quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sobre nós que já nos danamos

merveilleux!

Henri Cartier Bresson


Uma vez um amigo me disse que encontrar um amor profundo é raro. Que amar alguém e sentir esse amor voltar na mesma proporção, não é fácil. Aliás, é simplesmente raro. Olhando para trás e vendo que em todas as vezes eu me dei mal, é fácil pressentir, a qualquer deslize do outro, que estou caindo no mesmo buraco outra vez. Quem muito apanhou em relacionamentos sabe do que eu estou falando. Você cria anticorpos que te avisam que você está perto de um penhasco, comumente algumas vezes por dia, inclusive.

Do genocídio dos amores mal sucedidos surgem três linhagens, ou ramificações. A primeira é o sujeito que ainda acredita no amor, mantém uma relação relativamente constante com alguém, mas não vê no sexo uma deslealdade, apenas uma necessidade fisiológica e, por isso, transa com outras pessoas, embora ainda defendendo de forma não-afetada o amor e a não-pecaminosidade das suas transgressões. A segunda linhagem é daqueles que simplesmente rompem com os vínculos afetivos, defendem a sacralidade do sexo e vivem como selvagens intelectuais: são frios, mas são também pulsantes e extremosos, sabem que estão numa selva, se comportam como bichos, entretanto também sabem que são superiormente conscientes de suas animalidades, e por isso se sentem protegidos. Por fim, a terceira linhagem – na qual eu me encaixo – são daqueles que optam por se lascar a vida toda. Falo isso não porque amar é ruim ou triste, mas porque amar é difícil. A bem da verdade, os descendentes das três linhagens amam. A diferença é que um se ama demais, outro ama demais o outro, e o último ama demais o amor. Este, poderia se encaixar na retórica ou na metalinguagem, mas não passa de um sujeito que sem inspiração, não sabe viver.

O que há em comum nas três ramificações é que todos amam demais. E só catalogo esta tríade porque os que não amam demais, para mim simplesmente não amam, e simplesmente não detém o mérito desta observação (não que ela seja assim tão honorífica).

Não há amor que não seja amor demais, descomedido, fora do padrão, irregular, inconveniente. Não há amor calculado na medida certa, assim como quem está verdadeiramente triste, não fica expondo seu corte na internet como se fosse bonito ser triste, como se fosse cult ser depressivo ou corroborasse com seu amadurecimento virtual. Nem sempre.  As vezes você é apenas mais um idiota se lamentando em público, e ninguém irá te ouvir. Não há amor geração-saúde. O amor é punk e sedentário. E olha que ainda assim é prescrito.

A única conclusão que temos é a de saber que não sabemos por que começamos. Cacofônico, não? Pois é, o amor nunca foi muito musical, apesar da maioria das músicas falarem sobre ele. Quem entende que amor é silêncio, sabe que não é possível escutá-lo, senão contraí-lo.

É certo que alguns vão passar décadas e não encontrarão seu amor profundo. Outros encontrarão cedo demais, e perderão também precocemente. Infelizmente, o amor as vezes tem data de validade. É efeito barocórico: como a fruta pinçada na copa de uma árvore, cai em função de seu próprio peso. Ou, quem sabe, armazenamos mal...

Alguns preferem consumi-lo mesmo depois de estragado, e ainda há aqueles que consomem antes dele ser gerado. Faz parte. Desiludidos, iludidos ainda, ou simplesmente vazios, não estamos fazendo outra coisa senão esperando a porta bater.

E que seja ele.






quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Sobre vampiros, bruxas e pigmeus

Vômito
Robert Mapplethorpe

Um corte a mais, um corte a menos, tanto faz. Deixei a faca no mesmo lugar, não tiro, me adapto, me adequo. De vez em quando ele vem, sorrateiro, humano, dá uma giradinha e vai dormir. Sangra um bocado durante a madrugada, mas penso, rezo, é prece: sangue não me falta, sangue não me falta, sangue não me falta. Cerca de cinco litros. Eu pesquisei. Sou vilão. Aceito, readapto o aço ao meu organismo, faço ele virar parte de mim, orgânico, é meu, sou eu e não dói. Repito, não dói. Só para não esquecer. O inox já pulsa, a ponta ofega, o gume delira. Conto uma piada, corro, a exaustão é o caminho, o esgotamento real. Zerar o múltiplo, reconsiderar os disparates, atenuar a queda. Dica de mãe: já que vai cair, use os pulsos para não perder os dentes. Cinco litros, relaxo, não me vertera nem o terceiro.

