quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Sobre avellana y granada

Avellana y granada
Foto: autor desconhecido

Dois dedos abaixo do peito, cinco pedrinhas de gelo, quatro amores, uma doença. E eu poderia dizer que a história está contada.  Simplesmente porque não há mais nada que dizer, pois qualquer acréscimo me poria em risco uma ambiguidade polissêmica. A história está contada. Todos os personagens padecem da falta iracunda da beleza, do conteúdo, do humor. Enquanto humano aflito eu poderia inventar dramaturgias, ardis, reduzir o átomo da verdade crua ao lixo da literatura. Aplicar o léxico mais sádico e verter meu verbo infame na construção de coisa alguma, e fazer desse nada uma manifestação artística. Não, eu me recuso a deixar que a língua portuguesa chupe, lamba e babe sobre esta coisa imóvel e amarga intitulada texto. Meu mistério é rasteiro, minha fantasia se apoia nas grades do ralo, meu sonho não tem vez. Quero só esta paisagem, cujas informações foram carpidas. Sentir o chão não dar pé na superfície, fazer do raso a causa do nosso afogamento.
Eu já morri nos escombros das palavras que designei, a poesia desmoronara e deixara-me preso entre seus entulhos verbais. Cheirei o pó que levantara de sua bancarrota, alimentei-me de suas ruínas, amei seus destroços todos em nome de uma arte inválida que jamais me dera nada em troca senão a necessidade de correções ortográficas.
Fiquei com nada, apenas a palavra sem carne, desmusculada, ossuda. O código sem a possibilidade do desdobramento. O fluxograma hermético. Uma cidade de andaimes.
Isso tudo porque hoje descobri que quanto mais eu tentei revelar meus personagens e, portanto, a mim mesmo, mais eu me tornei incompreendido e, porquanto, por nós todos. A palavra saíra pela culatra. Acertou-me dois dedos abaixo do peito. Sigo vivo, dilato o crivo.
É fato que a língua portuguesa é uma canalha. Ofende quando escorre de nossas mãos no momento de impor-lhe sentido. Ofende quando deixa-nos na interrupção da acepção, quando não traduz, quando muda e emudece.
Penso em todas as horas que perdi debruçado sobre uma cadeia de vocábulos, tentando articulá-los de forma a atingir a estética imaginária, caçando sinônimos como porcos a farejar trufas, na tentativa de que tudo se harmonizasse para garantir a emoção. Mas para que? Se nem a certeza do sentimento me foi dada? Quanto mais se escreve, mais se perde. Seja por dentro do peito, seja no cerne das algibeiras pálidas.
Escrever é um exercício cujas implicações nunca chegam. É exatamente como querer passar por baixo de um arco-íris.
No entanto, sem nunca ter existido nada do que foi inventado, quedam-se as sequelas irreais, e todo eu latejo. Livro-me dos escombros sobre meu corpo, levanto-me, tiro a poeira e vou assolar novas construções.


quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Sobre nós que já nos danamos

merveilleux!

Henri Cartier Bresson


Uma vez um amigo me disse que encontrar um amor profundo é raro. Que amar alguém e sentir esse amor voltar na mesma proporção, não é fácil. Aliás, é simplesmente raro. Olhando para trás e vendo que em todas as vezes eu me dei mal, é fácil pressentir, a qualquer deslize do outro, que estou caindo no mesmo buraco outra vez. Quem muito apanhou em relacionamentos sabe do que eu estou falando. Você cria anticorpos que te avisam que você está perto de um penhasco, comumente algumas vezes por dia, inclusive.

Do genocídio dos amores mal sucedidos surgem três linhagens, ou ramificações. A primeira é o sujeito que ainda acredita no amor, mantém uma relação relativamente constante com alguém, mas não vê no sexo uma deslealdade, apenas uma necessidade fisiológica e, por isso, transa com outras pessoas, embora ainda defendendo de forma não-afetada o amor e a não-pecaminosidade das suas transgressões. A segunda linhagem é daqueles que simplesmente rompem com os vínculos afetivos, defendem a sacralidade do sexo e vivem como selvagens intelectuais: são frios, mas são também pulsantes e extremosos, sabem que estão numa selva, se comportam como bichos, entretanto também sabem que são superiormente conscientes de suas animalidades, e por isso se sentem protegidos. Por fim, a terceira linhagem – na qual eu me encaixo – são daqueles que optam por se lascar a vida toda. Falo isso não porque amar é ruim ou triste, mas porque amar é difícil. A bem da verdade, os descendentes das três linhagens amam. A diferença é que um se ama demais, outro ama demais o outro, e o último ama demais o amor. Este, poderia se encaixar na retórica ou na metalinguagem, mas não passa de um sujeito que sem inspiração, não sabe viver.

O que há em comum nas três ramificações é que todos amam demais. E só catalogo esta tríade porque os que não amam demais, para mim simplesmente não amam, e simplesmente não detém o mérito desta observação (não que ela seja assim tão honorífica).

Não há amor que não seja amor demais, descomedido, fora do padrão, irregular, inconveniente. Não há amor calculado na medida certa, assim como quem está verdadeiramente triste, não fica expondo seu corte na internet como se fosse bonito ser triste, como se fosse cult ser depressivo ou corroborasse com seu amadurecimento virtual. Nem sempre.  As vezes você é apenas mais um idiota se lamentando em público, e ninguém irá te ouvir. Não há amor geração-saúde. O amor é punk e sedentário. E olha que ainda assim é prescrito.

A única conclusão que temos é a de saber que não sabemos por que começamos. Cacofônico, não? Pois é, o amor nunca foi muito musical, apesar da maioria das músicas falarem sobre ele. Quem entende que amor é silêncio, sabe que não é possível escutá-lo, senão contraí-lo.

É certo que alguns vão passar décadas e não encontrarão seu amor profundo. Outros encontrarão cedo demais, e perderão também precocemente. Infelizmente, o amor as vezes tem data de validade. É efeito barocórico: como a fruta pinçada na copa de uma árvore, cai em função de seu próprio peso. Ou, quem sabe, armazenamos mal...

Alguns preferem consumi-lo mesmo depois de estragado, e ainda há aqueles que consomem antes dele ser gerado. Faz parte. Desiludidos, iludidos ainda, ou simplesmente vazios, não estamos fazendo outra coisa senão esperando a porta bater.

