quinta-feira, 19 de março de 2015

Sobre aboboreiras e fé

Prece da despedida de Calunga

J.J.M.S. "Gurucaia, 2015"
"Adeus, adeus, adeus, adeus já vou-me embora
Que meu padrim Calunga me chamou na Angola
Filhos e filhas, eu vou me retirar, calunga vai-se embora
Ele vai pra descansar..."


            Noite alta, superalta. No meio dum mato verde muito escuro, um homem espanta a chama de seu candeeiro, deixando que o peso de suas pálpebras cerre seus olhos. Ozório nunca soube rezar do jeito certo. É que prece feita não encaixa em boca de poeta. É verdade também que Ozório não é poeta. Nessa noite alta, tão alta, suas duas marias já dormem e no silêncio da solidão vigiada da mata, ele canta. Teve uma noite muito dura. A voz sangrada de quem não escolhera o próprio destino dilata suas raízes na varanda. Só porque não se brota chama de querosene, a lua derrama noites insuspeitas sobre ele. A terra já fria convida seus pés descalços a se tragarem, enramando-se no solo, virando ele todo terra, todo mato, todo escuro, todo prece. Ozório é um homem raro, embora seja como todos os outros. Incompreendido, como todo homem raro. Mas conformado, como todos os outros. Dos poucos seres que encaram a noite - não os notívagos ou os boêmios - Ozório é perecível. Arrosta-a porque sabe de seu perigo, do seu silêncio movediço, das suas brechas pro infinito. Mas, principalmente, arrosta-a porque sabe como é fácil perder-se e, uma vez perdido, como é difícil voltar. A noite existe para pessoas que elegeram viver com suas feridas hiantes, a noite existe para quem é inteligível e rigoroso. É aos homens crus que ela se entrega, à carne ainda cintilante, caridosa e mística. Nas poucas vezes em que nos falamos, pedia-me com bárbara doçura: não cuide muito as estrelas, a noite é crespa, e de pororocas de incompreensão o silêncio pode engolir-te.
            Obedecia. Mais adiante a terra mais fria estava, úmida por uma espécie de orvalho benevolente, as galinhas serenas nos poleiros, uma ou outra coruja perfurando a noite. O peru sobre a cerca dormia como uma lua negra, poderoso, sábio na sua natureza breve, um equinócio na solidão. E, por não ser poeta, justamente, não foi lhe dado o desejo da exaltação ou da admiração. Era simplesmente grato e isso já lhe bastava. Tornava os mistérios chulos, os esoterismos lânguidos e as astrologias engraçadas. Compreendia com vaporosa ternura a existência de tantas teorias em um planeta tão pequeno. Sabia que o bicho homem ainda não aprendera a ser bicho humano, sempre faltou-lhe as patas ou as asas.
            Quando a noite começava a ir-se embora, o candeeiro desencandeava-se, marias acordavam, o cheiro de fermento, nuvens de gás carbônico pela casa, animais magros esperando a morte, a queima de um fumo fresco na âmbar palha, alfaces queimadas do frio, um jerimum solitário no canteiro, o leite espumoso dentro das garrafas de refrigerante. Só uma aleijada gratidão entusiasmava seu fôlego. Um segredo nítido: poeiras sólidas em um peito de vasta devoção.