sábado, 18 de janeiro de 2014

Sobre terra fria

Virgem Maria
Diane Arbus
Fez-se sertão. E ninguém jamais poderia prever a terra tão árida. O sol mais quente, os galhos secos não balançam. E ninguém, jamais, poderia prognosticar esta dor. Os cachorros magros se deitam nas infrequentes sombras. Patas queimadas. Eis as arestas desta primeira paisagem. Nossa geografia impalpável tem nos consumido. Trata-se não do começo de um deserto, mas de uma situação? Nesta fase já precisamos ordenhar as águas dos cactos. Nesta fase não nos sobrou sequer a umidade deles. Não se trata de arábias sádicas, saaras despertas, acres agressivos, agrestes acertos. Trata-se de matéria.

E como podereis vós continuar a sua caminhada, se nem os cães mais aguentam? Se os cactos já foram mungidos? Não há água, mas também não há sede, é por isso que todos os cães estão vivos? É por isso que as carnes ainda não se decompuseram? Os abutres cumprem penitência, jejuam na tarde rochosa. Não sofrem, porque na ausência do pão já consumiram a fome.

Queimaduras não dão calor, apenas o expulsam. O sertão tirou-lhes a sensibilidade. O fogo tornou-se o estado bruto da natureza, o verde nasce cinza, e enxergamos beleza no palor desta perfeição. Alguém poderia imaginar isso tudo? Qual a sorte que ninguém supôs que a aridez não pudesse penetrá-los pelos pés e subir-lhes ao peito? Quem deduzira que o sertão poderia destruir suas plantações subterrâneas, fazer evaporar a água sagrada de seus poços ocultos, desanimar suas minas?

Ninguém. E os cães só sairão de seus abrigos quando a terra esfriar. É desta árdua madrugada que estamos falando.