quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sobre pedaços

Marwane Pallas
Pro
celá
ria
Das coisas ordinárias. Desde as de Otto Lara Rezende, até as mais singelas. Das que predominam e das quais não se reconhecem nem as notas do cheiro. Das coisas ordinárias sou doutor. Amacio-as na minha realidade, amanteigando suas barbáries: são muitos acordeons, pianinhos, singelezas, coices mestiços. Quando eu era pequeno, alguém deve ter me ensinado que do ordinário não se deixam nem as migalhas, lambe-se a louça. Que da comida mais vulgar se extrai beleza e que, de certa forma, poesia mesmo só nasce das bordas, das aparas, das raspas, do que se iria jogar fora ou do que se engole sem sentir. É bruta manobra de Kristeller.

E então, depois, gostava de lustrar o ordinário, brunir suas pétalas côncavas. Dar-lhe pompa e elegância, sem consentir que deixasse de ser rasteiro, comum, descartável, exíguo.

Não, isso não significa que admiro as pequenas coisas: vento balançando cortinas, farfalhando folhas secas, imergir a mão em um punhado de grãos de feijão em júbilo ululante, não me passam de asneiras amaneiradas. As pequenas coisas nunca me apeteceram, ou a simplicidade com sua opressão e infida virtude. Gostava quando menino apenas das bordas. Sempre, as bordas. Tive uma infância recheada de beiradas, margens, transbordamentos, bocadinhos, ourelas, aparas, marquises. E vivi feliz. Apetecia-me eviscerar o banal, jogar suas tripas ao vento, brincar com o inútil. Quando descobri Manoel de Barros, vi que não era assim tão original, entretanto, não me sentia mais tão só. Minha mãe dizia que eu era um simbólico medíocre, que sonhar pequeno era minha dádiva e que me contentaria sempre com o mínimo. E mal sabia ela que era no mínimo em que eu me emporcalhava, alucinado.

Sim, senhor Rodrigues, gosto dos bonitinhos que são ordinários, faço banquete com a sujeira do canto das bocas, ceio os grãos esquecidos entre os dentes, pois é no cais em que me afogo. Dos oceanos todos quero só o espetáculo. E ainda que pareça autoproteção em demasia, quem nunca se pôs vulnerável ao indefeso, debilitável ao desarmado, não conhece os sinais da procelária e, tampouco saberá se abrigar.

Isto aqui me basta. Esse pouco, esse naco, essa fatia.
É desse resto de confete pisoteado em que teço minha fantasia.


E só digo amém. 

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Sobre algumas dermes

Robert Mapplethorpe

Tutano com café
Os gatos ficam bestas entre os portões, olhando a rua. Inexpressiva como ontem. Exalam a expressão de que, quanto mais vivemos um amor, menos gramatical ele se torna. Não porque sua beleza é fulgurante e tão absolutamente estética que nenhuma palavra poderia garatujar-se no verborralho das definições diurnas, mas porque as frustrações se tornam tão complexas, que é difícil diferenciar o que se tem nojo, do que se quer repetir.

Os gatos são tão estúpidos nos portões, espreitando seus pelos entre as grades, passivos. Ficando inúteis. Focados.  Tendem a acreditar que o mundo é o espaço asfaltando entre um paralelepípedo e outro.  As vezes me nota, olhando aqui da janela.  Deixa claro que a minha existência é redondamente vulgar, porque tudo é comum e descartável aos seus olhos. Muito provavelmente por isso que sabem que toda demonstração de afeto não é nada mais do que a consciência de que somos bichos solitários e funestos, com crônicos defeitos de comunicação.

Parecem deixar claro que, já que chegamos ao osso, deveríamos apreciá-lo com majestoso paladar de rudes animais que somos. Parecem deixar claro que nossos próprios feitos comprovam a inutiliza da nossa racionalidade. Os gatos ficam bestas entre os portões. E nós que sabemos aproveitar o tempo.