E que seja ele.






quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Sobre vampiros, bruxas e pigmeus

Vômito
Robert Mapplethorpe

Um corte a mais, um corte a menos, tanto faz. Deixei a faca no mesmo lugar, não tiro, me adapto, me adequo. De vez em quando ele vem, sorrateiro, humano, dá uma giradinha e vai dormir. Sangra um bocado durante a madrugada, mas penso, rezo, é prece: sangue não me falta, sangue não me falta, sangue não me falta. Cerca de cinco litros. Eu pesquisei. Sou vilão. Aceito, readapto o aço ao meu organismo, faço ele virar parte de mim, orgânico, é meu, sou eu e não dói. Repito, não dói. Só para não esquecer. O inox já pulsa, a ponta ofega, o gume delira. Conto uma piada, corro, a exaustão é o caminho, o esgotamento real. Zerar o múltiplo, reconsiderar os disparates, atenuar a queda. Dica de mãe: já que vai cair, use os pulsos para não perder os dentes. Cinco litros, relaxo, não me vertera nem o terceiro.

Viro fantasma de novo. Assombro a casa, cômodos de fora, cômodos de dentro, todos assombro. Habito a minha solidão, conforto a faca, reino no país imaginário que criara e jamais fora habitado senão pelas minhas próprias ânsias. Derramo o avesso, sujo tudo. Pela manhã limpo. Sem vestígios, acordo cicatrizado, parecerá ter sido só mais uma noite indômita, not poltergeist, sem giradinhas, sem luar lúbrico, sem fatal, sem monstros, sem aço, sem misérias, esperanças oblíquas, câimbras inexistentes, pães duros, leite ruim e tristeza advertida.

E é só porque a manhã está linda, que torno a repetir, de fé alçada e coração revolvido: não me faltará sangue. Sangue, não nos faltará.
Sejamos, portanto, sorridentes.
Mais uma vez. 



segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Sobre o gosto das memórias

O que Stanislavski me ensinou sobre cozinhar

A comida começa com a nossa capacidade de nos emocionarmos com ela. O feijão que só era gostoso demais porque, na noite anterior – enquanto o moleque se acamava, pois que o ginásio era miseravelmente cedo – ouvia-se do quarto o tilintar dos grãos sendo vertidos dentro do vasilhame para atravessarem a madrugada no solitário molho, como uma breve chuva de cascalhos. Era motivo suficiente para uma sutil sensação de alegria e contentamento porque, na próxima manhã tudo poderia dar errado, mas ao meio dia um aprazível feijão fresco com bacon e folhas de louro estaria no centro da mesa exalando uma aromática e estimulante fumacinha branca. Naquela época as folhas de louro pareciam tão escusáveis, hoje são essenciais como a vírgula numa equação algébrica, sem a qual não haveria resultado correto.

É a massa do pão caseiro frita, sempre orgástica em tardes de domingo, cujas formas se assemelhavam a pequenos travesseiros; a posta de carne matematicamente perfurada em um específico local e levada à churrasqueira, a delicadeza com que os cristais de sal banhavam a peça quase escarlate; as camadas da lasanha que eram construídas com a argúcia de um arquiteto a levantar um edifício; as mandiocas suculentas e encharcadas de molho de carne sendo anunciadas pelo vapor da panela de pressão, como se fosse um goulash improvisado e fôssemos vaqueiros húngaros de meia tigela. A desarmonia da vida real quase nunca conseguiu invadir uma cozinha feita com primor. Tudo poderia estar desabando, mas um prazer jamais seria negado ao redor da mesa, que por ora tornava-se um pedaço de terra cercado por água de todos os lados. A cozinha bem-amada era onde os instrumentos não desafinavam, por mais que lá fora houvesse balbúrdia e tormenta, impossível que no prato não houvesse música: era onde os membros da família, como náufragos em mar aberto, almejavam chegar ao meio e ao fim do dia, exaustos de serem tão humanos. A mesa sempre fora a terra firme das relações, onde a individualidade escapava e a impessoalidade bradava, onde os abstracionismos sociais e a algidez do cotidiano não pisavam.

Não é a toa que reproduzir um prato de alguém que se ama é como olhar um retrato e lembrar-se do que foi vivido, ou sentir numa roupa velha o cheio de alguém que não esteja mais aqui. É uma forma de fazer com que aquilo ou aquele que se foi ainda exista. Talvez, seja aí que a gastronomia e a arte se encontrem para além dos ultra-culturalismos estéticos: ambas nos levam através de algo material e efêmero, para um centro de significação transcendente que culmina no prazer não exclusivamente fisiológico. Algo que nos diga: somos mais que necessidade. Somos também desejo e necessitamos de beleza. 


Mas acolá do advento insano das teorias e das volições profissionais, o principal elogio ao cozinheiro não é o equilíbrio dos seus condimentos, a alternância das texturas, a exterioridade do seu preparo, o conceito cultural das suas escolhas. Se algum dia ele puder fazer alguém voltar ao que lhe é de mais precioso na sua história através de uma simples comida, terá valido a pena ser cozinheiro. Fará o que profundamente se entende por sentido: quando a sensibilidade suplanta a coincidência. 


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Sobre o amor inválido

CHEGOU DOER
Caiofernandeando agostos

Robert and Shana Parkeharrison


Ele sabia que estava se envolvendo com alguém mais impalatável que o Bóson de Higgs. Mas não deixou-se quebrantar. Entregou-se de corpo e alma na genialidade daquela insignificância. A anatomia gourmet, as palavras nucleares, a veemência orgânica, o sexo terroir de benção. Era tudo prato cheio da mais alta gastronomia e insana sustentabilidade. Comê-lo era como saborear vôngoles numa caldeirada de algarvia. Era nobre e agreste. Língua lusa lambendo mandioca. Colonização de corpos augustos. E tudo.

Pura ostentação perdoada por Deus. E aquela fragmentação trabalhosa, teimosa, quase totalmente inevitável.

