terça-feira, 21 de maio de 2013

Sobre casamentos

E  S  T  U  D  O 
S  O  B  R  E 

E  S  T  R  U  T  U  R  A 
D  O 
P  A  E  T  Ê

Ruven Afanador
     O casamento hoje em dia é uma coisa muito bizarra. É bizarro tudo. É bizarra a maneira como os noivos sorriam ao entrar na igreja. Eles sorriam como se houvesse um jeito ideal de mostrar a arcada dentária em determinada situação. Mas tudo é tão cinematográfico que da igreja até o salão de festas a impressão que tenho é que geral faz parte de um cenário da Disney. Lembro-me quando eu era criança e ia às festas de aniversário, a decoração era feita de isopor e muito gliter sobre ele, emulando personagens norte-americanos infantis: Cinderela, Branca de Neve, Peter Pan, Mickey. Quando vou a um casamento hoje em dia a situação é a mesma: as pessoas pagam caro por um cenário altamente reciclado que será lixo em poucas horas. E existe um modelo que deve ser respeitado: devem haver taças, talheres bonitos, muito pano nas paredes, majestosas entradas, buffets, lustres, buquês de flores, tapetes vermelhos, o melhor book com a fotógrafa mais badalada, a noivinha com cara de entojada e little bourgeois, além de um cerimonial todo pronto e estereotipado que não deixa à vontade nem sequer a mosca sentada naquele quindim que as crianças vestidas em roupas de adulto estão loucas para devorar. E então sempre há um organizador, um maquiador, uma bicha bem sucedida, o escambal, que obriga os fregueses a se tornarem caricaturas de si mesmos. Ninguém se diverte. Na verdade, inicialmente todos mantém a pose dentro de suas gravatas e seus vestidos falsos e alugados. 

Na segunda parte do drama todos colocam chocalhos, óculos coloridos, pulseirinhas que acendem, paetês ordinaríssimos e plumas. Pronto: chegou a hora de pararmos de fingir que estamos sóbrios para aguentar esse porre e finalmente dissimularmos que estamos felizes, chegou a hora de dançar! E então todo mundo é bem-aventurado. Sim, porque para ser casado e feliz, você precisa ao menos tentar alugar o melhor salão da cidade, conseguir o melhor vestido e as melhores bebidas, sair na página de fofocas do tabloide e arranjar a igreja mais disputada e o padre mais pop. É preciso que o noivo aparente romantismo no altar também, pouco importa se em casa ele te dá na cara: lá ele deve ser gracioso como uma Amelie Poulain. Seja o exemplo, o modelo de prosperidade constituída. Só assim haverá um matrimônio.

E isso não acontece só entre os ricos, não. Quem não tem dinheiro faz a mesma coisa. Nem que se mate, faça dívidas, se escravize no trabalho, penhore a alma na Caixa Econômica, mas é preciso ao menos chegar perto do padrão.

Eu fico me perguntando quando foi que o casamento se tornou essa droga de hoje em dia. Ninguém mais se casa e é feliz onde lhe importa ser feliz. Você não pode casar de fronte ao mar, naquele jardim que você costumava ser feliz com um belo de um churrasco, naquele salão xexelento do clube paupérrimo onde vocês dois se conheceram, naquela casa poética de madeira, naquele sítio lindo, naquele quintal profundo onde moravam ou no salão da igreja da periferia. Pessoas que detestam e nunca usaram terno deverão usá-lo e se enforcarem em uma meio-Windsor. Encaixe-se. Adapte-se. Seja o casal da propaganda, da novela das nove. Para se mostrar feliz hoje em dia é preciso ser o que não se é. Para entrar na corporação, é preciso se abortar.

Dê um sorriso para a câmera e corra, você precisa cortar o bolo, se trocar e ir correndo pro Rio de Janeiro (ou ao hotel mais “chique” da cidade) e dar pro seu noivo (já que o padre abençoou a sua “donzelice”). Ah, e não esqueça de brindar: cruzar o braço com o dele e tomar a sua cidra enquanto um fotógrafo com cara de evangélico eterniza este momento único.


