quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sobre dois minutos de sabedoria

Lembranças de manteiga

Costa Dvorezky
Acostumado aos silêncios longitudinais, era bastante recompensador estar de volta. Não havia mais profiteroles recheados de framboesa sobre a mesa, e a cachorra gorda, fedida e amorosa tinha morrido, de velha, de câncer, de tédio. Afora as frutas silvestres, o armário dos temperos tinha o mesmo cheiro velho de caiena, abrir suas portas lentamente como quem implode um erário, libertar os aromas do passado, mergulhar o rosto no breu dos condimentos esquecidos, era como ser sorvido e libado vagarosamente pelo corpo complexo do que já fora. Hoje achara interessantíssimos (assim, com superlativos cintilantes) os gritos pela casa, agravos, cizânias, advertências, relâmpagos verbais, alfinetadas morais. Emocionara-se de haver vida no lugar, tal e qual tinha deixado anos atrás, fugindo justamente dos gritos, dos agravos, das cizânias e outras compactas guerras.  Riu-se. Respirou mais devagar ainda, a cabeça penetrada no armário, congregando os olores oblíquos. Sua escolha era aquela: o barulho, o tumulto, a atinada insuportabilidade e agora um imprevisto cheiro de murumuru com metal oxidado. É deveras difícil escolher o que não se quer, mas que se precisa. Era bom estar de volta. Relativamente lobo, coiote, da caça regressava sem presa, estômago vazio, dentes limpos e muito sujo. Ofegava. Não trouxera o alimento do dia, embora necessitasse se alimentar. O armário, que inicialmente era só breu e gosto abstrato, começa a se revelar. As pupilas se dilatam e dilatam-se também as marcas do tempo. Rastro de mofo, restos de açúcar, um grão. Nada fazia sentido, no entanto ao fechar os olhos, compreendia, enxergava. Os cheiros da casa lhe explicavam a vida e lhe diziam que o tempo embora para alguns seja pouco, para outros é deveras muito (assim, com superlativos tácitos cintilantes). Sabia que um homem só revela sua alma quando todos os seus planos falham. Só assim despia-se. Nu, e nunca antes tão nu, constrangido com o próprio corpo, com a própria nudez, vulnerável a si, desarmado. Os pistilos de açafrão não eram mais vermelhinhos, escarlates, como convém ser a parte reprodutora de uma soberba orquídea. Simbólico? Não, os pistilos de açafrão apenas não eram mais vermelhinhos. Tão velhas, as ramas de canela, tão velhas, mas ainda perfumadas. E as bagas de cardamomo só resguardavam sementes perecidas sem nenhuma nota. A cada respirada, uma página, e quanto mais respirava, mais se habituava aos cheiros e, portanto, mais rápido eles desapareciam.
Não precisaria mais dos silêncios longitudinais de outrora, tampouco das eternas meditações, do autocontrole, da suada imparcialidade e dosada indiferença que lhe conferiram melhores momentos de alegria despreocupada. Não precisava mais escrever piegas e coléricos e-mails, lapidados por horas, evitar determinadas canções, enriquecer vinhedos da Toscana ou da Patagônia em busca de nítidas abstrações, ou mesmo acordar com estranhos, ligeiramente cativados, que certamente preparariam um amável café, diriam até breve envoltos de serenidade e satisfação, e tão simplesmente não voltariam nunca mais. Não precisaria mais ter filhos para demonstrar ao mundo uma paternidade morta ou um altruísmo inexistente. Hoje sabia, sem desespero ou culpa, que nascera para si, e para si seria, eternamente, herói e monstro.

Alguns olores febris, encapsulados em um pálido frescor de nêsperas secas (assim, contraditoriamente), lembranças de cravo, de sementes de erva-doce. Lembranças de mate, de gengibre com alho, amêndoa amarga, uma bola colorida, cheia de hexágonos brilhantes atravessa ligeira o armário. Lembranças de fermento fresco e pão. Lembranças de manteiga.