Mas com o tempo o beijo tinha mais gosto de flúor do que gosto de boca. Uma valsa medonha, um réquiem polonês, uma sinfonia tétrica. Era como transar com um coro de Krzysztof Penderecki. Estava habituado à melancolia contida nos movimentos musculares, à intolerância crisólita, à malícia requentada, à lambança vigorosa, ao códex de suas verborragias, às guampas embutidas, ao orvalho reticulado nas pétalas de sua desilusão consentida, à porra envelhecendo presa nas paredes do esôfago, à capadócia perpétua abrigada em sua alma. Até tudo isso tinha sentido. Como os comércios, ele criava dificuldades para vender facilidades. E até isso se tornara aceitável nas superfícies de suas máscaras, e tinha sentido. Era simplesmente louvável tê-lo tão próximo. Era horrível. Era louvável.

Mas também era agosto. E isso não mudaria. Havia sangue esparramado pelas ruelas do mês. Resquícios do ano anterior. Promessas de mais sangue para o seguinte. Um ciclo que se cumpria dignamente. Respeitar os ciclos, reciclar os vícios.

Caiavam-se a duros breus gélidos brios.

Era meta. Caiofernandear é verbo parido de agostos mal vividos, repletos de abandonos, desamores, lembranças acerbas, pastores inválidos, dor, asas encharcadas, metais estrídulos, orgias burlescas, carcarás, lepra, vegetarianismo, ócio, Calabar, Babel e medo. Era agosto. O que fazer a não ser engoli-lo e agradecer a patuscada? Ser no mínimo educado, sempre. Ainda que lhe arranquem a glória, lhe enfiem a faca e ainda lhe peçam café a girar o duplo gume nas vísceras. Ser grato, ainda que almoçando ranço e jantando saudade.  Mamãe ensinou assim, sorrir pelo sustento e não insistir pelo doce. Levara isso a sério demais. Porque o que precisava era justamente do doce, do supérfluo, do dispensável, do agrado, do gratuito, do inútil, do desnecessário, do excesso! Fazer birra, pirraça, rabugice, ser grosseiro, até abrutalhado, exigir o doce que lhe era de direito, ser mais que sobrevivente. Penetrar irrigado de leveza nas imprudências brancas de setembro. Sair correndo dos cárceres de agosto sem olhar para trás e ser eterno foragido de suas dolorosas loucuras.  Mirar o rumo, podar as plumas e tomar o prumo.

Mamãe ensinou assim. Não, obrigado.
E, famintos, continuaremos eternamente gratos.








sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sobre não estar só

T A L H A R I M


Éramos cinco naquela cozinha relativamente apertada.

Ao menos naquele dia, graças a Deus, estava abrochada feito botão sem viço. Fechado ele queria ficar, protegendo-se de si mesmo como se o interstício de suas pétalas fosse o começo de uma vagarosa e cintilada morte. E era. Por sorte, o domingo estava chuvoso, o clima era frio, porém ainda assim tomávamos uma gelada e amarga cerveja. Era bom que estivesse frio, porque era igualmente bom estar protegido dele. Algo mais complexo do que a ortografia ou todos os seus axiomas linguísticos permitir-me-iam proferir. Eles estavam ali, unidos daquela forma pela segunda vez, depois de uma década, quem sabe... Muito tempo passou em que apenas distinguiam-se pela genética, uma mesma central de explosões cromossômicas, se é que assim posso dizer.

Tinham esquecido que eram amigos, porém, mais que cordiais, eram confidentes um do outro. Ali sabiam coisas que jamais nenhum amante, entidade ecumênica ou demônio poderiam ajuizar. Era simplesmente bom estar protegido do frio lá fora, levemente etílicos, levemente líricos.

Faziam um talharim improvisado no cilindro novo. Os dois irmãos que se ajudavam no manuseio da máquina em silêncio, apenas manipulando uma massa trivial, sentiam que conversavam profundamente pela primeira vez, ainda que para esse diálogo não estivessem usufruindo da abastança das letras e suas pronúncias, léxicos, etc. Conseguiram formar a mais bela conversa em um lacônico hiato. Construíram uma ponte dentro de uma pausa. Um colóquio afogado na suspensão.
Éramos irmão, e irmão. Pela primeira vez, depois de décadas. Levemente etílicos. A cerveja amarga, a chuva densa de frio e leve de sentido. O céu cinzento que nunca fora tão colorido.

Mas, o pior de tudo, provavelmente: aquilo só duraria o tempo de um efêmero almoço dominical. Depois, todos regressariam para os seus quartos, se chafurdariam na areia movediça de suas vidas particulares. Eu tentava lembrar qual fora o momento em que a droga da particularidade da vida roubara a cena, apagara a ribalta e exonerara os atores. Havíamos aberto a mão de tanta coisa por tão pouco, coisas que estavam apertadas no núcleo de nossas palmas como tesouros. Ah, por tão pouco... E pela primeira vez viram que o pouco era o sonho. Que o sonho sempre levara as pessoas de algo grande, para algo menor, de modo que só assim almejassem alcançar algo de nobre. É preciso descer um degrau para sonhar com coerência?

Era muito importante que chovesse. Torno a repetir. Porque o invólucro daquele cotidiano efêmero e rispidamente barato era quente, e era dessa quentura que estavam carentes. Há décadas, talvez.

As vezes, no oco hermético de suas cabeças comovidas, pensavam entre um gole na cevada e um giro na manivela do cilindro: “não acabe, não acabe, por favor não acabe.” Temiam, ligeiramente, que a pureza substanciosa daquela realidade fosse invadida pela pureza substanciosa do tempo.  A velocidade do amor é oposta a velocidade de nossa necessidade de amar em plenitude. E isso tinha um toque bárbaro, como a miligrama de olor fétido necessária para produzir belos bálsamos vitrificados. Afinal, não há paisagem verdadeira que se abrolhe apenas com perfeição: há de haver um covil, um pântano, um abutre, para que a água do mar seja tão azul e límpida, a areia tão cálida e macia, e os pássaros tenham tão soberbo canto.

