsabilizarmos pelas pequenas tragédias cotidianas da nossa vida, já não nos restará mais força mental e, pacientes, iremos dormir, beber ou orar. A culpa é uma covardia, é a preguiça do espírito.  

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Lua em câncer, sádico em crise.

Robert Mapplethorpe
Essa coisa de paixão. Que ajuda a agir, que te sacode a enfrentar certos temores, que te coloca em circunstâncias impensadas. Nunca entendi isso. A paixão em mim é o contrário: me trava, me paralisa, me subtrai a inteligência, me faz dizer coisas sem o menor sentido, me emudece quando não deveria. Não existe sofisticação na paixão. O amor, com todo o seu tédio e palidez, vai aos poucos construindo (ou desconstruindo), o que é ainda melhor. Não acho a paixão salubre, na verdade, incomoda, ridiculariza. Só seres muito evoluídos sabem lidar com a paixão. Neste quesito meu Q.I. é negativo. A essa incapacidade de coagulação soma-se um pouco de platonismo, cloretos lacrimais, chás verdes, ausência de requinte, obstrução da simpatia, modismos emocionais íntimos, urano em áries e outras maçanetas. Tudo aquilo que nos coloca em contato direto com o desconfortável, nos torna infantis aos olhos da consciência. A coragem é uma necessidade diária. É o antídoto da cafonice.