segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sobre uma poesia na horizontal

Oro,orare
Ruven Afanador
Que eu lhe permito alma plácida que caíra no meu vasto nada retumbante, vaguear-me pelas veias e tornar-te essencial para mim. Que eu lhe permito ser mais profunda e fúlgida quando do lado de cá de meu corpo tomar um copo de escuridão e duas doses de raio vívido. Que eu lhe aguardo porque quero e preciso desenhar infindáveis mapas astrológicos com o cruzeiro de tuas pintas impávidas, porque quero prazer colosso e ele só extraio de tuas terras adoradas. Aceito as tuas inconclusões, concluindo-as com as minhas suspeitas, teremos assim fulguração de novo mundo em nossa doméstica micro-pátria. Ó, meu ócio, minha demência transcontinental, meu florão de mais baixa botânica no mais elevado frontispício de meu orgulho, meu lábaro suburbano, flâmula cadente cativa em minha garganta, clava doce arraigada no centro de minha aldeia, inchaço das minhas solidões, gêiser pulsante ao centro dos meus comodismos, infestação de noctiluca scintillans nas minhas lamentações de crocodilo. Cálcio meu. Cálice meu. Cale-se meu. Cárcere nosso.
Que eu lhe permito atingir-me ao meio, e espatifar-me. Que eu lhe permito cuidar do que és teu, porque ele precisa. Permito que saias, e não voltes. Mas não permito que voltes, e depois saias. Minha nação garrida, minha fratura exibida, meu zinco e meu leite, parélio de meu passado. Meu amazonas túrgido, meu pavor antirrevolucionário. Mel inculto, brado enguiço,  orgasmo russo, folk libido.
Só porque te quero pleno, dou-te até mesmo o que fui, e o que hei de ser. Só porque te quero aqui, dou-te todos os meus caminhos e atalhos. Só porque te quero pra sempre, dou-te o que talvez nunca eu seja. Só porque te quero dentro, entrego-te meu avesso.
Que tu me compões mais lisérgico que uma ilha Maldiva. Sutra, trovão e catapulta. Tuas ingênuas rosas fanas, aqueles desatinos sem maldades, aquelas saudades sem desvarios, aqueles naufrágios sem âncoras, navios desamarinhados de ti, buchanan’s whisky, aquele ardor sem brio. Tudo porque é lógico, é óbvio, acredite. É carente e é maldito. É evidente. Mas é claro, nunca tive.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Sobre o silêncio daquela noite (II)

Ruven Afanador
Mesa pra um
(Seconda versione: quella lato) 


- “Eu imaginava que esta cerveja estaria assim, acerba, antirrotunda, rota, imunda. Eu digo isso porque ela está a me descer pela goela como uma pedra-pomes. Eu imaginava que fosse assim, ele olhando mil vezes pro celular como se almejasse penetrar nos pixels da tela e sumir para um poleiro imaginário, algo menos terreno, mais sky with diamonds, e eu apreciando a plaquinha tosca de neon como se fosse um quadro do Salvador Dali, tudo consideravelmente desconcertante.

- “Aquele senhor que chegou com aquele menino. Porque é de fato um menino, deve ser maior de idade, mas para o porte daquela bicha velha é um menino. Trouxe o guri pro restaurante italiano, vai enfiar capeletti e fettuccine com guaraná por todos os buracos dele para depois comê-lo. Guaraná porque a novilha de veadinho ainda não bebe álcool, é baby beef. Certeiro: veados quando colocam blusa de lã por cima dos ombros são quase vitelos, ótimos para um blanquette de veau, ou são quase pedófilos. É como a engorda dos Três Porquinhos. Mas a bicha velha deve ser passiva, vai chupar o pauzinho do garoto até ele ficar bem durinho e depois pedir para ser ingerido. O baby beef, que tem cara de depressivo em ascensão entremeio uma capoeira de acnes, vai sair chorando e pedir pra ser levado pra casa. Chegando lá, a mamãe irá lhe perguntar o que aconteceu e tudo o que ele conseguirá é arrotar por três dias aquele capeletti alarmante que comera entre crises bucólicas de identidade com muito, muito guaraná”.