Necessitavam daquilo, há décadas, possivelmente. Daquela chuva fria, daquele calor transitório. Trabalhavam o amor como as mãos a elaborarem o glúten do rígido trigo. Pão e sede. Sem nenhuma diligência. E também sem nenhuma desconfiança... Respiravam sem a pretensão de viver.  
Um salto sem volta no abismo das graças. 




segunda-feira, 15 de julho de 2013

Sobre uma poesia na horizontal

Oro,orare
Ruven Afanador
Que eu lhe permito alma plácida que caíra no meu vasto nada retumbante, vaguear-me pelas veias e tornar-te essencial para mim. Que eu lhe permito ser mais profunda e fúlgida quando do lado de cá de meu corpo tomar um copo de escuridão e duas doses de raio vívido. Que eu lhe aguardo porque quero e preciso desenhar infindáveis mapas astrológicos com o cruzeiro de tuas pintas impávidas, porque quero prazer colosso e ele só extraio de tuas terras adoradas. Aceito as tuas inconclusões, concluindo-as com as minhas suspeitas, teremos assim fulguração de novo mundo em nossa doméstica micro-pátria. Ó, meu ócio, minha demência transcontinental, meu florão de mais baixa botânica no mais elevado frontispício de meu orgulho, meu lábaro suburbano, flâmula cadente cativa em minha garganta, clava doce arraigada no centro de minha aldeia, inchaço das minhas solidões, gêiser pulsante ao centro dos meus comodismos, infestação de noctiluca scintillans nas minhas lamentações de crocodilo. Cálcio meu. Cálice meu. Cale-se meu. Cárcere nosso.
Que eu lhe permito atingir-me ao meio, e espatifar-me. Que eu lhe permito cuidar do que és teu, porque ele precisa. Permito que saias, e não voltes. Mas não permito que voltes, e depois saias. Minha nação garrida, minha fratura exibida, meu zinco e meu leite, parélio de meu passado. Meu amazonas túrgido, meu pavor antirrevolucionário. Mel inculto, brado enguiço,  orgasmo russo, folk libido.
Só porque te quero pleno, dou-te até mesmo o que fui, e o que hei de ser. Só porque te quero aqui, dou-te todos os meus caminhos e atalhos. Só porque te quero pra sempre, dou-te o que talvez nunca eu seja. Só porque te quero dentro, entrego-te meu avesso.
Que tu me compões mais lisérgico que uma ilha Maldiva. Sutra, trovão e catapulta. Tuas ingênuas rosas fanas, aqueles desatinos sem maldades, aquelas saudades sem desvarios, aqueles naufrágios sem âncoras, navios desamarinhados de ti, buchanan’s whisky, aquele ardor sem brio. Tudo porque é lógico, é óbvio, acredite. É carente e é maldito. É evidente. Mas é claro, nunca tive.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Sobre o silêncio daquela noite (II)

Ruven Afanador
Mesa pra um
(Seconda versione: quella lato) 


- “Eu imaginava que esta cerveja estaria assim, acerba, antirrotunda, rota, imunda. Eu digo isso porque ela está a me descer pela goela como uma pedra-pomes. Eu imaginava que fosse assim, ele olhando mil vezes pro celular como se almejasse penetrar nos pixels da tela e sumir para um poleiro imaginário, algo menos terreno, mais sky with diamonds, e eu apreciando a plaquinha tosca de neon como se fosse um quadro do Salvador Dali, tudo consideravelmente desconcertante.

- “Aquele senhor que chegou com aquele menino. Porque é de fato um menino, deve ser maior de idade, mas para o porte daquela bicha velha é um menino. Trouxe o guri pro restaurante italiano, vai enfiar capeletti e fettuccine com guaraná por todos os buracos dele para depois comê-lo. Guaraná porque a novilha de veadinho ainda não bebe álcool, é baby beef. Certeiro: veados quando colocam blusa de lã por cima dos ombros são quase vitelos, ótimos para um blanquette de veau, ou são quase pedófilos. É como a engorda dos Três Porquinhos. Mas a bicha velha deve ser passiva, vai chupar o pauzinho do garoto até ele ficar bem durinho e depois pedir para ser ingerido. O baby beef, que tem cara de depressivo em ascensão entremeio uma capoeira de acnes, vai sair chorando e pedir pra ser levado pra casa. Chegando lá, a mamãe irá lhe perguntar o que aconteceu e tudo o que ele conseguirá é arrotar por três dias aquele capeletti alarmante que comera entre crises bucólicas de identidade com muito, muito guaraná”.

- “De novo eu poderia tentar lhe dizer palavras gentis e elogiosas, mas tenho a impressão que soaria mais pérfido do que uma cópula de pornochanchada. Eu me lembro com precisão dos galanteios pulcros, das promessas por ora idiotas, por ora sagradas, da nossa infantilidade para com o amor. Tínhamos o brilhantismo da imbecilidade dos sonhos, nos sentíamos blindados por isso, como se a hemorragia dos cotidianos jamais pudesse estancar a fluidez dos nossos atrapalhados planos. Éramos vilmente puros”.

- “Ele continua a tirar palito por palito daquele potinho e a quebrá-los em mil partes. O meu psicologismo de boteco me permite interpretar mil coisas com isso. As vezes sinto que aqueles palitinhos sou eu. As vezes, são ele. Noutras ocasiões eles se tornam os outros, ou até o que nunca conseguimos ser. Ao final da noite a mesa estará uma pocilga de tantos palitinhos quebrados, um cemitério de Ginas, e nós dois ainda aqui, inteiros. Infelizmente?”.

- “Parece que estou ouvindo Billie Holiday sussurrando no meu ouvido que “as árvores do sul produzem frutos estranhos...”, com aquele bafo de uísque, aquele ranço na boca como se tivesse mastigado folhas de magnólia sujas de sangue. Por que cargas d’água este bar burguês está tocando isso? Cadê os pagodes universiotários, os funks cariocas, o pop norte-americano comercial? Quando mais preciso dessas paspalhices me vem querer ser cult? A cultura é triste, ninguém nunca percebeu que não existe cultura que não seja intrinsecamente nascida da tragédia? Alguém avise o idiota dono desse lugar que a cultura é uma puta de uma nefasta?”.

- “Ele pediu outra cachaça. Evidentemente está enchendo a cara para neutralizar esta circunstância. Cada um tem seu artifício, talvez eu faça igual. Veja aquela senhora ali, tantos penduricalhos para compensar o quanto está imóvel por dentro, olhando para o marido eu vejo, desventurada, tornou-se um sexagenário paiol de porra, enquanto o marido, obviamente, a digere na mais baixa gastronomia como se o corpo dela se assemelhasse a de uma porca na menostasia. Aqui eles fingem romantismo, cobrem tudo com romantismo fictício igual aos confeiteiros que escondem a torta avacalhada embaixo de muito glacê”.

