quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Vai, cai.

a falta tua. algo como pele. algo como sexo. mas não mais. tenho optado pelos aviões que passam sobre a minha cabeça, seus pandemônios de madrugada, me tirando sono, que eu tenho chamado de paz. Porque o caminho da consciência é um caminho quase sempre de dor. E como quanto mais ciente eu fico, mais louco me ponho, prefiro dormir. Boa noite. 

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Sobre a força dos santos

{sem título n°2-

O que está havendo aqui, senão saber-se só. Senão saber-se totalmente responsável por tudo. Pelos erros, pelas burrices, pelos louvores, pela falta de humor, pela falta de amor. O que está havendo aqui, senão apenas saber-se vivo. Um animal competente, um ser que se enleva tão facilmente em busca do que chama de felicidade, de prazer, de dignidade, de plenitude. O que está acontecendo aqui, senão acordar todos os dias pela manhã com a meta de sentir-se saciado. Saímos para empreender, e voltamos ao fim da tarde estrategistas: uma longa experiência e uma estreita completude. O que está havendo aqui, senão um excesso de nitidez da qual não estava preparado para enxergar. Gritam os contornos, os contrastes, todas as matizes gritam. 





terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre mudanças

Ana Tereza Barbosa
{sem título-

Amar nos coloca em muitos riscos. E, na verdade,  só se pode vê-los quando se está só. Admiro quem ama sem depender e realmente acho que essa é uma meta evolutiva pra qualquer ser humano. É que quando se ama dependendo (de presença, de rotina, de calor, de frio, de sexo),  se perde em dobro, dói em dobro. Por incrível que pareça, é na rotina que as coisas se constroem, e é justamente por causa dela que os grandes amores acabam.  (?) Alguém já disse isso, que não são os grandes atos que derrubam um relacionamento, mas os mini-assassinatos do dia-a-dia. E só depois que a coisa degringola, que uma pergunta tão óbvia de resposta nos faz parecer imbecis: mas, se há amor, porque nunca mudamos? Por que perpetuamos o erro? Há um defeito em encontrar pessoas que queremos estar até o fim ao lado delas: na aparente impossibilidade de perdê-las, nos tornamos indiferentes, passivos. É o primeiro mini-assassinato. Uns gostam de cuidados, outros necessitam de seus momentos de solidão. Uns se mantém sempre fortes, quando as vezes, demonstrar a fraqueza poderia ter sido o maior gesto de resistência. Somos iguais, seres humanos fracos, morrendo de medo da solidão. Morrendo de medo de perder, morrendo de saudade. Simples assim. Não tem segredo. Em algum momento vamos descer mais fundo, mais fundo, simples assim. A rotina se transubstancia rapidamente: ela pode ser feia, indigesta, sufocante. Mas quando você a perde percebe que era desse feio, desse indigesto e desse sufocante que você se alimentava. Ao fim, tudo se resume ao medo. Ser uma pessoa melhor sempre implicará em perdas e dor. É um caminho. It's a long way... It's a long, it's a long, long, long... It's a long way.



sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sobre sentimentos

Lanhar estes sândalos.    

Robert Mapplethorpe - Plate 179. Untitled (self-portrait). 1973-75
Todo dia uma nova cura. Isso é importante. Deixar que os antibióticos tenham efeito. Toda noite, uma nova doença. Aperfeiçoar os vícios, fracassar com mais técnica. Acreditar no invisível com maior desenvoltura. Delegar picos de esperança, picos de açúcar, picos na veia. Esperar o próximo dia com calma e gratidão. Dar a ele um sentido menos ingênuo: poderá ser um novo deslize, mas uma próxima chance. Às folhas sem saúde, dar-lhes lâmina. Não ter mais dó das partes doentes. Perder o medo de cortar o que não se restaura. Preces às gêmulas, odoyás aos gineceus. Permitir que floresçam, sem ciúmes, sem apoderamentos. Só se lhe outorga posse ao que tornou-se facécia. Amar ao passado com o devido respeito e a imprescindível apatia. Ter conhecimento da frouxidão do corpo e sua decência, bem como a sua autoridade. Compreender a urgência dos berros atônicos de quem não se reverencia o fracasso, das doçuras deste dissabor, do umami desta alegria imprudente. Todo dia curar-se. Curar-se também das coisas ótimas, para livrar-se da prepotência e dos vícios. Curar-se do entusiasmo pelo bonito, pra não tornar-se deveras complacente; curar-se do arrebatamento sem propósito, para não tornar-se injusto. Todo dia curar-se de si. Ter força, pedir força, compartilhar força é simplesmente ter consciência da fraqueza a qual todo nosso volume está submetido. E, ao fim, não será apenas volume. Dar uma chance ao nosso lado invertebrado, religar as células. Desligar os dogmas. Na medicina chama-se amputar. Na vida, prudência.
Engana-se pensar que a doença inutiliza. Amaremos no aumento de milímetro a milímetro desta sutura. Ultrapassaremos derme, epiderme, gorduras, músculos, artérias, tecidos, átomos e quarks. Quando ao osso chegarmos, muito ofegantes, nos arrependeremos e sentiremos profunda desventura. Ainda assim, lanhar estes sândalos. Tenho percebido, ainda que desacreditado: não basta saber perder. Tem-se que arrancar de si. Humanos necessitam ritualizar suas dores para sentir que estão evoluindo. É a lógica do vegetal-carnívoro. 

