quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Sobre a mesa

Enquanto se usar pires


Sobre o granito gelado um tecido sovado de guardanapo velho, mas muito branco. Muito branco. Não é porque estou só que não preparo um café da manhã como convém ser um digno desjejum. Coo o café, disponho a xícara sobre o pires, uma miúda colher posicionada sobre ele. Enquanto se usar pires, haverá esperança. Açúcar mascavo ao lado, em uma mini caçarola. Não é porque me sinto um detrito nesta manhã, que não consumirei produtos orgânicos. Um pão francês mais ou menos novo cortado ao meio, manteiga, muita manteiga. Faço questão de posicionar tudo simetricamente. Não é porque estou sozinho que abdiquei da harmonia e da estética dos objetos. Desfaço tudo depois. Você poderia pensar: porque tanto trabalho se não é para ninguém ver? E eu respondo: ora, eu estou vendo. Isso não deveria bastar?

A alvorada profetiza um dia cáustico. Muito cáustico. Cáustico acima da média. Este apartamento de 35 metros quadrados ganhou uma nova estatura, uma grandeza inédita. Parece imensamente máximo. Não, isto não se tornará uma lauda da solidão. Tento ser sincero nas minhas elucubrações, mas deixo claro, eu só estou mentindo pra você.

Vide.

El sol es la división de los edificios, con locura. Trato de estar sesgadas acerca de esto, pero tengo un cierto grado de dificultad. El sol es muy evidente en la calle, pero, lo confieso, muy simple. Tengo todas las razones del mundo para amarte para siempre, mas fico na minha. Muito minha.

(...)

Talvez meu sonho oculto tenha sido sermos como Marina Abramovic e Ulay, que viveram nos anos 70 uma história profunda de amor, durante cinco anos, em um furgão, realizando performances. Quando nada mais valia a pena para ambos, percorreram a Grande Muralha da China, cada um de um lado, e, ao se encontrarem ao meio, deram um último abraço e decidiram jamais se verem novamente. Bem, quem sabe, talvez, meu erro foi tentar fazer da nossa vida uma performance, e do que deveria ser o espetáculo, uma rotina.

Dou-me o trabalho de ligar o abajur, sim. Por que não? Gosto de elegância e abajures são elegantes para mim. A casa fica mais jeitosa. Não coloco meu disco de música clássica para não me sentir octogenário. Estou ouvindo o barulho do jato de vento do posto de gasolina da frente. Crianças e adolescentes enchendo os pneus de suas bicicletas, e sumindo por essas ruas. Que sumam!

Criei aferro hipocondríaco ao que é muito provisório.

(...)

Como tudo conseguiu ficar tão patético, meu Deus?

Ninguém pode banalizar a vida de um homem a não ser os seus próprios desígnios que ele mesmo julgara ser os mais supremos. Ele torna-se servo do seu próprio tesouro. Geralmente, ele, torna-se escravo. Geralmente, ele. Servo. Muito servo.

(...)

To doente. Doente de sopa missoshiru, de Gal, de não-gal, de objetos voadores não identificados, de sêmen aguado, de rugas que hei de ter. To doente do que não dói.
Quanto mais o tempo urdia, mais eu me hollandava, mas eu me calcanchotteava, mais eu me abria, me lascava na ribalta da minha arrebentação sonsa, da nossa doce barbaridade-vargas.
Bang bang. "me disse pra ser feliz e passar bem". Teu cú! Eu gritava, teu cú, eu amava, teu cú!
Sarfadanagem de letra! Cantarolava, poético, cult, nacionalista absorto, mpbista dos mais malandrógenos, canalháveis, androgenias textuais pra me por em pira!
Bang bang, cantarolava você, corredor adentro, eu seguindo: teu cú! teu cú! Rococó visceral do teu castelo de corpo. E eu tentando ser feliz e passar bem. E eu não sendo feliz e passando mal. Chicobuarqueando tuas migalhas necessárias e venéreas, como sempre, fazendo parágrafos onde só caberiam estrofes. Era pra ser poético, não bíblico, eu pensava. Bang bang!

(...)

Perceba como eu uso reticências entre parênteses, é para mascarar a minha ausência de continuidade.

(...)

O problema, o justo problema é que, mesmo fragmentado, ainda me sinto alegre, e ainda cascateiam-se seixos brutos da saudade tua na minha esperança empedrada.

Não é porque está morto na minha realidade concreta, que pus flores e acendi velas na minha perspectiva inábil.

Um fiapo de sol nas alamedas do breu.

E tudo o mais é apartamento e montanhas alucinadas de pires sujos.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Sobre o ritual


Renuncio a igreja do meu sagrado

Henri Cartier Bresson

    Joseph Alois Ratzinger. Nome forte, meio ácido, adstringente, soa como um agravo irredimível: ratzinger! Ratzinger! Excesso de consoantes em relação ao déficit de vogais, estas, as letras que apregoam sentimentos... aaaa... (de alívio) uiiiii (de dor ou de prazer) eeee (de descontentamento ou contentamento) ooooo (de repressão ou espanto) iiiiii (de fracasso ou premonição maligna). Ratzinger, uma cacofonia no Decano do Colégio Cardinalício.
       
        O meu catolicismo nunca fora congênito, confesso, porque nunca reconheci santidade em papa ou em igreja (por afunilamento, os padres). Porque não consigo dissociar a figura do padre da igreja, a fim de só estar lá pelas minhas crenças e ignorar as devassidões sacerdotais. Não, eu não Habemus Papam. Fé, é uma coisa que não sei viver sem, a igreja, sim.