- “Todos nós garantimos rugas posteriores com esses pequenos prélios. Veja ele, já tem cabelos brancos. Eu aqui sinto as marcas de expressão que me ficarão gravuradas na face. Unimos nossas rugas póstumas em uma só solidão a dois, de cara lisa e peito extravasado. Como aquele poema, não me lembro qual, nem de quem, mas havia um peito extravasado e um mel correndo...”

Di volto tranquilo e petto all'extravasazione, gli due pagare acconto di mano uniti e scomparire. 



terça-feira, 9 de julho de 2013

Sobre o silêncio daquela noite

Ruven Afanador
Mesa pra um
(prima versione: questo lato)

Engraçado como todas as mesas do bar parecem mais interessantes que a mesa deles. Na verdade, os dois estão escutando os diálogos intermináveis, copiosos, peremptórios ou efêmeros de todos. O lugar onde estão é gélido e a superfície nem sequer é de mármore. Mas, embora mais atrativas, as gesticulações alheias são percebidas com desinteresse e nevralgia. Eles pensam que os assuntos estão ótimos. Parecem ótimos... Sim?

Há um tempo eram eles quem estavam nas mesas alheias, olhando para um determinado casal que parecia muito especificamente infeliz e pensando: que pena deles, que deplorável chegar a este nível. Não há conversa o suficiente que tampe a boca do vazio. As garrafas de cerveja parecem eternas e o líquido lhes desce pela garganta como ácido, como mijo. As pessoas riem, choram, contam anedotas, discutem política, o preço da gasolina, o clima, o reajuste do pão, o uso do glutamato monossódico no lugar do iodado comum, as características lúcidas da macroeconomia, e os dois continuam assim: em silêncio tão absoluto quanto a vontade que têm de serem mais interessantes um para o outro.

Houve dias em que as mesas ao redor poderiam arrebentar que ambos não intuiriam, estavam tão focados um no outro, em redescobrir as belezas, enrustir as tristezas, sacudir a felicidade do parceiro, que nada poderia ser mais respeitável do que aquele retângulo de madeira e o riacho de sensações boas que escorria de seus cotovelos apoiados.

Naquele dia não, tudo e todos eram indispensáveis porque sem eles sentir-se-iam sozinhos no mundo. Aquela frase antiga de que “ao fim é cada um por si”, nunca pareceu tão pertinente e nunca soou tão clara, tão eficaz. Se pudessem descochar por um minuto a dicroica sobre suas cabeças e permanecerem como estavam de fato em matéria ou em não-matéria: vultos, silhuetas não preenchidas, mistérios sem segredo. No escuro. Computavam o tempo para que os olhares insípidos não se cruzassem sobre a mesa, constrangedores. Queriam fugir. Não juntos como antes, mas fugir um do outro, ou, quem sabe, de si mesmos?

Sentiam como se tivessem perdido algo muito importante e não conseguissem mais achar. Era como sair de casa sem um dos sapatos, sem a carteira ou sem o celular e pensavam que, talvez, voltando, poderiam procurar mais uma vez... Procurar melhor... Quem sabe aquela coisa perdida estivesse escondida dentro de um armário, entre papeladas de contas, discos, epístolas remotas, notas fiscais, cartelas de valeriana, roupas velhas? Em algum lugar deveria estar.  Deve estar...

Há de estar.


sábado, 6 de julho de 2013

Sobre uma odisseia na insignificância

Prazeres.


Robert Mapplethorpe
     A cara dele ensoberbecida às seis e meia da manhã, os olhos quase abrindo tentando detectar o mundo, grunhidos opacos, sorrisos parcos, a pele estreita, o marrom rútilo. Minha mãe me chamando de praga e me pedindo para por os chinelos. A palavra ladrilho. Descascar batatas para ela, cozinhá-las, cozê-las, depois comprimir o legume bem forte com o garfo, fazendo a batata e o arroz se tornarem um só em alquimia fabricada. Abrir a braguilha dele atrás do pinheiro, encostar as coisas e sair correndo. Temer queimar-se com a urticária de taturanas peludas de jabuticaba, que na verdade são cerdos, que na verdade são lepidópteros. Passar a mão na cabeça dele sem que ele sinta. Dizer vai ficar tudo bem, mesmo que não fique. Passar shampoo, desengonçadamente, mas a lhe proteger os olhos. Não saber passar shampoo na cabeça de alguém. Uma lágrima econômica na tortura. Depois de dois anos botar a cabeça para fora da janela as três da matina e finalmente ver que também há outra cabeça para fora da janela além da sua naquela matina. É segunda ou sexta-feira, dia de lavar a roupa. São entre nove e dez da manhã. Há sol e pouca brisa. As roupas estão úmidas no varal.  Com este vento escasso elas quase meneiam, pois ainda estão pesadas de água. Tem cheiro de alfazema, lavanda, algo semelhante. Como é mês de novembro, está muito calor. Então, após ser expulso da alcova ele começa a perambular embaixo do varal. É como se o mar estivesse suspenso naquelas cordas de aço, sua calça jeans arregaçada nas panturrilhas, as ondas ricocheteando e desaparecendo pro infinito. É mais legal quando a odisseia chega aos lençóis... Quando estes tocam em seu rosto delicadamente frios, ele sente prazer. Um licor de chocolate esbraseando a goela. Uma manhã inútil nascendo mesmo assim. Um olho ardendo de sêmen. Uma pantalha que não queima. Um beijo absurdamente imprevisto depois de anos de costume. Um amor que passara e só deixara o gosto de alcatrão. Felpas tenras de uma alfombra alheia entre os dedos dos pés. O ronronar de um bichano na solidão de um duplex após a resignação de uma das partes.  A crocância do torresminho regado em caldo de feijão.  A crocância da panceta defumada. Uma estátua de Lênin sendo decepada. Um piano mudo. Um piano ateando sons no silêncio. Uma bolha de sabão equilibrada na ponta de um dedo. O crepitar de uma fagulha em hulha. O suor nevado sobre uma superfície de alumínio. Um colo dele. Um colo de útero. Um regaço só. Um desvelo não requerido. Um overloque erradicando as sobras do vestido de batista. Campos de linho na primavera belga. Um zíper invisível fechando em uma só escorregada. Um juramento. Uma declaração repentina. Um toque de reike. Um cheiro de essência. Um amigo vazando entre dedos e malhas.  A manhã atravessando o relógio. Um pássaro esquizofrênico cantando sozinho. Uma cabeça raspada. O poder e a graça da insignificância. Uma fumaça de café. Empunhar uma caneca com as duas mãos. Chamá-lo para deitar-se na mesma rede e sentir-se confortável naquele desconforto. E ainda assim não assuntar o tempo. É felicidade feita em batelão. Ignorar Deus quando ele se tornar um monstro. Tomar coca-cola em copo de requeijão. Uma onda abraça uma rocha, um caranguejo surfa na espuma borbulhada do mar, um curumim pisa numa estrela, o oceano engole a luz do dia quando a lua ele está a regurgitar. Um gole tosco de sarrabulho. Um dvd da Tina.  Um porta-retratos apertado contra o tórax. Chupar e resistir. Sou matéria de bagatela. E sem o insignificante, não significo. Poderei, quem sabe, dizer que sem ele, jamais vivi.




