terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Sobre eras pré-colombianas


     
Café, s'il vous plaît


Henri Cartier Bresson
    - Não, não, não. Você não entendeu. Os meus sonhos continuam intactos. Sim, é como se eu nunca tivesse tirado eles do pacote, sabe? Isso não quer dizer também que nada se realizou. Ando preferindo realizar coisas que não necessariamente sejam sonhos, sabe? Tem tanta coisa, né?!

Eu ouvia. Tanta coisa. Né? Ele estava mais bonito. Digo, sem mim. Depois daquele tempo todo. A pele, estava melhor e eu pensava: Deus, eu fui um câncer na vida desse homem e ainda quero adoecê-lo com toda  essa coisa maligna que chamo genericamente de meu amor. Ele continuava a falar dos seus sonhos naquele Café, dos pacotes, dos seus novos amores. Amigos assim. Era eloquente e argucioso pra falar da realidade, como se agora ele houvesse a encontrado definitivamente e dissecado a tal fulana em incontáveis necropsias. Ando preferindo realizar coisas que não necessariamente sejam sonhos, sabe? Ele insiste. Ouço. Tem pouca gente no Café. Tenho saudade de tudo, penso. Solto um sorriso amarelo como quem está muito interessado no script apresentado. 

- Hum, nossa, sério? Digo, bacana... disfarço.

Queria mesmo era encadear-me nele e não deixar que fosse nunca embora. 

- Não brinca? Demais!

Meu café está acabando, quando ele acabar eu parecerei imensamente ridículo, sem ter o que fazer com as mãos. Estapafúrdio, deveria ser meu nome do meio. Súbito solto: 

- Meu café! (quase grito) está acabando!

Ele assusta um pouco. 

- Moço! Outro café, por favor.

- Cappuccino!

Peço: vem mais. 

- Ando tendo sonhos esquisitos, encalços, esquartejamentos, coisas do gênero.

Não deveria ter tomado tal nota, agora parecerei um psicótico, um depressivo descafeinado. 

- Puxa...

É só o que ele diz. Típico, simbólico. Louvado seja eu não ter de aguentar mais isso. É... puxa. Completo,pontuo, acentuo, enfeito com quadriláteros de neon, serpentinas de quimiluminescências e paetês de fenobarbital. Enxerga-me! Não. 

- E você, o que anda fazendo?

A pergunta que eu jamais gostaria de ouvir, tampouco responder. Sorria um pouco ordinário, finja que está organizando na sua cabeça em ordem alfabética o tanto de coisas que você tem feito, para que pareça mais conciso e ocupado.

- Ah, ando trabalhando, sabe?

- Que ótimo!

Sim, é ótimo, ter um salário ridículo todo dia 5 e gastá-lo com minha auto-degradação ecológica. 

- Poderíamos sair um dia pra beber, e rir.

Que ótima ideia. 

- Não, eu não bebo mais.

Mentira, ando enchendo a cara as vezes às seis da manhã antes de vestir meu uniforme e pegar o ônibus. Um colombiano de Bogotá. Qual a diferença? 

- Nossa, quem diria?

Ele fala isso como se eu fosse um alcoólatra. Não, eu não era um alcoólatra. Agora sou um alcoólatra. Mas a culpa é dele. A merda do meu cappuccino já acabou. Ele olha pra minha xícara vazia, olha nos meus olhos e pede a conta. Digo que vou ficar mais, um amigo meu iria me encontrar ali para irmos ao teatro. OK, um beijo no rosto. Michas de uma vida inteira não calhada condensadas em uma cortesia protocolar. Detesto café e tenho saudade de tudo. Tenho saudade de tudo. Quero gritar isso antes dele passar pela porta. Mas... Peço um bauru pra viagem.