Empunhando uma insossa Vono que ainda fumega no caneco de porcelana banal, observa uma vagarosa nuvem de neblina adentrar seu apartamento no décimo quinto andar. Branca, ligeiramente densa, lenta. A nuvem passa pelo seu corpo, a lhe lambuzar a face de renascimento, atravessa a sala e sai pela janela do quarto, ainda densa, ainda branca, ainda lenta. Infausta em via crucis, como convém a tais condensações... O mundo parara por um minuto, talvez dois. As guerras cessaram, as putas sentiram prazer, os profetas calaram a boca e a miséria acabara, não porque a abastança imbricara na vida, mas porque a fome deixara-lhe de ter. Concomitantemente, os gatos, bestas, entre portões.

Sopra-lhe um amor ou outro do passado, já que o tempo apaziguara as tristes memórias e só realçara as sardas da saudade. De alguns, altanaria, de outros, forquilhas. Ama-se porque, se não o fosse, só haveria a morte como entretenimento. Ainda que os gatos morram ou tenham sete, ainda que fujam da água, comam ratos e lagartixas relapsas, não haverá culpa maior, desejo maior, ou pequenas redenções de bolso.

E, se a sopa está fria, e se os gatos nunca entenderão... Por quê?


quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Sobre as ondas

Um soneto para Wichita Vortex Sutra

Marwane Pallas
Ele tinha, como eu, a mania de saturar as músicas que amávamos, tanto ao ponto de se tornarem nocivas. Ouvíamo-las centenas de vezes, ao acordar, ao estudar, ao comer. Tínhamos os nossos motivos. Não obstante, uma das vantagens de ser jovem é exagerar no que se quer, e ignorar o que se dói. E, embora aquela música nos doesse – porque lembrávamos um do outro – ouvíamo-la, a perder a conta. Ouvíamos para dormir, ouvíamos para amar, para avacalhar, para gozar, para chorar, para insultar, para querer morrer, para querer nascer. Ouvíamos porque a tínhamos como religião, e como a religião é para toda a gente: nossa papoula e nossa porção de sanidade.
Nesse pêndulo sentimental cujo lado oposto de Ginsberg era a cativante literatura aperolada e negra de Lygia, estávamos sempre com os pés fora do chão, porém muito cautelosos em não nos deixarmos voar, ou sermos arremessados para bem longe pelas nossas próprias esperanças de bolso. Ou, na verdade, eu poderia narrar que se tratava de uma gangorra em que, para que o outro perdesse a gravidade, era preciso que um fincasse os pés atônitos no chão. De fato, a translação não é nada folgazã. Mas tínhamos tanto o desejo de postergar tudo aquilo, se espalhando como fractais por dentro, que nos envelhecíamos um ao outro, como a amarrar as toras de um bote que iria sumir num mar muito profundo e, que embora sem fim, sabia perfeitamente desaparecer com alguns de seus veranistas. Ele era o meu João-Galamarte. E muitos se desvaneceram.
Para ele, eu me afogaria primeiro. Sempre quando íamos tomar banho de mar juntos, e eu muito desastrosamente afogava-me com injusta facilidade, dizia-me em tom chistoso e olhar pernicioso que meu orixá era Janaina, e que ela estava me querendo de volta para seu reino de Aioká, nos tutanos do oceano Atlântico. Seguia a afirmação de um sorriso sacana e despreocupado. Tacava-lhe punhados pesados de areia molhada com carcaças de moluscos proferindo-lhe injúrias. Ele corria, sorridente, para o mar. E nele se virava tão bem, que por alguns segundos eu não só acreditava nas suas histórias burlescas, como desconfiava que aquele yorubá sabia que, de fato, eu me afogaria primeiro. No mais, a ridícula coincidência é que era dia de festa no mar. E as ondas, ora me devolvendo, ora me tirando. E, justamente a imagem dele indo e voltando, conforme a vontade dos ventos, proporcionava em alguma parte interna do meu corpo – um órgão talvez, uma sinapse perdida, quem sabe – um absoluto conforto quase macabro.
Quando a bruma anuviava o mar e a noite o descolorava, íamos embora com muito frio, trêmulos, frouxos, sem o arrojo suficiente para nos aquecermos como duas pessoas prudentes deveriam fazer, ao menos na minha cabeça. Dois hesitantes iriam perder, fatalmente, muito tempo a calcular o passo certo, na hora certa, imobilizados pela própria ânsia de harmonia.
Depois de tanta digressão, recuávamos concentradíssimos à música, empenhados em cantarolar da forma mais fiel e bonita. Nos intervalos de uma estrofe para a outra, era possível observar o capotraste agarrando as cordas para o prometido refrão, ainda que ali não houvesse violão algum. E por essas intermitências todas, meu deus, quase se ouvia o drumembêis do coração dele. E eu me adentrava em uma espiral aproximadamente psicodélica de fusas, semifusas, claves semibreves, semínimas colcheias, semibreves sóis, mínimos dós, que meu corpo mesmo era papel pentagramado insubmisso e eu me liquefazia em uma ácida felicidade inominada.
Não poderia imaginar que a profundez da nossa irmandade seria um desabrido amargor. Que a facilidade com que seu cheiro se entrelaçava à maresia o tornaria indigesto, que a largueza e fundura de seus poros se tornariam abismos, alçapões, lugares onde eu desapareceria.
E que fundos os poros teus, que longa queda livre.