- “De novo eu poderia tentar lhe dizer palavras gentis e elogiosas, mas tenho a impressão que soaria mais pérfido do que uma cópula de pornochanchada. Eu me lembro com precisão dos galanteios pulcros, das promessas por ora idiotas, por ora sagradas, da nossa infantilidade para com o amor. Tínhamos o brilhantismo da imbecilidade dos sonhos, nos sentíamos blindados por isso, como se a hemorragia dos cotidianos jamais pudesse estancar a fluidez dos nossos atrapalhados planos. Éramos vilmente puros”.

- “Ele continua a tirar palito por palito daquele potinho e a quebrá-los em mil partes. O meu psicologismo de boteco me permite interpretar mil coisas com isso. As vezes sinto que aqueles palitinhos sou eu. As vezes, são ele. Noutras ocasiões eles se tornam os outros, ou até o que nunca conseguimos ser. Ao final da noite a mesa estará uma pocilga de tantos palitinhos quebrados, um cemitério de Ginas, e nós dois ainda aqui, inteiros. Infelizmente?”.

- “Parece que estou ouvindo Billie Holiday sussurrando no meu ouvido que “as árvores do sul produzem frutos estranhos...”, com aquele bafo de uísque, aquele ranço na boca como se tivesse mastigado folhas de magnólia sujas de sangue. Por que cargas d’água este bar burguês está tocando isso? Cadê os pagodes universiotários, os funks cariocas, o pop norte-americano comercial? Quando mais preciso dessas paspalhices me vem querer ser cult? A cultura é triste, ninguém nunca percebeu que não existe cultura que não seja intrinsecamente nascida da tragédia? Alguém avise o idiota dono desse lugar que a cultura é uma puta de uma nefasta?”.

- “Ele pediu outra cachaça. Evidentemente está enchendo a cara para neutralizar esta circunstância. Cada um tem seu artifício, talvez eu faça igual. Veja aquela senhora ali, tantos penduricalhos para compensar o quanto está imóvel por dentro, olhando para o marido eu vejo, desventurada, tornou-se um sexagenário paiol de porra, enquanto o marido, obviamente, a digere na mais baixa gastronomia como se o corpo dela se assemelhasse a de uma porca na menostasia. Aqui eles fingem romantismo, cobrem tudo com romantismo fictício igual aos confeiteiros que escondem a torta avacalhada embaixo de muito glacê”.

- “Todos nós garantimos rugas posteriores com esses pequenos prélios. Veja ele, já tem cabelos brancos. Eu aqui sinto as marcas de expressão que me ficarão gravuradas na face. Unimos nossas rugas póstumas em uma só solidão a dois, de cara lisa e peito extravasado. Como aquele poema, não me lembro qual, nem de quem, mas havia um peito extravasado e um mel correndo...”

Di volto tranquilo e petto all'extravasazione, gli due pagare acconto di mano uniti e scomparire. 



terça-feira, 9 de julho de 2013

Sobre o silêncio daquela noite

Ruven Afanador
Mesa pra um
(prima versione: questo lato)

Engraçado como todas as mesas do bar parecem mais interessantes que a mesa deles. Na verdade, os dois estão escutando os diálogos intermináveis, copiosos, peremptórios ou efêmeros de todos. O lugar onde estão é gélido e a superfície nem sequer é de mármore. Mas, embora mais atrativas, as gesticulações alheias são percebidas com desinteresse e nevralgia. Eles pensam que os assuntos estão ótimos. Parecem ótimos... Sim?

Há um tempo eram eles quem estavam nas mesas alheias, olhando para um determinado casal que parecia muito especificamente infeliz e pensando: que pena deles, que deplorável chegar a este nível. Não há conversa o suficiente que tampe a boca do vazio. As garrafas de cerveja parecem eternas e o líquido lhes desce pela garganta como ácido, como mijo. As pessoas riem, choram, contam anedotas, discutem política, o preço da gasolina, o clima, o reajuste do pão, o uso do glutamato monossódico no lugar do iodado comum, as características lúcidas da macroeconomia, e os dois continuam assim: em silêncio tão absoluto quanto a vontade que têm de serem mais interessantes um para o outro.

