domingo, 24 de março de 2013

Sobre Tel Aviv

Country music, porras e desatinos
rascunhos  de corpo  sobre alguns dias de luta

Pina Bausch
“But I believe in love
 I believe in babies
 I believe in mom and dad and
 I believe in you”

(Don Williams)

Não deixa de ser fato que enquanto vivia ao lado dele tinha se transformado em uma beduína, e que as carências e exigências rotineiras igualavam-se a um código tribal islâmico, bem como o que chamavam de lar, mais se assemelhava a aridez de uma Israel perdida. Tudo pulsava. E era porque pulsava, que tudo estava solto e vulnerável. Sempre fora da vulnerabilidade da vida que se engordaram os sonhos mais burlescos, não? Igualmente, sempre fora das ignorâncias nazarenas que surgiram as mais belas religiões. É por tudo isso que a pulsação urrava na pancadaria. Era por esses fatores todos que ela estava exaurida. Íngreme Colina de Primavera. Tão cansada de escalar e despencar que qualquer sentido aparente que engendrasse de suas anestesias, seria rapidamente engolido pela perplexidade das suas próprias perguntas.

Ventava naquele março todas as noites, tal e qual as persistentes e recursivas ventarolas de Andaluzia. Exatamente assim: debruçada na janela, lendo pela septuagésima oitava vez, toda ridícula, toda brilhante, aquele bilhete, metade banal, metade simpático. Meu Deus, tratava-se de um solilóquio ensaiado ou de um desespero comedido?

“O som do vento conversando com os picos dos prédios 
e redarguindo nas frestas das venezianas do segundo andar: 
diálogo onde só os hiatos dizem e meu oco traduz. 
Vício de só compreender e respirar o imponderável. 
É na noite profunda em que me legitimo hebreu da minha própria perseguição. 
Sou monstro e mago da minha ficção espantada. 
Bruxa e cinderela do meu inferno convertido, cura e hemorragia da minha noção. 
Já aprendi: só fúria estica os braços do meu mar até a terra”.

Assim, só esse amontoado pré-cabralino de frases aliteradas, essa náusea alfabetizada fruto pomposo de terceira geração ultrarromântica, esses paralelismos anti-morfológicos, só isso ela tinha em um pedaço de papel, fundo de uma caixa de canelones vencidos-quase-podres (datados da última páscoa, aquela sorrateira páscoa submersa num pântano terrível de creme de espinafre com ricota azeda), só esse bacanal de escolas literárias aborrecidas que nada acrescentavam ao mundo senão a psicopatia do verbo. Só isso. Rimas subliminares e cuspes organolépticos, coisas que escritores desocupados faziam dias e noites, adoentando a simplicidade do indizível e dando deveras saúde à violência da retoricidade do concreto: Górgias substantivado, parido de parnasianos punheteiros do século XVIII.  Só isso ela tinha, as palavras de um homem quebradiço se escondendo atrás da própria astúcia, fazendo escudos com a vacuidade de suas questões não respondidas. Só isso.

E os ventos de Andaluzia, e sempre os ventos de Andaluzia, prolongados, trágicos, acabrunhando mesmo as terras abstrais da sua arrebentação muda, súdita do grito que te almeja fender o peito e repartir o espírito. 

E tudo o que ela queria era que ele apenas tivesse deixado um bilhete a dizer “preciso-ir-a-gente-se-vê-um-dia-se-cuida-beijo”.  Um simples adeus, um “vou-caçar-de-ser-feliz-baby”, não aquela esfinge que a deixaria meses decodificando, soluçando, patética a consultar glossários, léxicos semânticos, doxógrafos ululantes, livros de física quântica e epistemologias kantianas pra conseguir compreender que tudo o que aquele imbecil estava tentando dizer era “to-indo-embora-valeu-por-tudo-fica-bem”. Mas ele precisava deixar seu rastro de incompreensão porque a clareza voraz da vida borrava suas calças de menino perdido.

Por ele, ela circuncidou seu Deus e crucificou seu Buda... “Deixou de acreditar que Robin Hood e Superman ainda estavam vivos em Hollywood”. Que minissaia com legging e Dolly Parton eram formidáveis, que pirilampos eram insetos entusiastas, que quando se tem o amor bem guardado, não significa que sua liberdade tenha sido hipnotizada. Deixou de acreditar que um dia seria cantora country e que viajaria em um jeep bege e azul-caribe pela América Latina. Que Che Guevara e Fidel Castro eram bons. Tanta coisa. Meu Deus. Que, tanta coisa.

