quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Sobre as ondas

Um soneto para Wichita Vortex Sutra

Marwane Pallas
Ele tinha, como eu, a mania de saturar as músicas que amávamos, tanto ao ponto de se tornarem nocivas. Ouvíamo-las centenas de vezes, ao acordar, ao estudar, ao comer. Tínhamos os nossos motivos. Não obstante, uma das vantagens de ser jovem é exagerar no que se quer, e ignorar o que se dói. E, embora aquela música nos doesse – porque lembrávamos um do outro – ouvíamo-la, a perder a conta. Ouvíamos para dormir, ouvíamos para amar, para avacalhar, para gozar, para chorar, para insultar, para querer morrer, para querer nascer. Ouvíamos porque a tínhamos como religião, e como a religião é para toda a gente: nossa papoula e nossa porção de sanidade.
Nesse pêndulo sentimental cujo lado oposto de Ginsberg era a cativante literatura aperolada e negra de Lygia, estávamos sempre com os pés fora do chão, porém muito cautelosos em não nos deixarmos voar, ou sermos arremessados para bem longe pelas nossas próprias esperanças de bolso. Ou, na verdade, eu poderia narrar que se tratava de uma gangorra em que, para que o outro perdesse a gravidade, era preciso que um fincasse os pés atônitos no chão. De fato, a translação não é nada folgazã. Mas tínhamos tanto o desejo de postergar tudo aquilo, se espalhando como fractais por dentro, que nos envelhecíamos um ao outro, como a amarrar as toras de um bote que iria sumir num mar muito profundo e, que embora sem fim, sabia perfeitamente desaparecer com alguns de seus veranistas. Ele era o meu João-Galamarte. E muitos se desvaneceram.
Para ele, eu me afogaria primeiro. Sempre quando íamos tomar banho de mar juntos, e eu muito desastrosamente afogava-me com injusta facilidade, dizia-me em tom chistoso e olhar pernicioso que meu orixá era Janaina, e que ela estava me querendo de volta para seu reino de Aioká, nos tutanos do oceano Atlântico. Seguia a afirmação de um sorriso sacana e despreocupado. Tacava-lhe punhados pesados de areia molhada com carcaças de moluscos proferindo-lhe injúrias. Ele corria, sorridente, para o mar. E nele se virava tão bem, que por alguns segundos eu não só acreditava nas suas histórias burlescas, como desconfiava que aquele yorubá sabia que, de fato, eu me afogaria primeiro. No mais, a ridícula coincidência é que era dia de festa no mar. E as ondas, ora me devolvendo, ora me tirando. E, justamente a imagem dele indo e voltando, conforme a vontade dos ventos, proporcionava em alguma parte interna do meu corpo – um órgão talvez, uma sinapse perdida, quem sabe – um absoluto conforto quase macabro.
Quando a bruma anuviava o mar e a noite o descolorava, íamos embora com muito frio, trêmulos, frouxos, sem o arrojo suficiente para nos aquecermos como duas pessoas prudentes deveriam fazer, ao menos na minha cabeça. Dois hesitantes iriam perder, fatalmente, muito tempo a calcular o passo certo, na hora certa, imobilizados pela própria ânsia de harmonia.
Depois de tanta digressão, recuávamos concentradíssimos à música, empenhados em cantarolar da forma mais fiel e bonita. Nos intervalos de uma estrofe para a outra, era possível observar o capotraste agarrando as cordas para o prometido refrão, ainda que ali não houvesse violão algum. E por essas intermitências todas, meu deus, quase se ouvia o drumembêis do coração dele. E eu me adentrava em uma espiral aproximadamente psicodélica de fusas, semifusas, claves semibreves, semínimas colcheias, semibreves sóis, mínimos dós, que meu corpo mesmo era papel pentagramado insubmisso e eu me liquefazia em uma ácida felicidade inominada.
Não poderia imaginar que a profundez da nossa irmandade seria um desabrido amargor. Que a facilidade com que seu cheiro se entrelaçava à maresia o tornaria indigesto, que a largueza e fundura de seus poros se tornariam abismos, alçapões, lugares onde eu desapareceria.
E que fundos os poros teus, que longa queda livre.