quinta-feira, 25 de abril de 2013

Sobre nada

L'éphémère
Será que Deus mudou, ou será que nós mudamos de Deus?”. Ouço nos meus fones antropocêntricos a Cássia Eller cantar isso. Deus não mudou, pondero, nós mudamos Deus, dentro ou fora dos cultos. A frase é altamente contestável. Só não garanto tréplica.

Quando eu era criança, com certeza meu Deus era mais superior a mim. Acho que vamos crescendo e involuntariamente nos coincidindo a Deus, porque em algum momento ouvimos dizer que somos semelhantes a ele.  Noutro, de repente, ele se assemelhou a nós. Quando criança ele deveria ser temido. Era uma espécie de monstro bom. Depois ele é contestado: o colocamos no centro da roda e sim, fazemos perguntas pra Deus e sim, ele tem a obrigação de responder (de uma forma ou de outra).

Conforme o tempo passa, hibernamos Deus, resguardando-o de nossas próprias perturbações, anfibologias, agonias teológicas, friezas, paixões devastadoras. É nesse momento, com Ele guardado, que chegamos à crítica fase de baralhar a paz com a tristeza. Filhos do caos só gozam no redemoinho...

E é quando Deus deixa de ser um octogenário de barbas quaradas e semblante blasé, que deixamos também de gramaticar seus silêncios. Tenho em mim que jamais Ele (ou ele) disse uma palavra sequer, e foi justamente para alcançar seu incondicional silêncio que os homens até hoje fazem guerras, se humilham, se excluem, se mutilam, se detestam ou, simplesmente, se veneram ou, mais simplesmente ainda, se amam. A ideia do indefinido – e que é justamente esse indefinido que nos define – nos emburrece de tal maneira, que só resta nos perdoar com apóstrofes do que é divino. Pois não são apenas os cientistas que estão contestando Deus ao procurar a origem do universo fora das escrituras (para uns, apócrifas; para outros, lógicas). Aquela senhorinha de cabelos brancos ajoelhada na sacristia, em silêncio, desgastando a tinta do seu rosário, está tão perplexa quanto os cientistas e está como eles – e durante toda vida – tentando entender de que raios ela veio e pra que raios ela irá. Estamos todos ajoelhados, sejam nas sacristias, sobre alfarrábios de Sartre ou nos laboratórios, esperando uma resposta superior e imaterial que jamais virá (e, o pior de tudo, é que sabemos que nunca virá).

Quando Deus já hibernou o suficiente no oco de nossas cabeças neuróticas e nas pororocas dos nossos corações frustrados, puxamo-lo para fora e queremos mostrá-lo ao mundo como se ele fosse a nossa mais bela obra-prima, cintilada das nossas vísceras através de muito sangue e de muita dor. É um momento de alegria, inclusive. Somos todos mães de Deus e jamais teremos notícia de seu progenitor. O fato é: ter Deus, dói.

O tempo passará e, quando o Criador já for órfão do universo, lembraremos dele quando sempre notarmos a morte, rodeando-nos feito um flanelinha. Os ateus certamente se lembrarão de alguma coisa, mas seria desrespeitoso da minha parte tentar delinear esta coisa, já que, infelizmente, não sou ateu. E digo isso não porque acreditar em Deus seja ruim, mas porque acreditar em Deus as vezes dói, requer muito trabalho, praticamente uma mão-de-obra escrava nos dias de hoje. São tantos semideuses fazendo-nos perder valioso tempo...

Deus fez uma anedota conosco: ele é efêmero e definitivo. É a piada do milênio. Pode rir.

Por fim, diante de tanta coisa, poderia nos restar outra a não ser, enquanto humanidade, criar e nos perder infinitamente nas mais violentas ou belas egrégoras?