sábado, 6 de junho de 2015

Sobre eletrodomésticos: motores de geladeira

Loomis Dean
CHACRONA JAGUBE

(com cópia oculta para Arvo, att.)

            A gente se fala, entre um seixo e outro, uma unha roída e um molho azedo. Tentando desclassificar a solidão, aleitando essas coisas felizes que pintam por aí, colorindo espaços em branco. A gente se fala entre a faixa riscada e o silêncio da geladeira. Na pedreira dessas fortunas, nas lorotas desse interior. Nos falamos assistindo a vida dos outros, ignorando a vida dos outros, trancando algumas janelas ou derretendo colheres de manteiga. Nos falamos, entre mobílias sonolentas demais e barbas na pia. Entre apitos e televisões, alças puídas de mochila, flores comestíveis e ejaculações lisonjeiras. A gente se fala, mientras si pueden oyer abrazos rotos y colores totales, entre tonéis de rumbas malditas e sertões de laboratório. Fazendo glaçagem sobre os morangos mofados ou colocando as omoplatas no ritmo. Arriba, coño, arriba! A gente se fala quando nossas meias virarem polainas, ou quando o céu for azul demais. Solidão só é boa quando é controlável, a gente se fala. Quando quisermos controlá-la, a gente se fala. Por enquanto, gouttes de chocolat. Cascatas disto. Nos hipermercados norte-americanos, nas gôndolas de chacrona jagube, no seio irmão, na fraternidade mística, na busca irrefreável da cura das doenças da semana. A gente se fala.
Quem nunca? Na prata fosca, no gás aberto, é neste chão frenético. Na sabedoria buliçosa, nas microondas pela casa, no bendito farol da praia onde fiquei contando os giros.  No leite lhano, no idioma dos santos. A gente. Detidos, espirituosos das anfetaminas delgadas, tudo lindo no que se fez. A gente se fala.


sexta-feira, 8 de maio de 2015

Sobre confeitaria

MACHADADA DE ASSIS: 
terceira lenha.



O beijo com gosto de marzipan, limalhas de metal de faca no canto das bocas. A procela deitou o milho e destruiu as margaças. Ainda assim, nenhum resquício de impermeabilidade. Havia um pouco de blush nas bochechas: não se enrubescia gratuitamente. Tampouco havia motivos para enrubescer-se gratuitamente. O blush é uma timidez premeditada? Não, é uma maquiagem. Quer dizer rubor. E rubor quer dizer vermelhidão. Vermelhidão quer dizer qualidade do que é vermelho, e vem do francês vermillon. Bem, eu não sei falar francês, portanto é inútil. Creio que não há mais o que discutir sobre esse assunto. Creio que não. Você crê que estou certo ou que crer que não há mais o que discutir sobre esse assunto seja uma crença passível de negação? Creio que sim. Silêncio. Marzipan, limalhas de metal, milharais e margaças secas. Um céu amarelo-cúrcuma de tarde finda esporula estrelas hoje. Milhares. 

