terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre mudanças

Ana Tereza Barbosa
{sem título-

Amar nos coloca em muitos riscos. E, na verdade,  só se pode vê-los quando se está só. Admiro quem ama sem depender e realmente acho que essa é uma meta evolutiva pra qualquer ser humano. É que quando se ama dependendo (de presença, de rotina, de calor, de frio, de sexo),  se perde em dobro, dói em dobro. Por incrível que pareça, é na rotina que as coisas se constroem, e é justamente por causa dela que os grandes amores acabam.  (?) Alguém já disse isso, que não são os grandes atos que derrubam um relacionamento, mas os mini-assassinatos do dia-a-dia. E só depois que a coisa degringola, que uma pergunta tão óbvia de resposta nos faz parecer imbecis: mas, se há amor, porque nunca mudamos? Por que perpetuamos o erro? Há um defeito em encontrar pessoas que queremos estar até o fim ao lado delas: na aparente impossibilidade de perdê-las, nos tornamos indiferentes, passivos. É o primeiro mini-assassinato. Uns gostam de cuidados, outros necessitam de seus momentos de solidão. Uns se mantém sempre fortes, quando as vezes, demonstrar a fraqueza poderia ter sido o maior gesto de resistência. Somos iguais, seres humanos fracos, morrendo de medo da solidão. Morrendo de medo de perder, morrendo de saudade. Simples assim. Não tem segredo. Em algum momento vamos descer mais fundo, mais fundo, simples assim. A rotina se transubstancia rapidamente: ela pode ser feia, indigesta, sufocante. Mas quando você a perde percebe que era desse feio, desse indigesto e desse sufocante que você se alimentava. Ao fim, tudo se resume ao medo. Ser uma pessoa melhor sempre implicará em perdas e dor. É um caminho. It's a long way... It's a long, it's a long, long, long... It's a long way.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sobre sentimentos

Lanhar estes sândalos.    

Robert Mapplethorpe - Plate 179. Untitled (self-portrait). 1973-75
Todo dia uma nova cura. Isso é importante. Deixar que os antibióticos tenham efeito. Toda noite, uma nova doença. Aperfeiçoar os vícios, fracassar com mais técnica. Acreditar no invisível com maior desenvoltura. Delegar picos de esperança, picos de açúcar, picos na veia. Esperar o próximo dia com calma e gratidão. Dar a ele um sentido menos ingênuo: poderá ser um novo deslize, mas uma próxima chance. Às folhas sem saúde, dar-lhes lâmina. Não ter mais dó das partes doentes. Perder o medo de cortar o que não se restaura. Preces às gêmulas, odoyás aos gineceus. Permitir que floresçam, sem ciúmes, sem apoderamentos. Só se lhe outorga posse ao que tornou-se facécia. Amar ao passado com o devido respeito e a imprescindível apatia. Ter conhecimento da frouxidão do corpo e sua decência, bem como a sua autoridade. Compreender a urgência dos berros atônicos de quem não se reverencia o fracasso, das doçuras deste dissabor, do umami desta alegria imprudente. Todo dia curar-se. Curar-se também das coisas ótimas, para livrar-se da prepotência e dos vícios. Curar-se do entusiasmo pelo bonito, pra não tornar-se deveras complacente; curar-se do arrebatamento sem propósito, para não tornar-se injusto. Todo dia curar-se de si. Ter força, pedir força, compartilhar força é simplesmente ter consciência da fraqueza a qual todo nosso volume está submetido. E, ao fim, não será apenas volume. Dar uma chance ao nosso lado invertebrado, religar as células. Desligar os dogmas. Na medicina chama-se amputar. Na vida, prudência.
Engana-se pensar que a doença inutiliza. Amaremos no aumento de milímetro a milímetro desta sutura. Ultrapassaremos derme, epiderme, gorduras, músculos, artérias, tecidos, átomos e quarks. Quando ao osso chegarmos, muito ofegantes, nos arrependeremos e sentiremos profunda desventura. Ainda assim, lanhar estes sândalos. Tenho percebido, ainda que desacreditado: não basta saber perder. Tem-se que arrancar de si. Humanos necessitam ritualizar suas dores para sentir que estão evoluindo. É a lógica do vegetal-carnívoro.