sexta-feira, 18 de julho de 2014

Sobre insetos

Só os cafonas enriquecem

“Só os cafonas enriquecem”, ele me disse tomando um gole de Itaipava light semiárida. E, tudo o que eu conseguia pensar era: como ainda estou pobre? Daquelas epifanias caseiras, domésticas, que ninguém quer ter em plena tarde de um frio arrogante de julho, as narinas secas, a mucosa estarrecida, e uma tosse de octogenário doente que insiste em acreditar no amor agreste das putas barrocas dos subtrópicos. Eu, olhando pra sua cara encarquilhadamente confiante, seus lábios civilizados e macilentos de quem chupara as bucetas frígidas do Caiacó. “Você bem sabe”, concluiu depois de alguns outros goles, como quem olhasse para frente, uma parede branca absolutamente inexpressiva, e dela interpretasse toda a sabedoria do mundo.
Era um velho óbvio e degradante, tinha um cheiro clorofilado de chuva de verão e sovacos enodoados. Sempre tive um certo amor por tudo isso. “Sempre tive um certo amor por tudo isso”, falei baixo, forçando um ar meditativo. Pensei que ele fosse me desmentir, porque sabe perfeitamente da minha tara por ansiolíticos e, além do mais, sempre disse em tom catedrático para não confundir cafonice com medo de amar. “O que mais me espanta na sua frase é o uso inútil do artigo ‘um’ antes do adjetivo”. Em seguida sorriu com os olhos, daquele jeito que eu odeio. “Você é uma merda”, pronunciei em tom profético e litúrgico. Ele concordou e brindou comigo. Gargalhamos, ele tossiu, porque sempre tosse quando gargalha. Quatro vezes. Depois, falamos de coisas bastante previsíveis, sobre o tempo perdido, sobre como os viados de hoje em dia são deselegantes, sobre pansexualidade monogâmica, sobre a diferença de bergamotas e tangerinas, sobre insetos. Ele, sempre escarrando para enfeitar o desconforto, discursava sobre suas preferências e eu, bastante comovido, entretanto cético, concluía: “continuo preferindo panturrilhas”. Ele me chamava de doente, ria, bebia mais um gole da sinistra cerveja, tênue como jamais se esperaria de um ser tão porco. Como não gargalhou, também não tossiu. Tínhamos uma parceria muito agradável com o silêncio. Respeitávamo-lo: seu tempo, seu frescor, seu motivo. Não obstante, vale notar que a única coisa refinada proferida nesses anos de prosas impalpáveis por ele foi: “silêncio bom é silêncio indecente”. Até hoje tenho aguardado ele falar algo similar, mas tudo o que sai embargado em seu hálito pestilencial é sobre bucetas, namastês e aromas de pilhéricas virilhas arrebatadas. “Você me acha repugnante, e eu te acho entediante. Prefiro repugnante, pessoas detestáveis têm mais chances de serem amadas”, disse em tom poético. Em seguida, lançou um daqueles comentários psicológicos sobre mim. Olhamos atentamente um para o outro. Ele tossiu. Depois de rir bastante, é claro. Eu também ri bastante.
Pegou um inseto no ar, abriu a mão, “que nojo!”, disse-me mostrando a pele suja de sangue. Limpou na calça cinza de linho. “Esse desgraçado não me pega mais”, resmungou.
“Você vai me fazer falta, velho porco”, eu disse e, admito, querendo chorar.
“Realmente não entendo como você continua pobre”. Levantou-se e entrou na cozinha, justificando-se de que pegaria outra cerveja. Ouvi barulhos impensáveis, um grunhido opaco de calor. Quiçá, os porcos também se enlevam.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Sobre dois minutos de sabedoria