domingo, 19 de abril de 2015

Sobre coisas sólidas

Machadada de assis: segunda lenha.
Pacífico Siliano - Against Nature

Não tem sido tão fácil quanto eu imaginei que seria, Arvo. Quando consegui tudo o que sempre quis, perdi tudo o que eu tinha. Separações são difíceis. Porém mesmo sendo tudo tão óbvio, veio-me a necessidade de esboçar a grandeza dessa fulguração invertida, deixar registrado em um quadro a bancarrota. Mesmo porque nos misturamos tanto, a pele, as músicas, as esperanças, que a sensação é exatamente como se houvesse uma peça de meu corpo que desacoplou-se e está perdida, em algum lugar. E que eu deveria achá-la, pois todo o meu funcionamento está comprometido. Talvez como se me faltasse um rim, uma retina, um dos pulmões. Confesso que é muito estranho, Arvo. Entretanto, todos nós sabemos que, com o tempo, o organismo se acostuma a viver sem aquele órgão, e delega as funções dele para outros, simplesmente a fim de que possamos continuar vivendo.
            Eu estou vivendo. Isso parece-me incrível. São os sinais da delicadeza do universo, ou de Deus. E o próximo passo é sempre uma revolução, apenas pelo fato de ter sido dado. Arvo, é engraçado como, mesmo não havendo culpa, meu coração necessite de uma espécie de redenção. Compreende? Sim, é claro que nos amparamos onde sabemos que suportarão nosso peso (e, Arvo, acredite, embora mais esguio, o peso tem sido quatro vezes maior, e, embora maior, uma paz devastadora me neutraliza o caos).
            Tenho as vezes a ligeira impressão que a pele sofre mais que o coração. Justamente porque nela, diferente do coração, a dor não é abstrata, mas sim química, tangível. Minha pele está triste. Minhas narinas, o céu de minha boca, meus dedos, meu cenho. Dos adágios mais chavões, hoje abarco todos. Obviamente, não é Arvo? Embora titubeante, sempre fui um ser óbvio.
            Separar-se é aprender a viver sem si.

            Uma episiotomia onde nada nasce. Um silêncio longo e ávido. 



quinta-feira, 9 de abril de 2015

Sobre o amor

Dos dolorosos 
maios 
não sobraram 
nem os púcaros

Band à part: New York Undergound 60's 70's 80's

             São patos. Pendurados, nada de penas, bastante limpos, eu poderia pensar: que brisa! Estava realmente agradável. Iria comê-los naquela mesma noite, com vinho, ligeiramente crus por dentro, um molho de carne bovina muito denso e untuoso. A textura aveludada: lógica e concisa. Teríamos feito muito mais, se nos tivesse sido ofertado o tempo necessário. Poderíamos ter plantado pés de groselha. Eu estava realmente disposto! Os anúncios no rádio são para dar-me letargia. A letargia, me diria ele, novamente? Acendendo um outro cigarro. Não fumo, mas o tabaco desenha-se altamente propício nos invernos. Não fumo. E daria tempo de colhermos as groselhas? Certamente. Eu certamente bebo. Outra vez. Acostumei-me a não ser abstêmio quando contabilizei o tempo perdido. Vastas contas, longa matemática. Convém cozinhá-lo no vinho, até que se desmanche? Preferimos cru por dentro. Patos não foram feitos para desconchavarem sob o fogo, digo, mortos. Nenhuma ciência, tenho a solidão como uma masturbação consagrada.
            Preferimos cru por dentro. Creio que eu esteja perdendo um dos rins. Optando por nos separarmos. Por ora. Não somos mais felizes. Admitimos isso sem nenhuma melancolia. Apreciamos o pato, indica-me um médico? Quanta tolice, meu Deus! Nestes tristes trópicos groselha não dá! Aspirações inéditas de adolescência. No lixo. Quem precisa delas? Nos sorvetes.
            Não confio nos estetas e muito menos em racionalistas, por isso execro confeiteiros. Por que trocaria um belo pato? Uma vez, discutindo, ele disse-me: pudico! Sim, bastante.  Naquela noite muito fria, maio, provavelmente, ele já se fora, um cigarro aceso sobre o cinzeiro, queimando silencioso. Não fumo, mas, desenhou-se tão altamente propício neste inverno. Registro de um coeficiente exótico de carência. Notas de aromaterapia.
            Muitos corpos na rua, de corpos eles não passam, desta janela cujo metal (vil) queima de gélido. Degusto maios incomuns. Você volta? É bem plausível que não. Projetei-me bastante sádico. Atroz, ele prefere. É bem plausível: atroz. Que seja. Por ora.
            Muitas viagens engavetadas. Há armários que jamais abrirei novamente. Monstros lá. Horrores lá. Saudades imprecisas. Tudo. Por que nunca viajamos? Apenas grelhados, dourados por fora, crus por dentro.
            Quanta tolice, meu Deus! (um abraço). Chega de conversas desnecessárias. Uma cerejeira, talvez? É absolutamente plausível. Claro. Fui deveras cruel. Atroz, ele prefere. É totalmente compreensível. Novos chás sobre a prateleira da cozinha. Uma água fervendo interminavelmente. Não beberemos chá. Está colecionando! Os ingleses gotejam leite, não? Sim, é totalmente compreensível. Por ora, sem arrependimentos. Está feito.
            Zestes de limão. O perfume é tão crível. Ah, que brisa! Estes patos foram abatidos hoje. A carne ainda quente, suspensos. Um ramo de alecrim, sálvia, tomilho, o outono fenece aqui. Respirar profundamente, absorver isso tudo. Destes maios insólitos, sem pele e sem medo.
              Crus por dentro. Os franceses preferem assim.