Se nada disso acontecer. Desculpe-me, sua união não foi bem sucedida, muito menos notória. 

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Sobre este ofício

Tratado 
indevido da incompreensão
   Troquei Iemanjá por Tin Han. Nada novo. Nada muito. Nada tanto. Algumas escoriações no joelho, muito mertiolate, aquela infância em que a gente ria, que lateja e que não vai embora nem a pau, doida de ficar. Mas, em paz por ter descoberto que a causa cabal da minha hibristofilia foras tu. Isso me deixa em paz.  Bem como a claridade inata da manhã que não consegue penetrar na minha janela. Há blackouts até nas vidraças de meu cú. Escuridão total aqui dentro, mas uma paz danada. Uma paz. Assistir uma manhã surgindo é como parir a próxima promessa. Dói porque, embora aparente, o tempo não é circular, logo não há aleluia que ampare a agressividade das suas esquinas e a rigidez de seu porvindouro.
   Acostumei-me tanto com as tuas fantasias, máscaras, capôs e alegorias, que tudo me parece ingenuamente justificável. Furry fandom*, meu bem. Isso vai demorar pra acabar.
   A miscigenação dos meus santos fez nascer um Deus perigosamente nacional. Amálgamas de entidades metafísicas para justificar o anonimato das minhas concretudes rasteiras.  Mas é que eu sou da sarjeta. Nasci do meio das pernas do borralho e desde cedo me alimentei das tetas do comum.
   Faça exegese não. Se deixe ferrar nessa deficiência de sentido, eu quero que você me incompreenda como uma forma de estar comigo. Porque eu sei que quando entender, você irá embora, não pelo fato do que estará sendo compreendido, mas pura e simplesmente pelo ato de abrir teus olhos e invalidar as visões que não advém apenas de teus olhos.  Quer clareza, mas não percebeu que o humano procura incompreender as coisas no mesmo nível que deseja arroz com feijão. Se você só compreendesse, sua existência seria abjeta, porque não haveria ternura no teu amor e ele seria apenas mais um produto que se põe pra dentro e depois se evacua.
    Meu berço é a escatologia e eu anseio pelos teus fulgores porque sou homem comum, sou humano-número, vida demográfica, cabeça íncola. Não sou apenas mais um porque carrego quilíades comigo. Exageradas vidas em minha cabeça e meu coração, das quais algumas já externei e outras talvez nunca conheçam a textura dos asfaltos.
   Sim, meu benzinho humano e insolente, escrever é uma espécie de exorcismo, onde não se arrancam intrusos, mas convidados. Sim, minha parafernália orgânica, eu pus pra dentro todas essas aberrações e princesinhas, passei a infância inteira fazendo isso, inseminando poesia dentro de mim para um dia retirá-las sem nenhum tipo de efervescência. Fui vítima de Lispector, Lígia, Joyce, Bethânia, Virgínia, Cunningham, Abreu, Bausch, máfia aguda dos interiores. Fiz-me afetado e atravessado pelo incerto e até hoje vejo na improbabilidade uma das mais lindas entre as sensualidades. Na minha religião, excitar-se com o desconhecido é dogma. Quem não fecunda o incógnito não pode parir uma novidade, pois o original só insurge entre empuxos sísmicos de contrassensos.  E, no arremate, a precariedade é meu enfeite. Percebe-se isso nas linhas acima, não?
    Te amei abaixo de Greenwich, no subsolo dos prédios cinzas das Iugoslávia, a beira de lagos pudicos, amarrando o rabo das brisas no oco de tuas cabeceiras, ao som de Gal e das motocicletas de lá de fora. Entre essa mistura de fumaça, camponesas Balcãs excitadas de Abramovic, estacionamentos ecoantes, meridianos metafóricos e ilusões legais. Te amei na melancolia desastrada do pôr-do-sol e no mel dos fins de semana. Abaixo de aviões da Tam e passarinhos desnorteados de maio. Te amei na cachaça e no barbitúrico, no que tinha pra ser e na espera sem fim do que ainda não chegou. Te amei nas lacunas da impossibilidade. Te amei porque você me ensinou que galhos secos de árvores mortas podem ser belos, justamente porque, além de secas, não estão mortas e, além de vivas, estão nuas. Te amei na espalmada áspera do frustro e na camada grossa do tédio. Entre as minhas linhas abstratas e as minhas entrelinhas inequívocas. Sentei-me no centro do teu apocalipse, e meditei.
    Pequeno buda católico gritando “odoyá, minha mãe!”
    É sempre assim: algumas verborragias e um romantismo melodramático e barato no final.
    Você já deveria ter aprendido.