Lembranças de manteiga

Costa Dvorezky
Acostumado aos silêncios longitudinais, era bastante recompensador estar de volta. Não havia mais profiteroles recheados de framboesa sobre a mesa, e a cachorra gorda, fedida e amorosa tinha morrido, de velha, de câncer, de tédio. Afora as frutas silvestres, o armário dos temperos tinha o mesmo cheiro velho de caiena, abrir suas portas lentamente como quem implode um erário, libertar os aromas do passado, mergulhar o rosto no breu dos condimentos esquecidos, era como ser sorvido e libado vagarosamente pelo corpo complexo do que já fora. Hoje achara interessantíssimos (assim, com superlativos cintilantes) os gritos pela casa, agravos, cizânias, advertências, relâmpagos verbais, alfinetadas morais. Emocionara-se de haver vida no lugar, tal e qual tinha deixado anos atrás, fugindo justamente dos gritos, dos agravos, das cizânias e outras compactas guerras.  Riu-se. Respirou mais devagar ainda, a cabeça penetrada no armário, congregando os olores oblíquos. Sua escolha era aquela: o barulho, o tumulto, a atinada insuportabilidade e agora um imprevisto cheiro de murumuru com metal oxidado. É deveras difícil escolher o que não se quer, mas que se precisa. Era bom estar de volta. Relativamente lobo, coiote, da caça regressava sem presa, estômago vazio, dentes limpos e muito sujo. Ofegava. Não trouxera o alimento do dia, embora necessitasse se alimentar. O armário, que inicialmente era só breu e gosto abstrato, começa a se revelar. As pupilas se dilatam e dilatam-se também as marcas do tempo. Rastro de mofo, restos de açúcar, um grão. Nada fazia sentido, no entanto ao fechar os olhos, compreendia, enxergava. Os cheiros da casa lhe explicavam a vida e lhe diziam que o tempo embora para alguns seja pouco, para outros é deveras muito (assim, com superlativos tácitos cintilantes). Sabia que um homem só revela sua alma quando todos os seus planos falham. Só assim despia-se. Nu, e nunca antes tão nu, constrangido com o próprio corpo, com a própria nudez, vulnerável a si, desarmado. Os pistilos de açafrão não eram mais vermelhinhos, escarlates, como convém ser a parte reprodutora de uma soberba orquídea. Simbólico? Não, os pistilos de açafrão apenas não eram mais vermelhinhos. Tão velhas, as ramas de canela, tão velhas, mas ainda perfumadas. E as bagas de cardamomo só resguardavam sementes perecidas sem nenhuma nota. A cada respirada, uma página, e quanto mais respirava, mais se habituava aos cheiros e, portanto, mais rápido eles desapareciam.
Não precisaria mais dos silêncios longitudinais de outrora, tampouco das eternas meditações, do autocontrole, da suada imparcialidade e dosada indiferença que lhe conferiram melhores momentos de alegria despreocupada. Não precisava mais escrever piegas e coléricos e-mails, lapidados por horas, evitar determinadas canções, enriquecer vinhedos da Toscana ou da Patagônia em busca de nítidas abstrações, ou mesmo acordar com estranhos, ligeiramente cativados, que certamente preparariam um amável café, diriam até breve envoltos de serenidade e satisfação, e tão simplesmente não voltariam nunca mais. Não precisaria mais ter filhos para demonstrar ao mundo uma paternidade morta ou um altruísmo inexistente. Hoje sabia, sem desespero ou culpa, que nascera para si, e para si seria, eternamente, herói e monstro.

Alguns olores febris, encapsulados em um pálido frescor de nêsperas secas (assim, contraditoriamente), lembranças de cravo, de sementes de erva-doce. Lembranças de mate, de gengibre com alho, amêndoa amarga, uma bola colorida, cheia de hexágonos brilhantes atravessa ligeira o armário. Lembranças de fermento fresco e pão. Lembranças de manteiga.



sábado, 12 de abril de 2014

Sobre nosso tesouro

policloreto

de polivinila
Francis Bacon

"Irene.... Irene.... Irene...."

