domingo, 19 de abril de 2015

Sobre coisas sólidas

Machadada de assis: segunda lenha.
Pacífico Siliano - Against Nature

Não tem sido tão fácil quanto eu imaginei que seria, Arvo. Quando consegui tudo o que sempre quis, perdi tudo o que eu tinha. Separações são difíceis. Porém mesmo sendo tudo tão óbvio, veio-me a necessidade de esboçar a grandeza dessa fulguração invertida, deixar registrado em um quadro a bancarrota. Mesmo porque nos misturamos tanto, a pele, as músicas, as esperanças, que a sensação é exatamente como se houvesse uma peça de meu corpo que desacoplou-se e está perdida, em algum lugar. E que eu deveria achá-la, pois todo o meu funcionamento está comprometido. Talvez como se me faltasse um rim, uma retina, um dos pulmões. Confesso que é muito estranho, Arvo. Entretanto, todos nós sabemos que, com o tempo, o organismo se acostuma a viver sem aquele órgão, e delega as funções dele para outros, simplesmente a fim de que possamos continuar vivendo.
            Eu estou vivendo. Isso parece-me incrível. São os sinais da delicadeza do universo, ou de Deus. E o próximo passo é sempre uma revolução, apenas pelo fato de ter sido dado. Arvo, é engraçado como, mesmo não havendo culpa, meu coração necessite de uma espécie de redenção. Compreende? Sim, é claro que nos amparamos onde sabemos que suportarão nosso peso (e, Arvo, acredite, embora mais esguio, o peso tem sido quatro vezes maior, e, embora maior, uma paz devastadora me neutraliza o caos).
            Tenho as vezes a ligeira impressão que a pele sofre mais que o coração. Justamente porque nela, diferente do coração, a dor não é abstrata, mas sim química, tangível. Minha pele está triste. Minhas narinas, o céu de minha boca, meus dedos, meu cenho. Dos adágios mais chavões, hoje abarco todos. Obviamente, não é Arvo? Embora titubeante, sempre fui um ser óbvio.
            Separar-se é aprender a viver sem si.

            Uma episiotomia onde nada nasce. Um silêncio longo e ávido. 



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sobre o amor

Dos dolorosos 
maios 
não sobraram 
nem os púcaros

Band à part: New York Undergound 60's 70's 80's

             São patos. Pendurados, nada de penas, bastante limpos, eu poderia pensar: que brisa! Estava realmente agradável. Iria comê-los naquela mesma noite, com vinho, ligeiramente crus por dentro, um molho de carne bovina muito denso e untuoso. A textura aveludada: lógica e concisa. Teríamos feito muito mais, se nos tivesse sido ofertado o tempo necessário. Poderíamos ter plantado pés de groselha. Eu estava realmente disposto! Os anúncios no rádio são para dar-me letargia. A letargia, me diria ele, novamente? Acendendo um outro cigarro. Não fumo, mas o tabaco desenha-se altamente propício nos invernos. Não fumo. E daria tempo de colhermos as groselhas? Certamente. Eu certamente bebo. Outra vez. Acostumei-me a não ser abstêmio quando contabilizei o tempo perdido. Vastas contas, longa matemática. Convém cozinhá-lo no vinho, até que se desmanche? Preferimos cru por dentro. Patos não foram feitos para desconchavarem sob o fogo, digo, mortos. Nenhuma ciência, tenho a solidão como uma masturbação consagrada.
            Preferimos cru por dentro. Creio que eu esteja perdendo um dos rins. Optando por nos separarmos. Por ora. Não somos mais felizes. Admitimos isso sem nenhuma melancolia. Apreciamos o pato, indica-me um médico? Quanta tolice, meu Deus! Nestes tristes trópicos groselha não dá! Aspirações inéditas de adolescência. No lixo. Quem precisa delas? Nos sorvetes.
            Não confio nos estetas e muito menos em racionalistas, por isso execro confeiteiros. Por que trocaria um belo pato? Uma vez, discutindo, ele disse-me: pudico! Sim, bastante.  Naquela noite muito fria, maio, provavelmente, ele já se fora, um cigarro aceso sobre o cinzeiro, queimando silencioso. Não fumo, mas, desenhou-se tão altamente propício neste inverno. Registro de um coeficiente exótico de carência. Notas de aromaterapia.
            Muitos corpos na rua, de corpos eles não passam, desta janela cujo metal (vil) queima de gélido. Degusto maios incomuns. Você volta? É bem plausível que não. Projetei-me bastante sádico. Atroz, ele prefere. É bem plausível: atroz. Que seja. Por ora.
            Muitas viagens engavetadas. Há armários que jamais abrirei novamente. Monstros lá. Horrores lá. Saudades imprecisas. Tudo. Por que nunca viajamos? Apenas grelhados, dourados por fora, crus por dentro.
            Quanta tolice, meu Deus! (um abraço). Chega de conversas desnecessárias. Uma cerejeira, talvez? É absolutamente plausível. Claro. Fui deveras cruel. Atroz, ele prefere. É totalmente compreensível. Novos chás sobre a prateleira da cozinha. Uma água fervendo interminavelmente. Não beberemos chá. Está colecionando! Os ingleses gotejam leite, não? Sim, é totalmente compreensível. Por ora, sem arrependimentos. Está feito.
            Zestes de limão. O perfume é tão crível. Ah, que brisa! Estes patos foram abatidos hoje. A carne ainda quente, suspensos. Um ramo de alecrim, sálvia, tomilho, o outono fenece aqui. Respirar profundamente, absorver isso tudo. Destes maios insólitos, sem pele e sem medo.
              Crus por dentro. Os franceses preferem assim.