quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sobre fraternidades

Work songs para uma noite sem Deus

Imagem: Autor Desconhecido
No recanto em questão todo cantor de jazz morre de cirrose, acamado num balcão de carvalho, com as unhas puídas e um Trident de melancia grudado abaixo de seu assento. Fora anexado há cinco vigílias completas, por uma jovem que fedia a Chanel cubano e passava noites em claro fumando charutos ternos, com os olhos apastelados, licenciosos e católicos. Seu vestido de esmeraldas era um paéti vagabundíssimo que ela usava em noites que considerava extraordinárias.
No recanto em questão eu também morrerei de cirrose, mas provavelmente o balcão não será mais de carvalho. Quando eu ouvir Eartha Kitt ecoar dalgum amplificador de som opaco, eu me levantarei e dançarei tímido entre aquele homem com sua garota na mesa 8, tomando uma cerveja levemente morna, os cabelos ensebados pelo labor do dia, olhando com avarenta ternura sua moça a quem atende pelo pelúcido  apelido (informo: do substantivo pelúcia lúcida) de “xoxotinha”; e entre aquela senhora com cara de evangélica arrependida, empanturrando-se de coca-cola diet e torresmo da tarde de ontem. Ninguém me notará, o que acharei ótimo. Uníssonos, eu e Eartha diremos, debochados: “I don't wanna be alone. Where is my baby?”, todos entenderão.
Haverá posteriormente uma melancolia floral, bastante comum em noites de terças-feiras, dessas noites inválidas mas emergentes que realinham nossos sonhos e nos silenciam. Não haverá como voltar, pois certamente será tarde e optaremos, eu e aquela velha louca da Carolina do Sul, por insistirmos no derrame. Vamos rir muito, porque é tão interessante reconhecer-se em um estado deplorável com translúcido desvelo. “Estamos deploráveis” ela vai balbuciar enquanto canta mais um pedaço da minha canção preferida, Love for sale. E eu vou rir um tanto mais, porque tudo é incrível.
Ambos tivemos amores grotescos, mas compensamos com nacos de compostura. A senhorita Kitt, creio que mais que eu. Ela é tão impudica.
Como sempre, ela em dado momento da noite, depois de beber um gole da sua cerveja, de uma densa espuma cândida (nota de rodapé: ela acharia ridícula essa colocação meio rococó-bilú-cotrofe-pós-bethânia de “densa e cândida”) reclamaria dos homens que bebem vinho e achincalhá-los-ia em algo como “são uns metidos a besta, de almas carentes e frouxas”. Tenho certeza que no inglês essa frase seria ótima e bem mais convincente, entretanto o álcool não me concede léxico. O balcão não será do ortodoxo roble e a compungir-se das paixões, nos ignoraremos por um áspero instante. “Você é mais brochante do que um choro-maxixe e do que a bossa-nova”. Ouço quieto, ela se arrependeu de ultraje tamanho e me paga uma dose de um uísque ruim, mas honesto. Absolvi, com uma feta de admiração: ela não é xenofóbica e compartilhamos das mesmas predileções auriculares. Tem dessas coisas. (E ela certamente iria me injuriar por essa história barroca-twist de “predileções auriculares”).  
Conta-me histórias só dela, do prazer que sentia em caçar codornas, comê-las e conservar seus ovos em potes de maionese apinhados de vinagre. Um laço de fita majorelle blue. Uma estante cheia deles. Conta-me dos cães, e dos que não são cães. E tudo é incrível (permita-me, senhor Caeiro, estás morto). Sua esperança, já bastante rasa, ainda esteia suspensa no ar um tesouro barato, uma alegria diurética, uma sensatez noturna, uma álgebra fraterna. Pequenas joias abaixo de uma bailarina tonta e estúpida.
Em dado momento, a senhora Kitt se levanta, caminhando de forma a se denunciar embriagada, senta-se na mesa 3. Olores de tergal suado e sardinhas túmidas, um regicídio me futrica a mente. Não sabemos ao certo se ela conhece o rapaz de moletom verde menta e chinelos brancos, uma barba de três dias e que ainda não perdera os contornos da última vez que se afeitara. Nem selvagem, nem moderninho.  Eartha cruza os próximos trezentos e vinte e sete segundos a conversar com ele e a ralhar seus estrupícios. Entre sorrisos hirtos e espantos medianos o rapaz retorna a oratória audaz e desgraciosa de uma octogenária alcoólatra. Se não fosse tão tarde, iria embora. Permanecemos no local como se ele jamais fosse fechar suas portas e como se a lida do dia seguinte não nos viesse arregaçar poesia e nos tirar a mucosa do céu da boca.
Abaixo de nossos pés já enterramos a senhora Fitzgerald, a senhora Holiday, a senhora Nina, a senhora Joplin e a senhorita Esperanza, que ainda nem morrera. “Logo é você, velha”, grito do balcão, apontando para o carpete. Ela me retorna um beijo trêmulo e um sorrisinho pedante, como se não estivéssemos dançando folk sobre uma necrópole de estrelas pálidas.
Em uma só noite trucidamos vários cantores de jazz. Coisas imensuráveis espraiam em nós e nos endoidecemos no sarrabulho: nunca tocaremos sua grandeza inexplorável, suas idolatrias futuristas e suas respostas estrangeiras. Se o fígado de Eartha e o meu aguentarão mais um inverno, o que foi dito nesses trezentos e vinte e sete segundos, a quem chamamos Deus e todas essas perguntas bastante cafonas que aos humanos afeiçoa-lhes emaranhar com a maestria de um animal atônito à espera do abate.

