terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sobre quando não há ninguém

Um Tanqueray para Gina
Jan Saudek
Acordou se sentindo mais cafona que Gina Lollobrigida. Era óbvio. Depois de beber tanto gin e despertar exalando essência de zimbro, não poderia ser diferente. Provavelmente deva ter feito coisas ainda mais desairosas ao longo da madrugada. Outrossim, mandara uma mensagem censurável a alguém, como convém  a esses grogues de rapina, palhaços de ocasião. Inacreditavelmente bêbado, inacreditavelmente lúcido. 
Tinha bons motivos para fazer coisas péssimas durante o seu aneurisma consentido. Flertado com antigos amores, se masturbado ouvindo Aracy de Almeida e lendo sex mangá gay, fugido de nuvens de tarântulas imaginárias e exércitos de cápsulas de cortisona. Declarou-se a quem não amava, calou-se aos que sim. Pedira perdão a si mesmo, ainda que sem obter redenção. Desacorrentara suas bestas, mutilara seus anjos hirtos. Dessacralizara seu Pai.
Não choveu, há de se notar. Círculo na lua, lama na rua, mas não desta vez. O fato de o dia estar radiante incomoda-o por ser abjeta provocação desmensurada. Sua melancolia já corusca com todos os efeitos luminescentes possíveis da natureza: crepúsculos, auroras, arco-íris, eclipses, luares, fitoplânctons. Não há de se querer mais.
Inevitavelmente – e porque é deveras comum nesses momentos – sentira imensa saudade dos pais, lamentando estar só e tão longe deles. Pensara em coisas pudicas como o abraço sempre emocionado dela, e o teso e sutil abraço dele como quem dizia “isto não está acontecendo”.
O avião talhando as nuvens, a virtuosa noite com seus prolapsos, o entregador de jornais rasgando a madrugada, o gélido parapeito da janela, os morcegos estabanados, um ônibus solitário costurando a cidade. Beckett diria que a terra deve estar desabitada. E, de fato, talvez o velho Krapp esteja certo.
Teve uma ligeira pena do amor que, por ora, tornava-se tão débil nos desdobramentos da vida. Teve uma ligeira pena de seu amor, que sofria, por ora, das mediocridades da lida. Um cálculo cujo resultado nunca fora muito empolgante.
Computou os déficits, lucros, azias, pirotecnias apaixonadas, perda de cabelos, ejaculações precoces, erros gramaticais, acidentes domiciliares, amores mal retribuídos, disfunções eréteis, arrozes queimados, lágrimas toscas, pernilongos prófugos, excesso de peso, havaianas arrebentadas, e apenas concluiu que, naquela manhã, tudo precisava ser absurdamente transformado.
(...)
Mas antes, a derradeira dose de gin e uma última punheta para Lollobrigida. 
No rádio, Aracy emociona até as moscas. Como sempre. Ele chora. Como nunca. 



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre recados de geladeira ou cartas impossíveis

Machadada de assis,
primeira lenha.

Foto - Autor Desconhecido

Não mais insolente aquele olor de calêndula encanecida, dos córregos lascivos de tua potência, da urgência sepulcral da tua paixão, dos relatos purulentos de teu calhado côncavo. Não mais rasteiro que as concórdias imorais do teu verbo, nem mais ordinário que a incongruência das tuas sanidades. Sexo a gladiar tesões cruzados de recônditos inóspitos, de espectros empoleirados em tua altura. Volúpia escandinava, solidão retesada, três dentes de maldade saltando de tua buceta leporina. Nenhuma neoplasma maligna mais improba que a pujança de tuas esperanças lépidas.  Nenhum alcaçuz, nada. Ergástulo estético onde caiaram as esperanças nossas, flâmula torpe onde deitaram meus patriotismos subjetivos, lábaro anódino, berro das minhas maiores guerras. Porra insípida, delícia etérea. Dermes cambiadas. Saliva e seca. Dor e magnólia.

Nem mais saudades neurastênicas, nem mais cenas de psoríases apaixonadas em leitos reconvexos, nem prantos atenienses, nem incertezas mitológicas. Nem nada. Não para as credulidades engendradas de carências bissextas, não para os delírios além da fronteira, nem os filhos além-mar. Não.

É guerra e não quero voltar, engranzo as flâmulas alvas no ócio de meu cú, elimino as epístolas de reconciliação nas unhas de meus desenganos amargos e básicos. Selo o prélio e lanço os mísseis. É pau, é rock, é o fim do caminho, porra!

Riscar as bossas, ludibriar as novas, florir as janelas. Frésias, gardênias, gérberas, antúrios, duas cerejeiras e um delfim.

Nunca esquecer as tristes begônias. Jamais esquecer as begônias aflitas. E três açucenas pra Deus.


La Rinconada, dieciocho de febrero, 2014.




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sobre a loucura

Un fuerte temporal 
sacude el Cantábrico

Esteban Cobo

A loucura é uma coisa que se come viva. Que se mata na mesa, perto da boca. Que se prende com garfo pra não escapar. Que se ouve doer, latejar, latente, sangrando, lutando por ânima, gritando por ânimo. Entre um gole no vinho e um afago no cão. Quem espera sua carne esfriar, sente-se louco. Quem não a come, sente-se pouco. Quem não a enxerga, não sente. É uma lagosta escoffiana. O abate deve preceder a distração. Ela vai querer fugir. Até a loucura luta por sobrevivência. Não, você não quer matá-la. Queres comê-la, lembra-te? A substância desse conceito é pura, límpida, potável.

Engana-se quem entra no banquete querendo se alimentar. Dessa guloseima provam ateus, âmbulas, navetas, gênios, sarjetas, putas, leopardos, anônimos. E todos ainda têm fome. Afinal, come-se porque se tem fome. Não porque se pretende matar, lembra-te? A loucura é uma coisa que se come viva, que emporcalha os cantos da boca, que se esconde entre os dentes, que conspurca a alma, atazana o sexo, que resiste querendo ficar. Tome nota, não existe resignação na insanidade.

E, de fato, ela permanecerá. E que esteja viva. A beleza não tem mesmo nada a ver com a simetria.

Se é inevitável, mesmo que não seja doce, que seja fresco, ao menos. E, por fim, se está fresco, coma. Eis a álgebra singela do amor prático. Sempre preferi pinçar os frutos das copas das árvores do que das gôndolas.

(Pequena pausa)

Está claro, portanto, que o amor e o ódio são, fundamentalmente, um mesmo sentimento, concebido de igual raiz. Certa vez, em uma rasteira conversa, soube: a sabatina do meu amor por ti é que te odeio selvagemente as vezes. Porém, não se compreendeu ainda que o amor e a insanidade também são essencialmente a mesma coisa, compartilham da mesma brutalidade.

Aprendi cedo: para quem nega a própria loucura, a vida torna-se inviável. Para quem se entrega a ela, insuportável. E para quem a ignora, medíocre.

Diante de tal inconsciência, não esperemos, portanto, algum detrito de paz. Fomos paridos na viração, e a ela devemos tudo. Louvada seja.