quarta-feira, 3 de julho de 2013

Sobre o poder de penetração da Caesalpinia echinata

Anorgasmia
de aratubã

Esse plebiscito é uma floresta de pau brasil que a presidente está introduzindo delicadamente no cú do povo brasileiro, similarmente ao que Cabral fez há cinco séculos nos orifícios da América do Sul. É o começo de mais uma campanha petista/lulista. Não, eu não sou tucano, acho, na verdade, que é tudo farinha do mesmo saco. Como magistralmente disse Tom Zé: o Brasil verde fode o Brasil amarelo.
Penso que, simplesmente, um plebiscito que propõe uma possível reforma política não vai sanear o nordeste, não vai botar água na sede do povo e comida no bucho, conquistada não com assistencialismo, mas com oportunidade (sim, eu sei, esse discurso já virou clichê). Essa safardanagem partidária não vai melhorar a educação. Há quantos anos essa miserável dessa reforma está sendo prometida? E agora com os protestos resolveram ressuscitá-la? Não esperem que nas próximas eleições essas manifestações públicas sejam reverberadas e executem a higiene necessária no Poder. Apesar dos belos e corajosos protestos, o povo continua o mesmo: ignorado ignorante por uma Educação chula, inapto a perceber o estupro moral que o Brasil faz com sua dignidade. Os políticos não estão assustados ou temerosos. Aliás, eles estão bem tranquilos. Sabem que continuamos burros. Que nossa Educação continua medíocre e que estarão sempre protegidos pela impotência ocasionada por essas carências. Os jornalistas com seus discursos éticos à la kubanacam estão cheios de boas intensões e vontade de trabalhar, mostrar as injustiças, mas todos nós sabemos: você só será informado com o que os donos dos jornais acharem conveniente para eles, conforme a benevolência dos administradores públicos e os sub-ordenados das publicações "legais".

Em suma, sem mais esse discursismo preocupado, o problema é justamente esse: o governo introduz toneladas de pau Brasil no cú do povo brasileiro, e ele geme e grita gol.


Peço desculpas pelo nível baixo das palavras, mas foram as mais delicadas que encontrei para expressar o que sinto.

sábado, 29 de junho de 2013

Sobre drum and bass e manguetown

A velha

     Poderia ouvir o drumembêis do coração dele ainda batendo, quicando contra o tapume do peito como se atrás dele grandes construções estivessem sendo erguidas. Já que era tão óbvio e lúcido quanto a luz do sol. Mas, luz solar, obviedade e lucidez podem não ser tão perceptíveis. Há de se iludir quem pense que a abstração só é apta a reparar o extraordinário.  Enfim, ela estava ouvindo Irmãs Galvão quando ele disse que viria. Ela lamentava proustianamente, roçando a capinha do disco no peito passando para ele (o disco) seu cheiro de macadâmia encanecida. Talvez porque as canções estavam lhe fazendo lembrar de tantas coisas, ou, pior ainda, porque queria lembrar muito, mas sua cabeça enfastiada não lhe permitia mais o glamour da recordação. “Foi assim. Unimos as nossas solidões... Eu trouxe a minha, ele a dele... Fizemos uma pequena multidão de dois”. Estava velha. Sua pele era velha. Seus órgãos, podia senti-los lá dentro, todos velhos. E qualquer tentativa de se rejuvenescer tornava-a grotesca, como se fosse um fantoche a encenar a sua própria decadência no parapeito de um internato da infância. Só que existia uma beleza naquilo tudo que a atormentava. Porque mesmo a responsabilidade de se estar morrendo derramava nela uma imaturidade jovem linda. É que apesar do mangue, dos seus pés chafurdando no mangue, nada lhe tirava a sutileza da admiração. Admirar foi o que sobrou de seus erários. Provavelmente tenha sido algo instruído por alguma ramificação da árvore genealógica. Em algum momento em que afundara os pés em areias engolideiras (como nos filmes do Tarzan) aprendera a admirar o mangue. Sim, tudo isso se trata de uma velha que assistia longas-metragens de Tarzan e ouvia Irmãs Galvão esfregando o encarte no peito, como a lustrar a cara tíbia daquelas sertanejas.  Minha história é só isso. Todo o mais é pura demagogia e retórica. É que, como a velha, eu aprendi a retirar poesia do mangue. Tiro amor da impassibilidade dessas dicções malditas.  Uma vez, sentada na minha frente, assim como você está agora comigo, ela falou: “Não precisa complicar as coisas só pra mostrar o quanto você é inteligente. A inteligência está intimamente ligada a experiências sensitivas. Quando você problematiza o ordinário, você esteriliza uma epifania”.  Fiquei olhando e pensando, por um tempo, de que bicha escritora francesa depressiva aquela velha ácida péctica plagiara aquele argumento. Depois passei a pensar em quanto essas palavras me doíam, feito um soco no meio do peito, assim, sem razão nenhuma. A falta de amor me tornara o maior advogado desse sentimento.  É o que fazem os poetas e os políticos, defendem uma coisa que não têm mais, ou que nunca fizeram. É fato que alguns textos de articulistas contemporâneos mais se assemelham a um assistencialismo emocional lulista do que a uma criação de cunho cultural-catártico, mas há muito amor badalando por aí, pelas sarjetas do nosso inconsciente.  

