quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sobre avellana y granada

Avellana y granada
Foto: autor desconhecido

Dois dedos abaixo do peito, cinco pedrinhas de gelo, quatro amores, uma doença. E eu poderia dizer que a história está contada.  Simplesmente porque não há mais nada que dizer, pois qualquer acréscimo me poria em risco uma ambiguidade polissêmica. A história está contada. Todos os personagens padecem da falta iracunda da beleza, do conteúdo, do humor. Enquanto humano aflito eu poderia inventar dramaturgias, ardis, reduzir o átomo da verdade crua ao lixo da literatura. Aplicar o léxico mais sádico e verter meu verbo infame na construção de coisa alguma, e fazer desse nada uma manifestação artística. Não, eu me recuso a deixar que a língua portuguesa chupe, lamba e babe sobre esta coisa imóvel e amarga intitulada texto. Meu mistério é rasteiro, minha fantasia se apoia nas grades do ralo, meu sonho não tem vez. Quero só esta paisagem, cujas informações foram carpidas. Sentir o chão não dar pé na superfície, fazer do raso a causa do nosso afogamento.
Eu já morri nos escombros das palavras que designei, a poesia desmoronara e deixara-me preso entre seus entulhos verbais. Cheirei o pó que levantara de sua bancarrota, alimentei-me de suas ruínas, amei seus destroços todos em nome de uma arte inválida que jamais me dera nada em troca senão a necessidade de correções ortográficas.
Fiquei com nada, apenas a palavra sem carne, desmusculada, ossuda. O código sem a possibilidade do desdobramento. O fluxograma hermético. Uma cidade de andaimes.
Isso tudo porque hoje descobri que quanto mais eu tentei revelar meus personagens e, portanto, a mim mesmo, mais eu me tornei incompreendido e, porquanto, por nós todos. A palavra saíra pela culatra. Acertou-me dois dedos abaixo do peito. Sigo vivo, dilato o crivo.
É fato que a língua portuguesa é uma canalha. Ofende quando escorre de nossas mãos no momento de impor-lhe sentido. Ofende quando deixa-nos na interrupção da acepção, quando não traduz, quando muda e emudece.
Penso em todas as horas que perdi debruçado sobre uma cadeia de vocábulos, tentando articulá-los de forma a atingir a estética imaginária, caçando sinônimos como porcos a farejar trufas, na tentativa de que tudo se harmonizasse para garantir a emoção. Mas para que? Se nem a certeza do sentimento me foi dada? Quanto mais se escreve, mais se perde. Seja por dentro do peito, seja no cerne das algibeiras pálidas.
Escrever é um exercício cujas implicações nunca chegam. É exatamente como querer passar por baixo de um arco-íris.
No entanto, sem nunca ter existido nada do que foi inventado, quedam-se as sequelas irreais, e todo eu latejo. Livro-me dos escombros sobre meu corpo, levanto-me, tiro a poeira e vou assolar novas construções.