sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sobre insetos

Só os cafonas enriquecem

“Só os cafonas enriquecem”, ele me disse tomando um gole de Itaipava light semiárida. E, tudo o que eu conseguia pensar era: como ainda estou pobre? Daquelas epifanias caseiras, domésticas, que ninguém quer ter em plena tarde de um frio arrogante de julho, as narinas secas, a mucosa estarrecida, e uma tosse de octogenário doente que insiste em acreditar no amor agreste das putas barrocas dos subtrópicos. Eu, olhando pra sua cara encarquilhadamente confiante, seus lábios civilizados e macilentos de quem chupara as bucetas frígidas do Caiacó. “Você bem sabe”, concluiu depois de alguns outros goles, como quem olhasse para frente, uma parede branca absolutamente inexpressiva, e dela interpretasse toda a sabedoria do mundo.
Era um velho óbvio e degradante, tinha um cheiro clorofilado de chuva de verão e sovacos enodoados. Sempre tive um certo amor por tudo isso. “Sempre tive um certo amor por tudo isso”, falei baixo, forçando um ar meditativo. Pensei que ele fosse me desmentir, porque sabe perfeitamente da minha tara por ansiolíticos e, além do mais, sempre disse em tom catedrático para não confundir cafonice com medo de amar. “O que mais me espanta na sua frase é o uso inútil do artigo ‘um’ antes do adjetivo”. Em seguida sorriu com os olhos, daquele jeito que eu odeio. “Você é uma merda”, pronunciei em tom profético e litúrgico. Ele concordou e brindou comigo. Gargalhamos, ele tossiu, porque sempre tosse quando gargalha. Quatro vezes. Depois, falamos de coisas bastante previsíveis, sobre o tempo perdido, sobre como os viados de hoje em dia são deselegantes, sobre pansexualidade monogâmica, sobre a diferença de bergamotas e tangerinas, sobre insetos. Ele, sempre escarrando para enfeitar o desconforto, discursava sobre suas preferências e eu, bastante comovido, entretanto cético, concluía: “continuo preferindo panturrilhas”. Ele me chamava de doente, ria, bebia mais um gole da sinistra cerveja, tênue como jamais se esperaria de um ser tão porco. Como não gargalhou, também não tossiu. Tínhamos uma parceria muito agradável com o silêncio. Respeitávamo-lo: seu tempo, seu frescor, seu motivo. Não obstante, vale notar que a única coisa refinada proferida nesses anos de prosas impalpáveis por ele foi: “silêncio bom é silêncio indecente”. Até hoje tenho aguardado ele falar algo similar, mas tudo o que sai embargado em seu hálito pestilencial é sobre bucetas, namastês e aromas de pilhéricas virilhas arrebatadas. “Você me acha repugnante, e eu te acho entediante. Prefiro repugnante, pessoas detestáveis têm mais chances de serem amadas”, disse em tom poético. Em seguida, lançou um daqueles comentários psicológicos sobre mim. Olhamos atentamente um para o outro. Ele tossiu. Depois de rir bastante, é claro. Eu também ri bastante.
Pegou um inseto no ar, abriu a mão, “que nojo!”, disse-me mostrando a pele suja de sangue. Limpou na calça cinza de linho. “Esse desgraçado não me pega mais”, resmungou.
“Você vai me fazer falta, velho porco”, eu disse e, admito, querendo chorar.
“Realmente não entendo como você continua pobre”. Levantou-se e entrou na cozinha, justificando-se de que pegaria outra cerveja. Ouvi barulhos impensáveis, um grunhido opaco de calor. Quiçá, os porcos também se enlevam.