* Atração sexual por pessoas fantasiadas de animais

terça-feira, 14 de maio de 2013

Sobre vícios

Regresse cinco línguas 
e depois lamba muito bem
Robert and Shana Parkeharrison - After the Feast

     Nossa língua está corrompida. E não apenas idiomaticamente. Além de ter falta de destreza e excesso de malícia com o verbo, nossa língua está corrompida por dentro, na superfície, nas papilas gustativas. Suavidades não são mais percebíveis. É cada vez mais difícil agradar o paladar porque ele se habituou ao descomedimento, ao pleonasmo, ao híbrido hiperbólico, a química, ao que é produzido sem nenhum respeito às individualidades do paladar de cada um.
      Padronizam-nos na maneira de se vestir, no que ouvimos, no que pensamos. Padronizam nosso humor, nosso amor, nosso orgasmo e nossa ira. Devemos ser estandardizados até na miséria, porque isso é sinônimo de ser humano. E, como em todos esses segmentos, padronizam nossa boca. É muito difícil elucidar para os nossos sentidos envolvidos no sabor que existem delicadezas a serem descobertas e que vão além do preceito de que se o gosto não é caricato, convencionalmente “aprazível”, pirotécnico, ele será, por decadência, insípido.
      Precisamos ensinar nossa boca a entender as tenras explosões. A indústria nos roubou a sensibilidade, nos treinou (como os glutões) a só detectar sabores hostis. E nossa boca, nosso estômago, nosso corpo, nossa saúde têm clamado por paz, pela simplicidade ancestral de nosso paladar genealógico. É preciso regredir nosso gosto. Temos achado saboroso o que é tóxico, inseguro o que é fresco e sublime o que é violento e impetuoso. E o que se perde na língua não se reconquista no prazer. Há sabores que jamais poderemos senti-los outra vez, bem como nos deliciarmos com seu poder de nos conduzir a tantos lugares depois de uma simples mordida.
       Nossa boca tem contemplado a truculência e regurgitado o impalatável.
      A língua é como um cérebro, se você o exercita incitando-o a raciocinar por intermédio dos sentidos, ele funcionará melhor e compreenderá melhor a vida (ou o prazer) que o circunda. Os alimentos e suas preparações podem ser dramáticos, irônicos, delicados, ríspidos, catárticos, agressivos, eloquentes, explicativos ou ocos. Não se trata de empirismo romântico acadêmico. Me dedico horas e mais horas todos os dias em uma cozinha a procura de me emocionar gastronomicamente, e só continuo porque o sabor me toca, me acresce, me faz sentir mais do que animal.
      Tudo bem, você não precisa compreender isso porque poderia soar como inútil, mas é imprescindível conhecer o tesão do sabor das coisas do mundo que ainda tanto desconhecemos e que jamais iremos conhecer enquanto a indústria adestrar a sensibilidade de nossa boca e, consequentemente, a vernaculidade de nosso organismo. Ela faz confundirmos o naturalmente artificial com o artificialmente natural, levando-nos a esquecer de procurar a naturalidade transformada pelo artesanal (maciço de história e cultura).
        Este é um protesto pela selvageria da língua.
     Abra sua boca para o pouco, entregue-a para o bom e ouça a orquestra dos gostos se alinhar em escalas diatônicas de sabores ao redor de seu paladar (perdão pelo tom epopeico). Comer bem não é luxo, é necessidade. E estamos comendo mal não porque não temos dinheiro, mas porque nosso senso alimentício aprendeu a enxergar na banalidade da produção em massa um porto seguro de pura idoneidade desenvolvimentista. É o mesmo que fazemos com os médicos, com os pastores, com a imprensa: simplesmente acreditamos, ainda que o que estejam dizendo seja o mais íntimo de nós e proporcionalmente contrário à verdade.
      (...)
      Particularmente, tudo começa (ou termina) pela boca.
      Mas isso é assunto para outra hora. 

quarta-feira, 8 de maio de 2013

Sobre metáforas

PÃO E FOME
Foto: J.J.M.S.