quinta-feira, 19 de março de 2015

Sobre aboboreiras e fé

Prece da despedida de Calunga

J.J.M.S. "Gurucaia, 2015"
"Adeus, adeus, adeus, adeus já vou-me embora
Que meu padrim Calunga me chamou na Angola
Filhos e filhas, eu vou me retirar, calunga vai-se embora
Ele vai pra descansar..."


            Noite alta, superalta. No meio dum mato verde muito escuro, um homem espanta a chama de seu candeeiro, deixando que o peso de suas pálpebras cerre seus olhos. Ozório nunca soube rezar do jeito certo. É que prece feita não encaixa em boca de poeta. É verdade também que Ozório não é poeta. Nessa noite alta, tão alta, suas duas marias já dormem e no silêncio da solidão vigiada da mata, ele canta. Teve uma noite muito dura. A voz sangrada de quem não escolhera o próprio destino dilata suas raízes na varanda. Só porque não se brota chama de querosene, a lua derrama noites insuspeitas sobre ele. A terra já fria convida seus pés descalços a se tragarem, enramando-se no solo, virando ele todo terra, todo mato, todo escuro, todo prece. Ozório é um homem raro, embora seja como todos os outros. Incompreendido, como todo homem raro. Mas conformado, como todos os outros. Dos poucos seres que encaram a noite - não os notívagos ou os boêmios - Ozório é perecível. Arrosta-a porque sabe de seu perigo, do seu silêncio movediço, das suas brechas pro infinito. Mas, principalmente, arrosta-a porque sabe como é fácil perder-se e, uma vez perdido, como é difícil voltar. A noite existe para pessoas que elegeram viver com suas feridas hiantes, a noite existe para quem é inteligível e rigoroso. É aos homens crus que ela se entrega, à carne ainda cintilante, caridosa e mística. Nas poucas vezes em que nos falamos, pedia-me com bárbara doçura: não cuide muito as estrelas, a noite é crespa, e de pororocas de incompreensão o silêncio pode engolir-te.
            Obedecia. Mais adiante a terra mais fria estava, úmida por uma espécie de orvalho benevolente, as galinhas serenas nos poleiros, uma ou outra coruja perfurando a noite. O peru sobre a cerca dormia como uma lua negra, poderoso, sábio na sua natureza breve, um equinócio na solidão. E, por não ser poeta, justamente, não foi lhe dado o desejo da exaltação ou da admiração. Era simplesmente grato e isso já lhe bastava. Tornava os mistérios chulos, os esoterismos lânguidos e as astrologias engraçadas. Compreendia com vaporosa ternura a existência de tantas teorias em um planeta tão pequeno. Sabia que o bicho homem ainda não aprendera a ser bicho humano, sempre faltou-lhe as patas ou as asas.
            Quando a noite começava a ir-se embora, o candeeiro desencandeava-se, marias acordavam, o cheiro de fermento, nuvens de gás carbônico pela casa, animais magros esperando a morte, a queima de um fumo fresco na âmbar palha, alfaces queimadas do frio, um jerimum solitário no canteiro, o leite espumoso dentro das garrafas de refrigerante. Só uma aleijada gratidão entusiasmava seu fôlego. Um segredo nítido: poeiras sólidas em um peito de vasta devoção. 



