quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sobre pedaços

Marwane Pallas
Pro
celá
ria
Das coisas ordinárias. Desde as de Otto Lara Rezende, até as mais singelas. Das que predominam e das quais não se reconhecem nem as notas do cheiro. Das coisas ordinárias sou doutor. Amacio-as na minha realidade, amanteigando suas barbáries: são muitos acordeons, pianinhos, singelezas, coices mestiços. Quando eu era pequeno, alguém deve ter me ensinado que do ordinário não se deixam nem as migalhas, lambe-se a louça. Que da comida mais vulgar se extrai beleza e que, de certa forma, poesia mesmo só nasce das bordas, das aparas, das raspas, do que se iria jogar fora ou do que se engole sem sentir. É bruta manobra de Kristeller.

E então, depois, gostava de lustrar o ordinário, brunir suas pétalas côncavas. Dar-lhe pompa e elegância, sem consentir que deixasse de ser rasteiro, comum, descartável, exíguo.

Não, isso não significa que admiro as pequenas coisas: vento balançando cortinas, farfalhando folhas secas, imergir a mão em um punhado de grãos de feijão em júbilo ululante, não me passam de asneiras amaneiradas. As pequenas coisas nunca me apeteceram, ou a simplicidade com sua opressão e infida virtude. Gostava quando menino apenas das bordas. Sempre, as bordas. Tive uma infância recheada de beiradas, margens, transbordamentos, bocadinhos, ourelas, aparas, marquises. E vivi feliz. Apetecia-me eviscerar o banal, jogar suas tripas ao vento, brincar com o inútil. Quando descobri Manoel de Barros, vi que não era assim tão original, entretanto, não me sentia mais tão só. Minha mãe dizia que eu era um simbólico medíocre, que sonhar pequeno era minha dádiva e que me contentaria sempre com o mínimo. E mal sabia ela que era no mínimo em que eu me emporcalhava, alucinado.

Sim, senhor Rodrigues, gosto dos bonitinhos que são ordinários, faço banquete com a sujeira do canto das bocas, ceio os grãos esquecidos entre os dentes, pois é no cais em que me afogo. Dos oceanos todos quero só o espetáculo. E ainda que pareça autoproteção em demasia, quem nunca se pôs vulnerável ao indefeso, debilitável ao desarmado, não conhece os sinais da procelária e, tampouco saberá se abrigar.

Isto aqui me basta. Esse pouco, esse naco, essa fatia.
É desse resto de confete pisoteado em que teço minha fantasia.


E só digo amém. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sobre algumas dermes

Robert Mapplethorpe

Tutano com café
Os gatos ficam bestas entre os portões, olhando a rua. Inexpressiva como ontem. Exalam a expressão de que, quanto mais vivemos um amor, menos gramatical ele se torna. Não porque sua beleza é fulgurante e tão absolutamente estética que nenhuma palavra poderia garatujar-se no verborralho das definições diurnas, mas porque as frustrações se tornam tão complexas, que é difícil diferenciar o que se tem nojo, do que se quer repetir.

Os gatos são tão estúpidos nos portões, espreitando seus pelos entre as grades, passivos. Ficando inúteis. Focados.  Tendem a acreditar que o mundo é o espaço asfaltando entre um paralelepípedo e outro.  As vezes me nota, olhando aqui da janela.  Deixa claro que a minha existência é redondamente vulgar, porque tudo é comum e descartável aos seus olhos. Muito provavelmente por isso que sabem que toda demonstração de afeto não é nada mais do que a consciência de que somos bichos solitários e funestos, com crônicos defeitos de comunicação.

Parecem deixar claro que, já que chegamos ao osso, deveríamos apreciá-lo com majestoso paladar de rudes animais que somos. Parecem deixar claro que nossos próprios feitos comprovam a inutiliza da nossa racionalidade. Os gatos ficam bestas entre os portões. E nós que sabemos aproveitar o tempo.

Empunhando uma insossa Vono que ainda fumega no caneco de porcelana banal, observa uma vagarosa nuvem de neblina adentrar seu apartamento no décimo quinto andar. Branca, ligeiramente densa, lenta. A nuvem passa pelo seu corpo, a lhe lambuzar a face de renascimento, atravessa a sala e sai pela janela do quarto, ainda densa, ainda branca, ainda lenta. Infausta em via crucis, como convém a tais condensações... O mundo parara por um minuto, talvez dois. As guerras cessaram, as putas sentiram prazer, os profetas calaram a boca e a miséria acabara, não porque a abastança imbricara na vida, mas porque a fome deixara-lhe de ter. Concomitantemente, os gatos, bestas, entre portões.

Sopra-lhe um amor ou outro do passado, já que o tempo apaziguara as tristes memórias e só realçara as sardas da saudade. De alguns, altanaria, de outros, forquilhas. Ama-se porque, se não o fosse, só haveria a morte como entretenimento. Ainda que os gatos morram ou tenham sete, ainda que fujam da água, comam ratos e lagartixas relapsas, não haverá culpa maior, desejo maior, ou pequenas redenções de bolso.

E, se a sopa está fria, e se os gatos nunca entenderão... Por quê?