Estudo técnico da trajetória da gota de suor em teu corpo às 14h56

     Eu acreditei no indelével porque a grossura do palpável derrubou minhas mãos. Amei canalhas porque meu coração gostaria de evidenciar a eficácia de sua própria prerrogativa. Deixei-me ser cortado ao meio porque jamais duvidei do poder cicatrizante de um novo corte. Eu ameacei abandonar-te, pois sabia que a passagem em que partiria seria a mesma em que voltaria à tua cômoda imensidão. Suportei as multidões do meu silêncio já que minha surdez induziu-me a ouvir o grito contuso das minhas entrelinhas. Eu viajei além do meu mar só porque muito antes disso já surfava nas ondas da minha incompreensão. Envenenei-me porquanto a loucura já me doutrinara a ejetar a cicuta pelo verbo e transubstanciá-la em poesia. Gritei teu nome mil vezes no vazio a te chamar apenas porque acreditei que o eco de minha própria voz era tua resposta. Afaguei-te a cabeça por inúmeras noites por crer que estava roçando nuvens e osculando asteroides. Mostrei-te o caminho adiante, pois não imaginava que iria sozinho. Dividi meu calor porque a parte fria que ganhara era o sopro gélido dos teus segredos. E teus mistérios foram minhas ervas. E estas diambas foram minha yoga quando por fim a meditação já se tornara meu dogma.
     Não questionei os absurdos porque foi através deles que adquiri minha objetividade. Não parei de dançar porque o imóvel esconde-se desde a puerícia abaixo de meu leito a ameaçar levar-me ao inferno.  Só duvidei de teu amor pela ineficácia constatada de meu coração ferido. Afoguei-me mil vezes no sufoco de tua virilidade porque já estudara respirar com a alma mergulhada no crivo inócuo de teu corpo por dentro. E fui feliz por me danar em tuas células. Orgulhoso pelas marcas fundas que me deixou: estas anotações em carne.
     Allia quando terunt retinent mortaria gustum (*).
     E me alegrei por me arremessar dos teus corcovados de quimeras magníficas. Só lhe fiz tudo porque depois de ti só restaria o nada mais. Ri de estar perdido na geografia de nossa cama, ri pelos diafragmas que perdi nos jogos de nossos voos e pelas asas que me arranquei naquelas imersões. Como te amar não julgando estar vivo após a quebra? Vou dizer-te: flutuei na eternidade dos teus nuncas, perdi braços e pernas no campo minado de teu corpo, mas nunca desisti de continuar caminhando rumo ao teu coração. Inútil tomá-lo como norte. Iremos consecutivamente seguir em vermelho e nem sempre ele estará morando em nosso peito ou onde a pulsação se exibe em estremecimento pródigo.
     Eu metaforizei este pão temendo que ao fim ele fosse apenas pão. Que não seja apenas isto, que não seja apenas isto, que não seja apenas isto.
     Ou, no mais, sorrio e agradeço pela pobreza do meu isto, regresso ao nosso quarto farto da pequenez de nossa existência e durmo sutilmente feliz pela insignificância brilhante de nosso amor. Neste universo que um dia é pão, no outro é fome, ternura é luxo.





