quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sobre o amor inválido

CHEGOU DOER
Caiofernandeando agostos

Robert and Shana Parkeharrison


Ele sabia que estava se envolvendo com alguém mais impalatável que o Bóson de Higgs. Mas não deixou-se quebrantar. Entregou-se de corpo e alma na genialidade daquela insignificância. A anatomia gourmet, as palavras nucleares, a veemência orgânica, o sexo terroir de benção. Era tudo prato cheio da mais alta gastronomia e insana sustentabilidade. Comê-lo era como saborear vôngoles numa caldeirada de algarvia. Era nobre e agreste. Língua lusa lambendo mandioca. Colonização de corpos augustos. E tudo.

Pura ostentação perdoada por Deus. E aquela fragmentação trabalhosa, teimosa, quase totalmente inevitável.

Mas com o tempo o beijo tinha mais gosto de flúor do que gosto de boca. Uma valsa medonha, um réquiem polonês, uma sinfonia tétrica. Era como transar com um coro de Krzysztof Penderecki. Estava habituado à melancolia contida nos movimentos musculares, à intolerância crisólita, à malícia requentada, à lambança vigorosa, ao códex de suas verborragias, às guampas embutidas, ao orvalho reticulado nas pétalas de sua desilusão consentida, à porra envelhecendo presa nas paredes do esôfago, à capadócia perpétua abrigada em sua alma. Até tudo isso tinha sentido. Como os comércios, ele criava dificuldades para vender facilidades. E até isso se tornara aceitável nas superfícies de suas máscaras, e tinha sentido. Era simplesmente louvável tê-lo tão próximo. Era horrível. Era louvável.

Mas também era agosto. E isso não mudaria. Havia sangue esparramado pelas ruelas do mês. Resquícios do ano anterior. Promessas de mais sangue para o seguinte. Um ciclo que se cumpria dignamente. Respeitar os ciclos, reciclar os vícios.

Caiavam-se a duros breus gélidos brios.

Era meta. Caiofernandear é verbo parido de agostos mal vividos, repletos de abandonos, desamores, lembranças acerbas, pastores inválidos, dor, asas encharcadas, metais estrídulos, orgias burlescas, carcarás, lepra, vegetarianismo, ócio, Calabar, Babel e medo. Era agosto. O que fazer a não ser engoli-lo e agradecer a patuscada? Ser no mínimo educado, sempre. Ainda que lhe arranquem a glória, lhe enfiem a faca e ainda lhe peçam café a girar o duplo gume nas vísceras. Ser grato, ainda que almoçando ranço e jantando saudade.  Mamãe ensinou assim, sorrir pelo sustento e não insistir pelo doce. Levara isso a sério demais. Porque o que precisava era justamente do doce, do supérfluo, do dispensável, do agrado, do gratuito, do inútil, do desnecessário, do excesso! Fazer birra, pirraça, rabugice, ser grosseiro, até abrutalhado, exigir o doce que lhe era de direito, ser mais que sobrevivente. Penetrar irrigado de leveza nas imprudências brancas de setembro. Sair correndo dos cárceres de agosto sem olhar para trás e ser eterno foragido de suas dolorosas loucuras.  Mirar o rumo, podar as plumas e tomar o prumo.

Mamãe ensinou assim. Não, obrigado.
E, famintos, continuaremos eternamente gratos.








sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sobre não estar só

T A L H A R I M


Éramos cinco naquela cozinha relativamente apertada.

Ao menos naquele dia, graças a Deus, estava abrochada feito botão sem viço. Fechado ele queria ficar, protegendo-se de si mesmo como se o interstício de suas pétalas fosse o começo de uma vagarosa e cintilada morte. E era. Por sorte, o domingo estava chuvoso, o clima era frio, porém ainda assim tomávamos uma gelada e amarga cerveja. Era bom que estivesse frio, porque era igualmente bom estar protegido dele. Algo mais complexo do que a ortografia ou todos os seus axiomas linguísticos permitir-me-iam proferir. Eles estavam ali, unidos daquela forma pela segunda vez, depois de uma década, quem sabe... Muito tempo passou em que apenas distinguiam-se pela genética, uma mesma central de explosões cromossômicas, se é que assim posso dizer.

Tinham esquecido que eram amigos, porém, mais que cordiais, eram confidentes um do outro. Ali sabiam coisas que jamais nenhum amante, entidade ecumênica ou demônio poderiam ajuizar. Era simplesmente bom estar protegido do frio lá fora, levemente etílicos, levemente líricos.

Faziam um talharim improvisado no cilindro novo. Os dois irmãos que se ajudavam no manuseio da máquina em silêncio, apenas manipulando uma massa trivial, sentiam que conversavam profundamente pela primeira vez, ainda que para esse diálogo não estivessem usufruindo da abastança das letras e suas pronúncias, léxicos, etc. Conseguiram formar a mais bela conversa em um lacônico hiato. Construíram uma ponte dentro de uma pausa. Um colóquio afogado na suspensão.
Éramos irmão, e irmão. Pela primeira vez, depois de décadas. Levemente etílicos. A cerveja amarga, a chuva densa de frio e leve de sentido. O céu cinzento que nunca fora tão colorido.

Mas, o pior de tudo, provavelmente: aquilo só duraria o tempo de um efêmero almoço dominical. Depois, todos regressariam para os seus quartos, se chafurdariam na areia movediça de suas vidas particulares. Eu tentava lembrar qual fora o momento em que a droga da particularidade da vida roubara a cena, apagara a ribalta e exonerara os atores. Havíamos aberto a mão de tanta coisa por tão pouco, coisas que estavam apertadas no núcleo de nossas palmas como tesouros. Ah, por tão pouco... E pela primeira vez viram que o pouco era o sonho. Que o sonho sempre levara as pessoas de algo grande, para algo menor, de modo que só assim almejassem alcançar algo de nobre. É preciso descer um degrau para sonhar com coerência?

Era muito importante que chovesse. Torno a repetir. Porque o invólucro daquele cotidiano efêmero e rispidamente barato era quente, e era dessa quentura que estavam carentes. Há décadas, talvez.

As vezes, no oco hermético de suas cabeças comovidas, pensavam entre um gole na cevada e um giro na manivela do cilindro: “não acabe, não acabe, por favor não acabe.” Temiam, ligeiramente, que a pureza substanciosa daquela realidade fosse invadida pela pureza substanciosa do tempo.  A velocidade do amor é oposta a velocidade de nossa necessidade de amar em plenitude. E isso tinha um toque bárbaro, como a miligrama de olor fétido necessária para produzir belos bálsamos vitrificados. Afinal, não há paisagem verdadeira que se abrolhe apenas com perfeição: há de haver um covil, um pântano, um abutre, para que a água do mar seja tão azul e límpida, a areia tão cálida e macia, e os pássaros tenham tão soberbo canto.

Necessitavam daquilo, há décadas, possivelmente. Daquela chuva fria, daquele calor transitório. Trabalhavam o amor como as mãos a elaborarem o glúten do rígido trigo. Pão e sede. Sem nenhuma diligência. E também sem nenhuma desconfiança... Respiravam sem a pretensão de viver.  
Um salto sem volta no abismo das graças.