sábado, 12 de abril de 2014

Sobre nosso tesouro

policloreto

de polivinila
Francis Bacon

"Irene.... Irene.... Irene...."

1ª Parte de uma historinha suja e doce.
Boletim de ocorrência 
a ser lido ao som de Irene
de Rodrigo Amarantes,
na maior doçura.


A história que pretendo contar não é sequer uma história, muito menos uma situação. Trata-se mais exatamente de um estado das coisas. Pensei muito antes de começar a narração porque o que tenho a dizer da personagem é altamente ridículo e escatológico. Eu diria que é mais complexo que a situação política da Transnístria. Eu diria que é mais complexo do que a palavra Transnístria.

Não acho realmente que a minha personagem seja ordinária, promíscua ou repugnante. Apenas concordo que todos nós temos um pouco dela, e quanto mais negamos, mais apanhamos.

Inegavelmente, sempre me apeteceram mais os seres sujos e esporrados, os que se deixam infectar, porque eles coagulam tudo o que não queremos mostrar.  É uma breve epistemologia do pus. Sêmen grudado na garganta e na retina. Um mashup de amores mofados.

Pois bem. Existem muitos coeficientes de solidão.

Sua primeira límpida turgescência depois de 14 anos: enrolar com plástico PVC uma embalagem de mousse de cabelo Karina, untar, ungir-se com glicerina íntima e enfiar no ânus. Enquanto troçava seus espasmos, contrações rítmicas e catecolaminas, agradecia sorrindo e embevecida às plataformas petrolíferas da América do Sul e sibilava com certa doçura: Johnson & Johnson... Petrobrás, Karina, I so love you all!!!!

Tinha um marido.

Seus sonhos: uma porra fria, ou, no máximo, uma cortesia discricionária. 

Seus pertences: uma garrafa de gim Tanqueray e uma bisnaga de gel.

Era preciso mais amido para engrossar o caldo. Porque eis que a vida real, não aquela que pintam os estetas ou escrevem os franceses, é tosca e razoável como uma prece repetida sem devoção.

[...]

Parecia romântica, mas tinha tesão em assistir vídeo de mulheres parindo. Passava noites inteiras observando inúmeras sequências até mijar no carpete como uma gata moribunda e ligeiramente risonha, em nirvana absoluto, de verve alucinada, ponto triplo, e acendia um Marlboro. Tão pura e santa como jamais pudera ser.

Com o tempo, tudo poderia ser embalado em policloreto de polivinila, todos os objetos da casa olhavam-na com a candidatura de entrarem em seu cú, e lhe fazerem pequenas  caridades. E ela os queria. Todos, dentro de si. Estava verdadeiramente cansada dos caralhos medíocres e ineficientes da vida. Os untuosos cuspiam mais rápido que velhos jogando bocha e os pequenos, eram pequenos. Ela era uma ode a puta repreendida que habita dentro de todos nós, a inestética puta. Pois chega de putas exprobadas. Pois chega.

Perdemos de fato, muito tempo de nossos dias com borras de café e turismo ecológico.

Tenho feito o mesmo. Acredite, é, inclusive, por conta dos residuais de café que estou aqui.

No canto mais escondido da casa cresce e procria a nossa imagem corrupta, as geometrias disfarçadas da nossa solidão, nossa indignidade disfarçada de inocência, nossa frigidez disfarçada de tristeza e nossa piedade disfarçada de religião. Tudo entre parênteses, chaves e notas de rodapé. É que quanto mais ocultamos esse lixo, mas ele se multiplica. Minha personagem sem nome é toda lixo. E você deveria amá-la.