sábado, 6 de junho de 2015

Sobre eletrodomésticos: motores de geladeira

Loomis Dean
CHACRONA JAGUBE

(com cópia oculta para Arvo, att.)

            A gente se fala, entre um seixo e outro, uma unha roída e um molho azedo. Tentando desclassificar a solidão, aleitando essas coisas felizes que pintam por aí, colorindo espaços em branco. A gente se fala entre a faixa riscada e o silêncio da geladeira. Na pedreira dessas fortunas, nas lorotas desse interior. Nos falamos assistindo a vida dos outros, ignorando a vida dos outros, trancando algumas janelas ou derretendo colheres de manteiga. Nos falamos, entre mobílias sonolentas demais e barbas na pia. Entre apitos e televisões, alças puídas de mochila, flores comestíveis e ejaculações lisonjeiras. A gente se fala, mientras si pueden oyer abrazos rotos y colores totales, entre tonéis de rumbas malditas e sertões de laboratório. Fazendo glaçagem sobre os morangos mofados ou colocando as omoplatas no ritmo. Arriba, coño, arriba! A gente se fala quando nossas meias virarem polainas, ou quando o céu for azul demais. Solidão só é boa quando é controlável, a gente se fala. Quando quisermos controlá-la, a gente se fala. Por enquanto, gouttes de chocolat. Cascatas disto. Nos hipermercados norte-americanos, nas gôndolas de chacrona jagube, no seio irmão, na fraternidade mística, na busca irrefreável da cura das doenças da semana. A gente se fala.
Quem nunca? Na prata fosca, no gás aberto, é neste chão frenético. Na sabedoria buliçosa, nas microondas pela casa, no bendito farol da praia onde fiquei contando os giros.  No leite lhano, no idioma dos santos. A gente. Detidos, espirituosos das anfetaminas delgadas, tudo lindo no que se fez. A gente se fala.