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sobre fraternidades

Work songs para uma noite sem Deus

Imagem: Autor Desconhecido
No recanto em questão todo cantor de jazz morre de cirrose, acamado num balcão de carvalho, com as unhas puídas e um Trident de melancia grudado abaixo de seu assento. Fora anexado há cinco vigílias completas, por uma jovem que fedia a Chanel cubano e passava noites em claro fumando charutos ternos, com os olhos apastelados, licenciosos e católicos. Seu vestido de esmeraldas era um paéti vagabundíssimo que ela usava em noites que considerava extraordinárias.
No recanto em questão eu também morrerei de cirrose, mas provavelmente o balcão não será mais de carvalho. Quando eu ouvir Eartha Kitt ecoar dalgum amplificador de som opaco, eu me levantarei e dançarei tímido entre aquele homem com sua garota na mesa 8, tomando uma cerveja levemente morna, os cabelos ensebados pelo labor do dia, olhando com avarenta ternura sua moça a quem atende pelo pelúcido  apelido (informo: do substantivo pelúcia lúcida) de “xoxotinha”; e entre aquela senhora com cara de evangélica arrependida, empanturrando-se de coca-cola diet e torresmo da tarde de ontem. Ninguém me notará, o que acharei ótimo. Uníssonos, eu e Eartha diremos, debochados: “I don't wanna be alone. Where is my baby?”, todos entenderão.
Haverá posteriormente uma melancolia floral, bastante comum em noites de terças-feiras, dessas noites inválidas mas emergentes que realinham nossos sonhos e nos silenciam. Não haverá como voltar, pois certamente será tarde e optaremos, eu e aquela velha louca da Carolina do Sul, por insistirmos no derrame. Vamos rir muito, porque é tão interessante reconhecer-se em um estado deplorável com translúcido desvelo. “Estamos deploráveis” ela vai balbuciar enquanto canta mais um pedaço da minha canção preferida, Love for sale. E eu vou rir um tanto mais, porque tudo é incrível.
Ambos tivemos amores grotescos, mas compensamos com nacos de compostura. A senhorita Kitt, creio que mais que eu. Ela é tão impudica.
Como sempre, ela em dado momento da noite, depois de beber um gole da sua cerveja, de uma densa espuma cândida (nota de rodapé: ela acharia ridícula essa colocação meio rococó-bilú-cotrofe-pós-bethânia de “densa e cândida”) reclamaria dos homens que bebem vinho e achincalhá-los-ia em algo como “são uns metidos a besta, de almas carentes e frouxas”. Tenho certeza que no inglês essa frase seria ótima e bem mais convincente, entretanto o álcool não me concede léxico. O balcão não será do ortodoxo roble e a compungir-se das paixões, nos ignoraremos por um áspero instante. “Você é mais brochante do que um choro-maxixe e do que a bossa-nova”. Ouço quieto, ela se arrependeu de ultraje tamanho e me paga uma dose de um uísque ruim, mas honesto. Absolvi, com uma feta de admiração: ela não é xenofóbica e compartilhamos das mesmas predileções auriculares. Tem dessas coisas. (E ela certamente iria me injuriar por essa história barroca-twist de “predileções auriculares”).  
Conta-me histórias só dela, do prazer que sentia em caçar codornas, comê-las e conservar seus ovos em potes de maionese apinhados de vinagre. Um laço de fita majorelle blue. Uma estante cheia deles. Conta-me dos cães, e dos que não são cães. E tudo é incrível (permita-me, senhor Caeiro, estás morto). Sua esperança, já bastante rasa, ainda esteia suspensa no ar um tesouro barato, uma alegria diurética, uma sensatez noturna, uma álgebra fraterna. Pequenas joias abaixo de uma bailarina tonta e estúpida.
Em dado momento, a senhora Kitt se levanta, caminhando de forma a se denunciar embriagada, senta-se na mesa 3. Olores de tergal suado e sardinhas túmidas, um regicídio me futrica a mente. Não sabemos ao certo se ela conhece o rapaz de moletom verde menta e chinelos brancos, uma barba de três dias e que ainda não perdera os contornos da última vez que se afeitara. Nem selvagem, nem moderninho.  Eartha cruza os próximos trezentos e vinte e sete segundos a conversar com ele e a ralhar seus estrupícios. Entre sorrisos hirtos e espantos medianos o rapaz retorna a oratória audaz e desgraciosa de uma octogenária alcoólatra. Se não fosse tão tarde, iria embora. Permanecemos no local como se ele jamais fosse fechar suas portas e como se a lida do dia seguinte não nos viesse arregaçar poesia e nos tirar a mucosa do céu da boca.
Abaixo de nossos pés já enterramos a senhora Fitzgerald, a senhora Holiday, a senhora Nina, a senhora Joplin e a senhorita Esperanza, que ainda nem morrera. “Logo é você, velha”, grito do balcão, apontando para o carpete. Ela me retorna um beijo trêmulo e um sorrisinho pedante, como se não estivéssemos dançando folk sobre uma necrópole de estrelas pálidas.
Em uma só noite trucidamos vários cantores de jazz. Coisas imensuráveis espraiam em nós e nos endoidecemos no sarrabulho: nunca tocaremos sua grandeza inexplorável, suas idolatrias futuristas e suas respostas estrangeiras. Se o fígado de Eartha e o meu aguentarão mais um inverno, o que foi dito nesses trezentos e vinte e sete segundos, a quem chamamos Deus e todas essas perguntas bastante cafonas que aos humanos afeiçoa-lhes emaranhar com a maestria de um animal atônito à espera do abate.