A vontade que tinha era de ligar para ele, chamá-lo de volta e obrigá-lo a traduzir a própria verborragia, aquela masturbação poética bárbara. Era para publicar em um tabloide de pornô-lirismos? No obituário, quem sabe? Por que até quando imolava uma história utilizava de seus trejeitos estéticos? Um simples abandono bastaria. A vontade que tinha era de fazê-lo mastigar aquele papel de embalagem de canelone, dizer-lhe “coma sua bicha depressiva, aprenda a ser prático sua puta letrada estranha, engula tua própria porra!”, entremeados de um “fique”, ou “eu-ainda-não-acabei-de-te-amar”.

(...)

É por essas e outras que pessoas ouvem Don Williams e plantam orquídeas na janela, não é mesmo? 






domingo, 10 de março de 2013

Sobre a alegria

PUNK POLVO, AGAIN CORAÇÃO

O trompete de Chet Baker parecerá um consolo de cinquenta centímetros pelo apartamento e você se sentirá uma dona de casa viúva de Oklahoma, torcendo o próprio desejo como um pano sujo de prato manchado de molho de macarrão: sangue ao tanque. Você conseguirá transformar as tênues notas de jazz em ácidos gritos de guitarra rochosa, Ella Fitzgerald parecerá AC/DC, certeza: a repetição no rádio fará você confundir. Embraceable you vinte, trinta, quarenta vezes por dia. Não vai demorar e você estará dissolvendo ansiolíticos em coca-cola diet, porque sim, apesar de toda a viração, o desejo de ser desejado jazerá intacto como uma cotovia empanada num museu de animais do Velho Mundo. Lembra-se dele? Quando foi mesmo que o Planeta Terra encolheu e você pareceu um personagem de Saint-Exupéry sofrendo de acalculia filosófica? Quando foi mesmo que você começou a dialogar com o buquê de cravos pra tentar eclipsar os danos do teu excesso de crença?

De fato, quando Chet Baker lhe cansar e você estiver espumando ao chão em uma convulsão de notas de jazz e polirritmias sincopadas, lhe parecerá viável sair de Oklahoma e ir pra insular africana República de Cabo Verde, exaustar Cesária Évora, ah... com aquele doce e letal sotaque de “sodade”... 
Afora a sodade, Évora lhe fará acalantos pra seu coração baixar a guarda, esmorecer na paz de qualquer trindade. E, determinadamente,  você padecerá como o mar ao redor de Fogo ou uma senhora carpindo totolhos e adormecendo na enxada, de tanta sodade de um tal sujeito milhões amado.

Seus sábados parecerão enciclopédias da solidão, onde cada hora será um capítulo da sua nostalgia antisseletiva. Toda a beleza estará marchetada na semântica desses restos dele. Você sentirá que quem partiu deixou essas lembranças como quentinhas pra sua alma, nutrindo seu tormento, customizando a sua melancolia. Quem partiu não se dá o trabalho de deixar migalhas, você é forte, aguentaria mesmo um buffet na boca e uma bofetada na cara. Anote, quem partiu será sempre mais bondoso do que sua autorreflexão. Via de regra, bota no inventário e aguenta o peito.

Outro recorrente pensamento: Cesária Évora e Chet Baker não deveriam ter morrido, não hoje, este dia, não agora. Se lhe mostrassem em uma mão um prato de comida e na outra dois discos, ainda que você estivesse faminto, preferiria alimentar primeiro a alma. Se o estomago ronca quando esfaimado, o espírito range. 

Lembra-se daquele polvo punk à la Le Cordon Blue que ele fez e você quase vomitou? Lhe parecerá exoticamente necessário sentir os tentáculos outra vez em sua boca. Polvo é cool, afinal.

Na verdade, amar é isso. Você põe a sua cabeça na guilhotina e espera ela virar uma melancia pra não acabar decepado. No dia a dia de uma relação precisamos de várias melancias, melões, jacas e afins, coisas que substituam nosso crânio. Nunca se sabe quando a lâmina vai descer e se, quando descer, você já vai ter conseguido se libertar. Uns perdem a cabeça e continuam vivendo, é assim. No ramo do afeto, uma cabeça não faz muita falta. E, não se preocupe, se a melancia não substituir a sua cabeça, não a perca antes da hora. O que o amor mal resolvido mutila aqui, a nossa fascinação por ele compensa ali. Amor é um cara capcioso, as vezes ele nos lasca e dois meses depois estamos fazendo discursos  ou canções positivistas sobre ele, é o clássico malandro de 1960 e pouco.