I don't wanna be alone. 




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sobre orixás

Robert Mapplethorpe - Carol Overby, 1979
Santa Bárbara 
de Nicomédia, atenciosamente

Temos muito em comum. Somos desastres da álgebra e da dialética. Nossos raciocínios nunca foram lineares, vivemos dando motivo para que não nos compreendam. Notamos beleza nisso, talvez. Esse jovem desejo de estarmos incompreendidos, porque nos falta linguagem clara, e nossos anseios nunca foram concisos. Mas não apenas isso. Quem sabe também os mesmos orixás e o mesmo Guia. Não sei se já te contei isso, peço desculpa se eu for repetitivo, mas, se as tempestades se acumulam, devemos cortá-las em quatro, lavrar seus pesos e seus terrores em novos lestes. Santa Bárbara o faz com colérica coerência.
Mas não apenas isso, nossos corpos separados são bastante atinados, entretanto, juntos são bastante asnos, nossas peles não dialogam, se estrepam. Nossas bocas não emitem, ladrilham o silêncio e, aquele suor nos blinda. Eu tentava te explicar isso esquizofrenicamente, mas você não entendia e quanto mais você não entendia, mais eu me sentia errado. Faltava-me confiança, já sei até teus contragolpes, sempre muito claros e elaborados. Dir-me-ia coisas como “não me culpe pela tua deficiência de exatidão gramatical” e aí por diante. Tínhamos realmente muito em comum porque, igualmente eu pensava que eras surdo, e que meu hermetismo noviço não aniquilaria o mundo com seu egoísmo alalaô. Você não estava surdo, e eu não fui um erro da semiótica. Quando se tenta explicar com algoritmos o indelével, se assassina a quântica.
Não sei se já te contei isso, desculpa se sim, mas meu avô talhava as tempestades. E eu achava lindo, e o guia dele era um índio. Obviamente, nem sempre sua lança estava afiada o suficiente e os ventos se derramavam juntos, ávidos, ali mesmo, numa cumulação de pânico porque, de fato, algumas tempestades foram feitas para nós, quando não por nós. Essas, Bárbara deixa. Quem atina a própria borrasca sabe enxugar suas preamares.
É preciso obedecer as tempestades para ganhar-lhes respeito e rasgar seus titãs. Levantar outros costados ao seu redor, mas deixar as portas abertas. Meus vícios todos, minha vida, estão aqui.
Eu não sei se estou sendo circular, mas a comunicação é a escatologia do verbo. Quando necessitamos agir, optamos por dizer e quando dizer é o necessário, o fazemos mal. Para isso não existe alfabetização e, por isso, nos odiamos tanto.
Quem me dera eu estivesse falando da humanidade inteira, mas estou falando de ti. E entre mim e ti, esta cidade intensa, banhada em fluido de Cowper e frigidez aguda.  
Meu amor, Irene não riu. Caetano estava errado, Irene nunca ri. Você empunhando seu séptico tinta cão nunca reparou. Estava ocupado demais com suas engenhocas mentais e alicerces inconstantes, erguendo catedrais anódinas, batizando anônimos em líquido prostático e dispareunias simbólicas. Rodeado de um mundinho Discovery e necrológios blue-velvet enquanto os pigmeus da Ásia menor saqueavam minhas utopias contigo. Isso deve parecer muito louco, mas surgiu em apenas dois minutos do teu silêncio. Em uma vida toda minha cabeça se tornaria um playground de budas psicóticos.

Temos muito em comum: sabemos fingir que nada acontecera. Olhamo-nos com leveza e debelada solidão. Elevamos a mesma taça e o mesmo vinho vertemos em contraditória degustação. O retrogosto embriaga-nos palmo a palmo, um amargor lúdico nos elucida enquanto, silenciosos, nos amamos por mais um dia.