Houve dias em que as mesas ao redor poderiam arrebentar que ambos não intuiriam, estavam tão focados um no outro, em redescobrir as belezas, enrustir as tristezas, sacudir a felicidade do parceiro, que nada poderia ser mais respeitável do que aquele retângulo de madeira e o riacho de sensações boas que escorria de seus cotovelos apoiados.

Naquele dia não, tudo e todos eram indispensáveis porque sem eles sentir-se-iam sozinhos no mundo. Aquela frase antiga de que “ao fim é cada um por si”, nunca pareceu tão pertinente e nunca soou tão clara, tão eficaz. Se pudessem descochar por um minuto a dicroica sobre suas cabeças e permanecerem como estavam de fato em matéria ou em não-matéria: vultos, silhuetas não preenchidas, mistérios sem segredo. No escuro. Computavam o tempo para que os olhares insípidos não se cruzassem sobre a mesa, constrangedores. Queriam fugir. Não juntos como antes, mas fugir um do outro, ou, quem sabe, de si mesmos?

Sentiam como se tivessem perdido algo muito importante e não conseguissem mais achar. Era como sair de casa sem um dos sapatos, sem a carteira ou sem o celular e pensavam que, talvez, voltando, poderiam procurar mais uma vez... Procurar melhor... Quem sabe aquela coisa perdida estivesse escondida dentro de um armário, entre papeladas de contas, discos, epístolas remotas, notas fiscais, cartelas de valeriana, roupas velhas? Em algum lugar deveria estar.  Deve estar...

Há de estar.


sábado, 6 de julho de 2013

Sobre uma odisseia na insignificância

Prazeres.


Robert Mapplethorpe
     A cara dele ensoberbecida às seis e meia da manhã, os olhos quase abrindo tentando detectar o mundo, grunhidos opacos, sorrisos parcos, a pele estreita, o marrom rútilo. Minha mãe me chamando de praga e me pedindo para por os chinelos. A palavra ladrilho. Descascar batatas para ela, cozinhá-las, cozê-las, depois comprimir o legume bem forte com o garfo, fazendo a batata e o arroz se tornarem um só em alquimia fabricada. Abrir a braguilha dele atrás do pinheiro, encostar as coisas e sair correndo. Temer queimar-se com a urticária de taturanas peludas de jabuticaba, que na verdade são cerdos, que na verdade são lepidópteros. Passar a mão na cabeça dele sem que ele sinta. Dizer vai ficar tudo bem, mesmo que não fique. Passar shampoo, desengonçadamente, mas a lhe proteger os olhos. Não saber passar shampoo na cabeça de alguém. Uma lágrima econômica na tortura. Depois de dois anos botar a cabeça para fora da janela as três da matina e finalmente ver que também há outra cabeça para fora da janela além da sua naquela matina. É segunda ou sexta-feira, dia de lavar a roupa. São entre nove e dez da manhã. Há sol e pouca brisa. As roupas estão úmidas no varal.  Com este vento escasso elas quase meneiam, pois ainda estão pesadas de água. Tem cheiro de alfazema, lavanda, algo semelhante. Como é mês de novembro, está muito calor. Então, após ser expulso da alcova ele começa a perambular embaixo do varal. É como se o mar estivesse suspenso naquelas cordas de aço, sua calça jeans arregaçada nas panturrilhas, as ondas ricocheteando e desaparecendo pro infinito. É mais legal quando a odisseia chega aos lençóis... Quando estes tocam em seu rosto delicadamente frios, ele sente prazer. Um licor de chocolate esbraseando a goela. Uma manhã inútil nascendo mesmo assim. Um olho ardendo de sêmen. Uma pantalha que não queima. Um beijo absurdamente imprevisto depois de anos de costume. Um amor que passara e só deixara o gosto de alcatrão. Felpas tenras de uma alfombra alheia entre os dedos dos pés. O ronronar de um bichano na solidão de um duplex após a resignação de uma das partes.  A crocância do torresminho regado em caldo de feijão.  A crocância da panceta defumada. Uma estátua de Lênin sendo decepada. Um piano mudo. Um piano ateando sons no silêncio. Uma bolha de sabão equilibrada na ponta de um dedo. O crepitar de uma fagulha em hulha. O suor nevado sobre uma superfície de alumínio. Um colo dele. Um colo de útero. Um regaço só. Um desvelo não requerido. Um overloque erradicando as sobras do vestido de batista. Campos de linho na primavera belga. Um zíper invisível fechando em uma só escorregada. Um juramento. Uma declaração repentina. Um toque de reike. Um cheiro de essência. Um amigo vazando entre dedos e malhas.  A manhã atravessando o relógio. Um pássaro esquizofrênico cantando sozinho. Uma cabeça raspada. O poder e a graça da insignificância. Uma fumaça de café. Empunhar uma caneca com as duas mãos. Chamá-lo para deitar-se na mesma rede e sentir-se confortável naquele desconforto. E ainda assim não assuntar o tempo. É felicidade feita em batelão. Ignorar Deus quando ele se tornar um monstro. Tomar coca-cola em copo de requeijão. Uma onda abraça uma rocha, um caranguejo surfa na espuma borbulhada do mar, um curumim pisa numa estrela, o oceano engole a luz do dia quando a lua ele está a regurgitar. Um gole tosco de sarrabulho. Um dvd da Tina.  Um porta-retratos apertado contra o tórax. Chupar e resistir. Sou matéria de bagatela. E sem o insignificante, não significo. Poderei, quem sabe, dizer que sem ele, jamais vivi.




quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sobre o poder de penetração da Caesalpinia echinata

Anorgasmia
de aratubã

Esse plebiscito é uma floresta de pau brasil que a presidente está introduzindo delicadamente no cú do povo brasileiro, similarmente ao que Cabral fez há cinco séculos nos orifícios da América do Sul. É o começo de mais uma campanha petista/lulista. Não, eu não sou tucano, acho, na verdade, que é tudo farinha do mesmo saco. Como magistralmente disse Tom Zé: o Brasil verde fode o Brasil amarelo.
Penso que, simplesmente, um plebiscito que propõe uma possível reforma política não vai sanear o nordeste, não vai botar água na sede do povo e comida no bucho, conquistada não com assistencialismo, mas com oportunidade (sim, eu sei, esse discurso já virou clichê). Essa safardanagem partidária não vai melhorar a educação. Há quantos anos essa miserável dessa reforma está sendo prometida? E agora com os protestos resolveram ressuscitá-la? Não esperem que nas próximas eleições essas manifestações públicas sejam reverberadas e executem a higiene necessária no Poder. Apesar dos belos e corajosos protestos, o povo continua o mesmo: ignorado ignorante por uma Educação chula, inapto a perceber o estupro moral que o Brasil faz com sua dignidade. Os políticos não estão assustados ou temerosos. Aliás, eles estão bem tranquilos. Sabem que continuamos burros. Que nossa Educação continua medíocre e que estarão sempre protegidos pela impotência ocasionada por essas carências. Os jornalistas com seus discursos éticos à la kubanacam estão cheios de boas intensões e vontade de trabalhar, mostrar as injustiças, mas todos nós sabemos: você só será informado com o que os donos dos jornais acharem conveniente para eles, conforme a benevolência dos administradores públicos e os sub-ordenados das publicações "legais".

Em suma, sem mais esse discursismo preocupado, o problema é justamente esse: o governo introduz toneladas de pau Brasil no cú do povo brasileiro, e ele geme e grita gol.


Peço desculpas pelo nível baixo das palavras, mas foram as mais delicadas que encontrei para expressar o que sinto.