Viro fantasma de novo. Assombro a casa, cômodos de fora, cômodos de dentro, todos assombro. Habito a minha solidão, conforto a faca, reino no país imaginário que criara e jamais fora habitado senão pelas minhas próprias ânsias. Derramo o avesso, sujo tudo. Pela manhã limpo. Sem vestígios, acordo cicatrizado, parecerá ter sido só mais uma noite indômita, not poltergeist, sem giradinhas, sem luar lúbrico, sem fatal, sem monstros, sem aço, sem misérias, esperanças oblíquas, câimbras inexistentes, pães duros, leite ruim e tristeza advertida.

E é só porque a manhã está linda, que torno a repetir, de fé alçada e coração revolvido: não me faltará sangue. Sangue, não nos faltará.
Sejamos, portanto, sorridentes.
Mais uma vez. 



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobre o gosto das memórias

O que Stanislavski me ensinou sobre cozinhar

A comida começa com a nossa capacidade de nos emocionarmos com ela. O feijão que só era gostoso demais porque, na noite anterior – enquanto o moleque se acamava, pois que o ginásio era miseravelmente cedo – ouvia-se do quarto o tilintar dos grãos sendo vertidos dentro do vasilhame para atravessarem a madrugada no solitário molho, como uma breve chuva de cascalhos. Era motivo suficiente para uma sutil sensação de alegria e contentamento porque, na próxima manhã tudo poderia dar errado, mas ao meio dia um aprazível feijão fresco com bacon e folhas de louro estaria no centro da mesa exalando uma aromática e estimulante fumacinha branca. Naquela época as folhas de louro pareciam tão escusáveis, hoje são essenciais como a vírgula numa equação algébrica, sem a qual não haveria resultado correto.

É a massa do pão caseiro frita, sempre orgástica em tardes de domingo, cujas formas se assemelhavam a pequenos travesseiros; a posta de carne matematicamente perfurada em um específico local e levada à churrasqueira, a delicadeza com que os cristais de sal banhavam a peça quase escarlate; as camadas da lasanha que eram construídas com a argúcia de um arquiteto a levantar um edifício; as mandiocas suculentas e encharcadas de molho de carne sendo anunciadas pelo vapor da panela de pressão, como se fosse um goulash improvisado e fôssemos vaqueiros húngaros de meia tigela. A desarmonia da vida real quase nunca conseguiu invadir uma cozinha feita com primor. Tudo poderia estar desabando, mas um prazer jamais seria negado ao redor da mesa, que por ora tornava-se um pedaço de terra cercado por água de todos os lados. A cozinha bem-amada era onde os instrumentos não desafinavam, por mais que lá fora houvesse balbúrdia e tormenta, impossível que no prato não houvesse música: era onde os membros da família, como náufragos em mar aberto, almejavam chegar ao meio e ao fim do dia, exaustos de serem tão humanos. A mesa sempre fora a terra firme das relações, onde a individualidade escapava e a impessoalidade bradava, onde os abstracionismos sociais e a algidez do cotidiano não pisavam.

Não é a toa que reproduzir um prato de alguém que se ama é como olhar um retrato e lembrar-se do que foi vivido, ou sentir numa roupa velha o cheio de alguém que não esteja mais aqui. É uma forma de fazer com que aquilo ou aquele que se foi ainda exista. Talvez, seja aí que a gastronomia e a arte se encontrem para além dos ultra-culturalismos estéticos: ambas nos levam através de algo material e efêmero, para um centro de significação transcendente que culmina no prazer não exclusivamente fisiológico. Algo que nos diga: somos mais que necessidade. Somos também desejo e necessitamos de beleza. 


Mas acolá do advento insano das teorias e das volições profissionais, o principal elogio ao cozinheiro não é o equilíbrio dos seus condimentos, a alternância das texturas, a exterioridade do seu preparo, o conceito cultural das suas escolhas. Se algum dia ele puder fazer alguém voltar ao que lhe é de mais precioso na sua história através de uma simples comida, terá valido a pena ser cozinheiro. Fará o que profundamente se entende por sentido: quando a sensibilidade suplanta a coincidência.