1ª Parte de uma historinha suja e doce.
Boletim de ocorrência 
a ser lido ao som de Irene
de Rodrigo Amarantes,
na maior doçura.


A história que pretendo contar não é sequer uma história, muito menos uma situação. Trata-se mais exatamente de um estado das coisas. Pensei muito antes de começar a narração porque o que tenho a dizer da personagem é altamente ridículo e escatológico. Eu diria que é mais complexo que a situação política da Transnístria. Eu diria que é mais complexo do que a palavra Transnístria.

Não acho realmente que a minha personagem seja ordinária, promíscua ou repugnante. Apenas concordo que todos nós temos um pouco dela, e quanto mais negamos, mais apanhamos.

Inegavelmente, sempre me apeteceram mais os seres sujos e esporrados, os que se deixam infectar, porque eles coagulam tudo o que não queremos mostrar.  É uma breve epistemologia do pus. Sêmen grudado na garganta e na retina. Um mashup de amores mofados.

Pois bem. Existem muitos coeficientes de solidão.

Sua primeira límpida turgescência depois de 14 anos: enrolar com plástico PVC uma embalagem de mousse de cabelo Karina, untar, ungir-se com glicerina íntima e enfiar no ânus. Enquanto troçava seus espasmos, contrações rítmicas e catecolaminas, agradecia sorrindo e embevecida às plataformas petrolíferas da América do Sul e sibilava com certa doçura: Johnson & Johnson... Petrobrás, Karina, I so love you all!!!!

Tinha um marido.

Seus sonhos: uma porra fria, ou, no máximo, uma cortesia discricionária. 

Seus pertences: uma garrafa de gim Tanqueray e uma bisnaga de gel.

Era preciso mais amido para engrossar o caldo. Porque eis que a vida real, não aquela que pintam os estetas ou escrevem os franceses, é tosca e razoável como uma prece repetida sem devoção.

[...]

Parecia romântica, mas tinha tesão em assistir vídeo de mulheres parindo. Passava noites inteiras observando inúmeras sequências até mijar no carpete como uma gata moribunda e ligeiramente risonha, em nirvana absoluto, de verve alucinada, ponto triplo, e acendia um Marlboro. Tão pura e santa como jamais pudera ser.

Com o tempo, tudo poderia ser embalado em policloreto de polivinila, todos os objetos da casa olhavam-na com a candidatura de entrarem em seu cú, e lhe fazerem pequenas  caridades. E ela os queria. Todos, dentro de si. Estava verdadeiramente cansada dos caralhos medíocres e ineficientes da vida. Os untuosos cuspiam mais rápido que velhos jogando bocha e os pequenos, eram pequenos. Ela era uma ode a puta repreendida que habita dentro de todos nós, a inestética puta. Pois chega de putas exprobadas. Pois chega.

Perdemos de fato, muito tempo de nossos dias com borras de café e turismo ecológico.

Tenho feito o mesmo. Acredite, é, inclusive, por conta dos residuais de café que estou aqui.

No canto mais escondido da casa cresce e procria a nossa imagem corrupta, as geometrias disfarçadas da nossa solidão, nossa indignidade disfarçada de inocência, nossa frigidez disfarçada de tristeza e nossa piedade disfarçada de religião. Tudo entre parênteses, chaves e notas de rodapé. É que quanto mais ocultamos esse lixo, mas ele se multiplica. Minha personagem sem nome é toda lixo. E você deveria amá-la. 