É preciso voltar à velha.

Teu cú é laico, me disse ela quando conversávamos sobre a religião e a utilização heterodoxa do reto. Pediu-me para parar de tratar meu cú como uma corporação do Partido Verde. Eu estava me burocratizando para evitar a desgraça unilateral do afeto. Aprendi assim, cresci assim. É difícil arrancar. Ela lera a parte da laicidade do ânus em algum cartaz de protesto e achara genial a semiótica russa daquelas palavras. Pra mim, tudo era questão de sustentabilidade. Dar o cú tinha deixado de ser tão século XXI. Démodée total.

Tocara minhas mãos, olhara em meus olhos com uma intimidade quase vulgar, de tão profunda e honesta. Um sopro frio espiralou-me as vértebras. Ela estava me mostrando o mundo em silêncio. Eu, que pensava que para vê-lo era necessário morrer, fitei-o com uma nitidez ilibada. O mundo, orbitando ao redor de sua pupila transladava pleno e pobre, todos os equinócios abraçavam-me a alma e gratificavam a indecência das minhas incompreensões acontecidas. Por um momento cheguei a pensar: “esta velha está me ensinando a ser feliz...”

Drumembêis, drumembêis... Era o som que se fazia naquela caixa. Metade psicanálise, metade pura e burra alegria. E ela escutava... Cativa e louca, aquele esboço. Um rascunho de som. Uma alforria. Aquele poço. Sem fim. Uma algazarra, uma putaria, um amor assim, que explode.


segunda-feira, 17 de junho de 2013

Sobre antropologia

- A TRANSCENDÊNCIA DA FOME – 

 Jair Junior Monteiro Solin

Banksy - Caveman

Ensaio estético-antropológico e histórico-científico sobre o poder cultural, artístico, filosófico, político e religioso da comida, fundamentado em pesquisas de Alan K. Outram,  Veronica Grimm, Joana Waley-Cohen,  H. D. Miller, C. M. Woolgar, Brian Cowan, Hans J. Teuteberg,  Alain Drouard,  Elliott Shore e Peter Scholliers. 

- Primeira Camada: ações e conseqüências do mundo gastronômico pré-histórico no mundo contemporâneo e a comida como metáfora e catalisadora histórico-sentimental

          O Slow Food foi um movimento criado na Itália em 1986 para contestar onde a atual gastronomia se encontra: na comida altamente industrializada para produção em massa, na banalização do sabor e na sua total descaracterização como signo e significação social. Entretanto, apesar desse pseudo-apogeu, inicialmente, porque não dizer que a Coca-Cola (símbolo patriótico dos norte-americanos no seu boom) e o Mcdonalds foram pontos interessantes do que pode se chamar de transcendência da fome? Tão interessante socialmente e filosoficamente quanto as teorias medievais do poder de alteração dos humores que a alimentação possui no corpo humano, influenciando até em sua inteligência. Seja a filosofia, a religião ou a política alterando como e o que se come, a comida também, até hoje, altera nosso meio. O porquê de tudo isso será esclarecido ao longo deste ensaio. Sem academicismos inúteis ou teorizações desproporcionais ao mundo prático, não é difícil observar o alto poder de significação individual ou coletiva na vida de qualquer pessoa. Todos têm de comer, e a comida de cada um traz consigo uma história. Não é raro lembrarmos-nos da nossa avó pela comida que a mesma fazia antes de falecer. Sentimos tanta saudade de suas receitas quanto de sua pessoa, porque o alimento era, intrinsecamente, um veículo otimizado para chegar as particularidades dela. O gosto, assim como o cheiro, possui uma potencialidade de transporte. Transporta-nos para qualquer lugar e não titubeia com as fronteiras geográficas. Seja das comidas mais elaboradas etnicamente (e por tanto, culturalmente, afora os ultraculturalismos) como qualquer produto industrializado, que não pode ser diminuído ou subtraído da gastronomia, pois traz também consigo um processo histórico indispensável e transformador do nosso contemporâneo jeito de comer.
          A margarina, por exemplo – e que será estudada mais adiante – da casa de minha avó possui um gosto irreproduzível. Poderei comprar dezenas de latas da mesma margarina, mas ela não terá o mesmo sabor da que aprecio no sítio. Parece tão mais suculenta, apesar de idêntica. A comida absorve sentidos e ambientações, absorve processos de desenvolvimento ou de inércia históricos, culturais, etc. Importante notar que não se trata de psicologismo gastronômico, mas sim de uma visualização sutilmente semiótica do objeto em questão.

          Na Era pré-história, segundo evidências apontadas pelo uso dos isótopos estáveis, descobriu-se, por exemplo, que os seres caçavam animais com mais gordura e procuravam  e procuravam ingerir o tutano dos animais contido nos ossos, pois isso os tornavam mais resistentes a dias piores. Ou seja, a necessidade fazia o desejo. Desejavam comer aquilo, pois necessitavam. Pode-se afirmar aí um indício hereditário, um reflexo nos dias de hoje onde, inversamente agora o desejo cria a necessidade. Somos parte do nosso passado evolucionário, obviamente, e por nossas necessidades alimentares, enquanto outras questões foram fitadas pelo meio ambiente e pela disponibilidade. Na pré-história a escolha de sabores era ditada por forças sociais.
          O fato é que – sobre a questão do desejo e da necessidade - as comidas gordurosas já são, via de regra, mais ‘saborosas’ e ‘suculentas’ no senso comum (ou inconsciente comum), apesar de todas as advertências médicas. Estamos assim, seguindo o mesmo pensamento da Era pré-histórica: procurando alimentos sempre mais gordurosos para saciar o “prazer hodierno” que eles trazem, apesar de não necessitarmos para sobreviver, mas sim, desejarmos. Contradiz-se assim, mesmo que apenas na área limítrofe da questão, Alan K. Outram, que diz que “temos tendência de desejar o que realmente necessitamos”. Necessitamos de um lanche altamente industrializado do Burguer King ou uma costela bovina pingando gordura? Não, apenas desejamos esse hambúrguer ou essa carne, assim como não desejamos comida macrobiótica, mas teríamos de adotá-la para o bem metabólico de nossas necessidades fisiológicas. Logicamente, falo do popular, da maioria. A elite já está abastada de estudos acadêmicos inúteis.