       Mas, sem holística, não consigo.

      Tentei demais adorar a igreja e dizer o santo papa tal. Mas papa pra mim não é santo e a igreja só me é pulcra como templo arquitetonicamente bonito, mas sem ministros, sem padres, sem coroinhas, sem leitores, tudo isso só me arreda. Quando eu ia à igreja, os momentos mais santos e de maior meditação aconteciam antes da missa começar. Ao início, tudo me soava tão maçante, que pensar no almoço do dia seguinte me parecia mais soberanamente perfeito do que aquelas alocuções enfadonhas e indigestas que além de nunca me dizerem nada, eram tediosas. Se apenas 10% dos padres são interessantes, desculpe-me igreja, suportar os outros noventa em detrimento de eventuais insights apostólicos não me parece bom negócio.


       Prefiro ainda ir à igreja apenas quando está vazia. Ou em santuários antigos, com freiras idosas e rígidas, por ora mal humoradas, ou em capelas mais ou menos abandonadas. Rezar o meu terço do jeito errado, do avesso, não crer em coisas santas que não sinto ser santas. É mais bonito admirar pessoas de muita fé, do que pseudo-santos gesticulando em altares e redimindo rebanhos. Durante muitos anos eu cri no que nunca acreditei. A partir de agora, quero só a profundeza, o imo. Nada de metodologias e protocolos que só servem para disfarçar o quão remotos estamos de Deus, ou o quão morais somos perante o resto da sociedade! O quão herético isso pareça, significa que realmente herético eu deva ser.  A fé é um exercício, mas os exercícios não vigoram apenas dentro das academias. Os padres querem ser como personal trainers da nossa alma, mas sempre a ajustando ao senso estético mais badalado.

        Santidade não se impõe: se elege, se deixa devastar. Uma das coisas mais feias a ser projetadas na persona de um homem é que ele creia ser santo alguém ou algo que seu coração diga o oposto, mas que ele prossiga confiando por causa das leis de algum Deus muito mal interpretado. Estou enfadado de reverenciar mercenários e sistemas mercenários, de ver política raiando onde nem as palavras deveriam conspurcar, das institucionalizações do sagrado que transformam Deus ou em um negócio ou em uma espécie de Freud translúcido e abstrato, em um psicanalista a tapar os demônios de cada um. Tenho visto pessoas fazendo de Deus um amante e da igreja um refúgio do mundo real, transformando o templo em uma cápsula protetora das iniquidades do mundo, da miséria, da extrema dor. Estou cansado de me refugiar, quero ver a bagaceira de perto e tentar fazer algo, ao invés de assistir um estabelecimento cada vez mais rico em um mundo cada vez mais despojado, do que se agarra e do que se escapa.

       Ah... a igreja... quando todos saem, eu entro. Talvez por um egoísmo de querer Deus só pra mim. Talvez pelo simples fato de acreditar mais em seu silêncio, do que na algazarra dos que te seguem...

       A regra agora é: se não sentir, não seguir. 






segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Sobre os fanatismos delicados


Carta ao fiel (demasiado fiel)

Robert and Shana Parkeharrison

Aquele homem cruel, vil, impiedoso, fora da lei, estúpido, nocivo, não sai com tuas orações, tuas preces anatômicas, teus delírios sagrados. Porque só bom, não dá pra ser. Você tem perdido tempo rezando tanto, não percebeu? Sim, você quando reza fecha os olhos para não ver, simplesmente, o caos ao redor. Tuas pálpebras não escondem teus olhos apenas para auxiliar tua transcendência, tua transcendência tem existido não porque você quer ser um ser melhor, mas porque você não tem vontade de ajudar o mundo a não ficar tão pior. E então você reza, reza, porque é muito mais fácil esperar o paraíso do que tentar transformar este inferno. E então, como se não bastasse, você também prega. Você vira um pastor e você fala muito. Você fala muito da transformação dos homens e de como esses homens, amparados pelo divino, podem mudar o mundo. Suas palavras são claras e serenas, absolutamente esclarecidas, mas diante da necessidade de tanta ação, parecem debochadas. Porque você vive sacralizando sua incapacidade de agir para não se sentir inútil. O mundo não aguenta mais fiéis deste molde. O mundo está farto deles, está farto de tais orações, de igrejas, de palavras que buscam a transvaloração da miséria para que ela não seja tão agressiva e inconveniente aos nossos olhos, ah, esses expectadores olhos que preferem almejar a vinda de algum salvador do que salvar.
Sim, tem também aquela história chata de que há um pouco de maldade na bondade, de feminino no masculino, aquela yanguização entrópica que já ficou patética. Patética, mas ninguém entendeu ainda. O desejo de querer ser uma coisa só é a melhor maneira de não ser nada. Eu preciso ser apenas isso para me distinguir em nível de evolução espiritual. Eu preciso investir no meu lado santo pra deslembrar que tenho desejos não ortodoxos, não ecumênicos. Entretanto, esqueço de que não há santidade que não parta do que há de mais puro no que há de mais humano, e que o lado de mais puro do humano não suporta deleções e desvios de sua natureza (sagrada) em nome de dogmas (políticas e partidarismos da alma). Não, pare de ser santo em nome de Deus. E seja humano em nome da humanidade.
Na dúvida, Ele tá vendo.