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Sobre quando não há ninguém

Um Tanqueray para Gina
Jan Saudek
Acordou se sentindo mais cafona que Gina Lollobrigida. Era óbvio. Depois de beber tanto gin e despertar exalando essência de zimbro, não poderia ser diferente. Provavelmente deva ter feito coisas ainda mais desairosas ao longo da madrugada. Outrossim, mandara uma mensagem censurável a alguém, como convém  a esses grogues de rapina, palhaços de ocasião. Inacreditavelmente bêbado, inacreditavelmente lúcido. 
Tinha bons motivos para fazer coisas péssimas durante o seu aneurisma consentido. Flertado com antigos amores, se masturbado ouvindo Aracy de Almeida e lendo sex mangá gay, fugido de nuvens de tarântulas imaginárias e exércitos de cápsulas de cortisona. Declarou-se a quem não amava, calou-se aos que sim. Pedira perdão a si mesmo, ainda que sem obter redenção. Desacorrentara suas bestas, mutilara seus anjos hirtos. Dessacralizara seu Pai.
Não choveu, há de se notar. Círculo na lua, lama na rua, mas não desta vez. O fato de o dia estar radiante incomoda-o por ser abjeta provocação desmensurada. Sua melancolia já corusca com todos os efeitos luminescentes possíveis da natureza: crepúsculos, auroras, arco-íris, eclipses, luares, fitoplânctons. Não há de se querer mais.
Inevitavelmente – e porque é deveras comum nesses momentos – sentira imensa saudade dos pais, lamentando estar só e tão longe deles. Pensara em coisas pudicas como o abraço sempre emocionado dela, e o teso e sutil abraço dele como quem dizia “isto não está acontecendo”.
O avião talhando as nuvens, a virtuosa noite com seus prolapsos, o entregador de jornais rasgando a madrugada, o gélido parapeito da janela, os morcegos estabanados, um ônibus solitário costurando a cidade. Beckett diria que a terra deve estar desabitada. E, de fato, talvez o velho Krapp esteja certo.
Teve uma ligeira pena do amor que, por ora, tornava-se tão débil nos desdobramentos da vida. Teve uma ligeira pena de seu amor, que sofria, por ora, das mediocridades da lida. Um cálculo cujo resultado nunca fora muito empolgante.
Computou os déficits, lucros, azias, pirotecnias apaixonadas, perda de cabelos, ejaculações precoces, erros gramaticais, acidentes domiciliares, amores mal retribuídos, disfunções eréteis, arrozes queimados, lágrimas toscas, pernilongos prófugos, excesso de peso, havaianas arrebentadas, e apenas concluiu que, naquela manhã, tudo precisava ser absurdamente transformado.
(...)
Mas antes, a derradeira dose de gin e uma última punheta para Lollobrigida. 
No rádio, Aracy emociona até as moscas. Como sempre. Ele chora. Como nunca. 



terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre recados de geladeira ou cartas impossíveis

Machadada de assis,
primeira lenha.

Foto - Autor Desconhecido

Não mais insolente aquele olor de calêndula encanecida, dos córregos lascivos de tua potência, da urgência sepulcral da tua paixão, dos relatos purulentos de teu calhado côncavo. Não mais rasteiro que as concórdias imorais do teu verbo, nem mais ordinário que a incongruência das tuas sanidades. Sexo a gladiar tesões cruzados de recônditos inóspitos, de espectros empoleirados em tua altura. Volúpia escandinava, solidão retesada, três dentes de maldade saltando de tua buceta leporina. Nenhuma neoplasma maligna mais improba que a pujança de tuas esperanças lépidas.  Nenhum alcaçuz, nada. Ergástulo estético onde caiaram as esperanças nossas, flâmula torpe onde deitaram meus patriotismos subjetivos, lábaro anódino, berro das minhas maiores guerras. Porra insípida, delícia etérea. Dermes cambiadas. Saliva e seca. Dor e magnólia.

Nem mais saudades neurastênicas, nem mais cenas de psoríases apaixonadas em leitos reconvexos, nem prantos atenienses, nem incertezas mitológicas. Nem nada. Não para as credulidades engendradas de carências bissextas, não para os delírios além da fronteira, nem os filhos além-mar. Não.

É guerra e não quero voltar, engranzo as flâmulas alvas no ócio de meu cú, elimino as epístolas de reconciliação nas unhas de meus desenganos amargos e básicos. Selo o prélio e lanço os mísseis. É pau, é rock, é o fim do caminho, porra!

Riscar as bossas, ludibriar as novas, florir as janelas. Frésias, gardênias, gérberas, antúrios, duas cerejeiras e um delfim.

Nunca esquecer as tristes begônias. Jamais esquecer as begônias aflitas. E três açucenas pra Deus.