I don't wanna be alone. 




quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Sobre orixás

Robert Mapplethorpe - Carol Overby, 1979
Santa Bárbara 
de Nicomédia, atenciosamente

Temos muito em comum. Somos desastres da álgebra e da dialética. Nossos raciocínios nunca foram lineares, vivemos dando motivo para que não nos compreendam. Notamos beleza nisso, talvez. Esse jovem desejo de estarmos incompreendidos, porque nos falta linguagem clara, e nossos anseios nunca foram concisos. Mas não apenas isso. Quem sabe também os mesmos orixás e o mesmo Guia. Não sei se já te contei isso, peço desculpa se eu for repetitivo, mas, se as tempestades se acumulam, devemos cortá-las em quatro, lavrar seus pesos e seus terrores em novos lestes. Santa Bárbara o faz com colérica coerência.
Mas não apenas isso, nossos corpos separados são bastante atinados, entretanto, juntos são bastante asnos, nossas peles não dialogam, se estrepam. Nossas bocas não emitem, ladrilham o silêncio e, aquele suor nos blinda. Eu tentava te explicar isso esquizofrenicamente, mas você não entendia e quanto mais você não entendia, mais eu me sentia errado. Faltava-me confiança, já sei até teus contragolpes, sempre muito claros e elaborados. Dir-me-ia coisas como “não me culpe pela tua deficiência de exatidão gramatical” e aí por diante. Tínhamos realmente muito em comum porque, igualmente eu pensava que eras surdo, e que meu hermetismo noviço não aniquilaria o mundo com seu egoísmo alalaô. Você não estava surdo, e eu não fui um erro da semiótica. Quando se tenta explicar com algoritmos o indelével, se assassina a quântica.
Não sei se já te contei isso, desculpa se sim, mas meu avô talhava as tempestades. E eu achava lindo, e o guia dele era um índio. Obviamente, nem sempre sua lança estava afiada o suficiente e os ventos se derramavam juntos, ávidos, ali mesmo, numa cumulação de pânico porque, de fato, algumas tempestades foram feitas para nós, quando não por nós. Essas, Bárbara deixa. Quem atina a própria borrasca sabe enxugar suas preamares.
É preciso obedecer as tempestades para ganhar-lhes respeito e rasgar seus titãs. Levantar outros costados ao seu redor, mas deixar as portas abertas. Meus vícios todos, minha vida, estão aqui.
Eu não sei se estou sendo circular, mas a comunicação é a escatologia do verbo. Quando necessitamos agir, optamos por dizer e quando dizer é o necessário, o fazemos mal. Para isso não existe alfabetização e, por isso, nos odiamos tanto.
Quem me dera eu estivesse falando da humanidade inteira, mas estou falando de ti. E entre mim e ti, esta cidade intensa, banhada em fluido de Cowper e frigidez aguda.  
Meu amor, Irene não riu. Caetano estava errado, Irene nunca ri. Você empunhando seu séptico tinta cão nunca reparou. Estava ocupado demais com suas engenhocas mentais e alicerces inconstantes, erguendo catedrais anódinas, batizando anônimos em líquido prostático e dispareunias simbólicas. Rodeado de um mundinho Discovery e necrológios blue-velvet enquanto os pigmeus da Ásia menor saqueavam minhas utopias contigo. Isso deve parecer muito louco, mas surgiu em apenas dois minutos do teu silêncio. Em uma vida toda minha cabeça se tornaria um playground de budas psicóticos.

Temos muito em comum: sabemos fingir que nada acontecera. Olhamo-nos com leveza e debelada solidão. Elevamos a mesma taça e o mesmo vinho vertemos em contraditória degustação. O retrogosto embriaga-nos palmo a palmo, um amargor lúdico nos elucida enquanto, silenciosos, nos amamos por mais um dia.