Por fim, tuas serão suas, e suas serão tuas. Você irá esmagar a gramática para eslarguecer o canal por onde os sentimentos despontam. Eles deverão amanhecer puros. Jogue no lixo os utilitarismos de Jeremy e vá ao aterro procurar o racionalismo que você se desfez achando que seria mais feliz ou, no mínimo, viveria mais em paz.

Para um epílogo convincente, depois de um tempo perceberás que foras tu quem jogaste Chet Baker pela janela de um hotel, estatelado ao chão em uma madrugada mística abraçado com um trompete de metal suavemente pilado.  Foras tu quem o enterraras no Inglewood Park Cemetery, em Los Angeles (ou em tua própria surdez programada). Foras tu quem sepultaras o jazz e todas as notas existentes, quem secaras todas as doses de uísque, foras tu quem perdoaras teu traído por traí-lo, foras tu quem dizimaras toneladas de metais cilíndricos dourados e oceanos de ondas tristes de mega-hertz. Foras tu quem catalogaras as gotas de chuva por densidades, formas e temperaturas naquelas áridas tardes de quintas-feiras. Escuras, por sinal. Foras tu quem olharas pela janela durante tantas noites para arriscar entender o mundo, e não encontraras sequer uma vã filosofia.  E tudo isso por quê?

Porque tu gostas.



  

domingo, 3 de março de 2013

Sobre aquela incomodação no peito


Bilhete de geladeira: 

Noções básicas não ortodoxas das epístolas contemporâneas pregadas em imãs de empresas representadas pelo acrônimo GLP



Há sempre dois lados de uma mesma coisa, mas nunca duas coisas em um mesmo lado. Sabe o que isso significa, cara? Significa que, nós estaremos para sempre abstraídos por um tapume cósmico acidulante, abstraídos pela concretude da nossa vontade de estarmos juntos, cara. O que eu estou dizendo é que estamos fadados a estarmos fodidos por esse espécime tabacoso chamado nós. A palavra nós soa como um fluxograma, e eu insisto nessa música aloprada chamada tu.  É porque é tarde de domingo que eu estou puto com a vida, você me conhece, tardes de domingo emputecem a vida, me emputecem, emputecem tudo. Já achei bonito eu me sentir meio você e você se sentir meio eu, já achei bacana perder a fronteira de mim e o limite teu, julgava legal sermos um. Hoje isso tudo me apavora, me descabela, me entorta. Porque essa coisa de sermos um é uma miragem de uma dentição déspota. Afirmo, chorando, encalacrado nos paradoxos, que ao teu lado gostaria de ter notícias tuas, que eu gostaria de mandar novas do meu mundo para o teu enquanto estamos cada qual de um lado da mesa. Tenho a ligeira impressão, as vezes, numa bobeira de tempo, que já não sei mais quem é você, que a cada dia que passa, quanto mais íntimos estamos, mais você me parece um estrangeiro. Quanto mais eu te conheço menos eu te sei, como explicar? Seriam as égides, as infantarias inteiras que criamos ao longo do tempo para não nos tornarmos feríveis? Pois a minha segurança está me matando, e te ver sempre seguro me brocha. É evidente e previsível que você pense o mesmo e sobre este facho de incerteza acenda sua lareira para te aquecer por mais longas noites de inquéritos mórbidos e retóricas coloridas.

Sabe, cara, a gente se tornou o nosso próprio rato de laboratório.  
Um dia você me coloca numa gaiola e eu ando, ando, corro, você analisa, entende meus temores e dana bem onde a sabre entra mais fundo. No outro dia eu te coloco na cávea, e você corre, corre, corre e teu horizonte é sempre a ponta do teu nariz, cara. E eu sou o cientista maluco tentando te despir. Mas só encontro proteções, arrimos,  e quanto mais eu te raspo, te dispo, mais você se acaçapa, mais você se esconde e eu me sinto a pessoa mais sozinha do mundo nessa cidade maldita que eu jamais conhecerei completamente.
Você e o jazz deveriam ser punidos pela vigilância sanitária, por tudo que fizeram com meu fígado.
Trompetes e romantismos prontos, rides again.

Não obstante, ainda terminarei como bandido.
#lapassionestcommeDieu.
Te amo, nos vemos no almoço.

(avec du sucre, avec affection)