(*) O pilão conserva o odor do alho socado/ Quem azeite mede, as mãos unta.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Sobre Lúcia no céu com diamantes

Foto: autor desconhecido
ASA-DELTA
Este terreno não é totalmente alheio. Algumas coisas são reconhecíveis porque persistiram de uma forma ou de outra e então, não estou completamente deslocado. As centopeias gigantes de patas de neon e ouro, as antigeométricas nuvens de tabaco, mandalas fosforescentes, a dança psicodélica dos tatus porto-riquenhos, orgias de bonecas russas, crustáceos macrobióticos de cangalhas, espirais de borboletas de mercúrio ao redor da espinha dorsal, tudo aquilo que me fazia sentir dentro de Lucy in the Sky with Diamonds, dos Beatles, quando percorria carreiras intermináveis de pó em um precário atletismo das papoulas, ou quando apenas me submergia nos aduncos e palimpsestos de tua boca e nas falanges de tua língua.  Eu estava me reduzindo pra caber melhor nos sonhos dele e ainda me sentia tão grande por estar com ele, que a banalidade desarticulada da minha vida parecia incrivelmente pertinente ao mundo em que vivíamos. Eu sabia que ele (o mundo) bradava pelo meu vulgar, que sem a minha ordinária e descartável plenitude não haveria a burguesia, não haveria a miséria, a homofobia, o racismo, as verdades galvanizadas, o fundamentalismo religioso, skinheads, não haveria os genocídios, o imposto de renda, antissemitismo, os planos de saúde, ortopedistas de férias em Bariloche e os desentendimentos entre concubinas e namorados de jardim. Não haveria o porre de se estar socialmente inserido num meio vazio. Não haveria a necessidade de ser aceito pelo inaceitável, a ressaca e o vinho avinagrado. Mas eu sabia que acima de tudo, estar ao lado dele e nos entulhos de sua moral era importante. Que eu me sentia menos totalmente laico, menos acidental, menos contraditório, estocástico, porque eu sabia que estar ali era bom, estar ali era importante.  E o que Deus me deu foi rigorosamente rogado. Desbotei significativos rosários e tornei-me íntimo de significativos santos (institucionalizados ou não): carpintaria bruta em cobre nobre e quente.

Eu consegui cair mais. Note com cortesia. Porque desde quando saltei – e evidentemente quando senti a roçadura do chão contra meu peito – eu achava que a queda havia terminado. Mas extraordinariamente sem eu intuir, meu corpo continuava a despencar e quanto mais eu me abstraía ou me afeiçoava à arrebentação: pedaços de mim em solo americano e subtropical nas mais verdes tundras. Não tardava e eu sentia um vento estranho (que futuramente eu não julgaria tão mais adventício) vindo contra meu rosto: corpo meu a cair de novo, sabe-se Deus de onde e sabe-se Deus por que. Entretanto, alguma coisa expunha incansavelmente para mim: você precisa desse desmoronamento perpétuo, o chão ainda não chegou, você continua percorrendo a distância entre a ponta do penhasco e a poeira da terra, entre o fulgor e a ruína.

Sim, tenho saudade das minhas borboletas de mercúrio, dos bacanais de bonecas russas, dos crustáceos macrobióticos de cangalhas e das centopeias de patas douradas. Isso tudo significa que fui feliz. 

Quando se está caindo, sua vida habitual, enfadonha, prossegue. Você pode estudar, trabalhar, fazer seu alimento predileto, por cerejas em picos de glacê, discutir a arquitetura do clitóris ou política, se limpar, relacionar-se socialmente, fazer tertúlias, tudo isso enquanto a queda não termina. Como eu já disse, este terreno não é totalmente estranho. E saber que eu já estive aqui (...). E saber que eu já estive aqui é tão triste e decepcionante. Lembro-me quando pela primeira vez – eu era uma criança e havia feito algo errado – um olhar de reprovação de meu pai talhou-me ao meio, e eu pensei: tu não tens mais dignidade alguma, perdeu-te a decência, jamais te tornarás homem. Hoje é a gravidade quem me manda esse olhar. E eu continuo caindo e a vida continua bela. Os infelizes de plantão seriam muito menos infelizes se a felicidade do mundo não fosse tão estética.

Eu te espero de braços abertos e coração despencado, única e simplesmente porque tu és o chão que nunca chega e onde eu deveria desabar.

Mas ainda não acabou.


Lucy in the sky with diamonds.