La Rinconada, dieciocho de febrero, 2014.




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Sobre a loucura

Un fuerte temporal 
sacude el Cantábrico

Esteban Cobo

A loucura é uma coisa que se come viva. Que se mata na mesa, perto da boca. Que se prende com garfo pra não escapar. Que se ouve doer, latejar, latente, sangrando, lutando por ânima, gritando por ânimo. Entre um gole no vinho e um afago no cão. Quem espera sua carne esfriar, sente-se louco. Quem não a come, sente-se pouco. Quem não a enxerga, não sente. É uma lagosta escoffiana. O abate deve preceder a distração. Ela vai querer fugir. Até a loucura luta por sobrevivência. Não, você não quer matá-la. Queres comê-la, lembra-te? A substância desse conceito é pura, límpida, potável.

Engana-se quem entra no banquete querendo se alimentar. Dessa guloseima provam ateus, âmbulas, navetas, gênios, sarjetas, putas, leopardos, anônimos. E todos ainda têm fome. Afinal, come-se porque se tem fome. Não porque se pretende matar, lembra-te? A loucura é uma coisa que se come viva, que emporcalha os cantos da boca, que se esconde entre os dentes, que conspurca a alma, atazana o sexo, que resiste querendo ficar. Tome nota, não existe resignação na insanidade.

E, de fato, ela permanecerá. E que esteja viva. A beleza não tem mesmo nada a ver com a simetria.

Se é inevitável, mesmo que não seja doce, que seja fresco, ao menos. E, por fim, se está fresco, coma. Eis a álgebra singela do amor prático. Sempre preferi pinçar os frutos das copas das árvores do que das gôndolas.

(Pequena pausa)

Está claro, portanto, que o amor e o ódio são, fundamentalmente, um mesmo sentimento, concebido de igual raiz. Certa vez, em uma rasteira conversa, soube: a sabatina do meu amor por ti é que te odeio selvagemente as vezes. Porém, não se compreendeu ainda que o amor e a insanidade também são essencialmente a mesma coisa, compartilham da mesma brutalidade.

Aprendi cedo: para quem nega a própria loucura, a vida torna-se inviável. Para quem se entrega a ela, insuportável. E para quem a ignora, medíocre.

Diante de tal inconsciência, não esperemos, portanto, algum detrito de paz. Fomos paridos na viração, e a ela devemos tudo. Louvada seja. 


sábado, 18 de janeiro de 2014

Sobre terra fria

Virgem Maria
Diane Arbus
Fez-se sertão. E ninguém jamais poderia prever a terra tão árida. O sol mais quente, os galhos secos não balançam. E ninguém, jamais, poderia prognosticar esta dor. Os cachorros magros se deitam nas infrequentes sombras. Patas queimadas. Eis as arestas desta primeira paisagem. Nossa geografia impalpável tem nos consumido. Trata-se não do começo de um deserto, mas de uma situação? Nesta fase já precisamos ordenhar as águas dos cactos. Nesta fase não nos sobrou sequer a umidade deles. Não se trata de arábias sádicas, saaras despertas, acres agressivos, agrestes acertos. Trata-se de matéria.

E como podereis vós continuar a sua caminhada, se nem os cães mais aguentam? Se os cactos já foram mungidos? Não há água, mas também não há sede, é por isso que todos os cães estão vivos? É por isso que as carnes ainda não se decompuseram? Os abutres cumprem penitência, jejuam na tarde rochosa. Não sofrem, porque na ausência do pão já consumiram a fome.

Queimaduras não dão calor, apenas o expulsam. O sertão tirou-lhes a sensibilidade. O fogo tornou-se o estado bruto da natureza, o verde nasce cinza, e enxergamos beleza no palor desta perfeição. Alguém poderia imaginar isso tudo? Qual a sorte que ninguém supôs que a aridez não pudesse penetrá-los pelos pés e subir-lhes ao peito? Quem deduzira que o sertão poderia destruir suas plantações subterrâneas, fazer evaporar a água sagrada de seus poços ocultos, desanimar suas minas?

Ninguém. E os cães só sairão de seus abrigos quando a terra esfriar. É desta árdua madrugada que estamos falando.