         Passamos a ver então o primeiro estágio de significação da fome, e também o mais óbvio. A comida começa a destacar status, opulência com consumo de alimentos exóticos, caros e também corroborados pela qualidade dos acessórios. Bem como, apesar de ainda improvável nas evidências arqueológicas, consumo excessivo pode nos revelar que na pré-história a alimentação já fazia parte de transações políticas. Revela-se assim um dos primeiros arquétipos da significação da fome dentro da questão do status: a ostentação e a glutonia, expondo poder. Observa-se uma brecha que revela na alta cozinha e nos banquetes um papel importante na concepção de sociedades complexas e na ascensão de civilizações. Era ao redor de uma mesa, inclusive, onde grandes deliberações políticas eram tomadas, e assim tem sido, não exclusivamente, até hoje.

- Segunda camada: o começo de uma visão filosófica sobre os hábitos alimentares: comida como mantenedora da moral

          Homero, poeta épico da Grécia Antiga, do século VIII a. C. (segundo estimativas históricas), dizia que a alimentação (comida e bebida) não era apenas uma necessidade, ou seja, o sustento da vida e da força, mas também fontes de energia e prazer, a base da vida comunal. Já no período clássico, o matemático e filósofo Platão, em sua obra A República, coloca Sócrates descrevendo uma dieta bastante simplória, que alguns consideravam comida para porcos, já que não havia nenhum tipo de carne, isso porque o “personagem” de Platão acreditava que a dieta carnívora aumentaria cada vez mais ganâncias por luxo, dentro dos confortos cotidianos da própria sociedade civilizada. Por sua vez a carne desencadearia cada vez mais vontade “por iguarias, perfumes, cosméticos, concubinas, pinturas e bordados, ouro e marfim”. Apesar de apenas teórica, sem exemplos utilitários, é interessante notar a importância dada à comida desde os tempos antigos, como fator de ressonância de questões mais profundas e de personificação da moral. Essa profundidade se ilustra bem no conceito carne-carnal a qual Sócrates se referia. “Ele vislumbrava uma rápida expansão do Estado com múltiplas ocupações inúteis que se tornam necessárias pela ganância, por luxos sem fim, o que inevitavelmente levará a guerras e a sociedades injustas” [Alam Outram]. Parece absurdo esse conceito de “faculdade corruptiva da carne”, mas ao se olhar um pouco mais, é possível entender superficialmente porque Sócrates/Platão chegou a essa conclusão.
          O gado ao ser abatido (na maioria das vezes com porretadas na cabeça), libera na corrente sangüínea uma grande quantidade de adrenalina, em razão do medo e da situação de perigo em que se encontra. Essa adrenalina, uma vez no corpo humano, transforma-se em endrenocromo e posteriormente em adrenolutina, que são substâncias capazes de causar numerosos distúrbios nervosos e afetam não somente à nível bioquímico como também energético, bloqueando, por exemplo, a fluidez da energia Cósmica através dos canais sutis chamados Meridianos. [Ergom e Inti-Rá]. Este último pensamento se referindo a milenar medicina chinesa e, portanto, ao pensamento oriental em justaposição ao ocidental, ao menos no ramo da filosofia.
          A alimentação carnívora introduz no organismo elementos que aos poucos se vão transformando em substâncias estranhas, que seguem seu próprio caminho. E, quando as substâncias seguem no corpo seu próprio caminho, elas exercem influência nociva sobre o sistema nervoso, favorecendo o aparecimento, por exemplo, de estados histéricos e epilépticos [Caroline Bergerot]
          Obviamente que essas cognições “racionais-intuitivas” hoje comprovadas pela ciência não existiam na Grécia Antiga, porém observa-se uma latência de significação dos reflexos de hábitos alimentares que não permaneciam meramente e também não se tratavam de um vegetarianismo contemporâneo em voga, uma vez que a questão ia muito além ao tocar na suscetibilidade da moral perante a ingestão de carne. Em suma, para o pensador, o consumo de carne tinha conseqüências sociais, com efeitos no corpo e também na alma. Alguns iam mais longe (ultrapassando o senso “lógico”) e diziam, inclusive, que o vapor expelido no cozimento de uma carne, ao ser inalado, poderia entupir a mente e retardar o pensamento. Este raciocínio sim pode ser considerado hoje em dia um tanto quanto incoerente.
          Outros pensadores sofriam influência, ou melhor, adaptavam para essa gênese do pensamento gastronômico algumas noções médicas onde se considerava que uma alimentação deveria promover o equilíbrio dos “4 humores” – sangue, bile negra, bile amarela e fleuma – e suas “qualidades” – quente, frio, seco e úmido. Para ideais médicos da antiguidade esses 4 humores com suas qualidades eram o que constituía o corpo. Logo, pensava-se (ou filosofava-se) que ingestão de carne aquece o corpo humano de modo indevido, o que levaria ao aumento do apetite sexual (pela comida forte e quente). Assim, os pensadores insistiam que para manter a ordem e harmonia dos humores era necessário nas refeições comer apenas um alimento. Essa questão “clínica-filosófica” irá permear esse estudo pela narrativa de outras culturas também, quando se pensava, por exemplo, que ao fazer uma comida deveria cozê-la já pensando no tempo de cozimento também que os ingredientes passariam dentro do organismo. Essa ideia de transcendência da fome que começou na Grécia Antiga pode ser verificada também que a culinária era baseada em três dádivas dos deuses. Grãos, vinho e óleo eram os alimentos essenciais para viver. Sendo que os grãos eram atribuídos a deusa Deméter, o vinho a Dionísio e Atena ensinou às pessoas a cultura da oliva. Encontramos gastronomia, inclusive, na mitologia.
          Partindo do helenismo para a península Itálica destaco um dos maiores aprofundadores da agricultura e culinária: os romanos. Mantendo meu foco da gastronomia enquanto objeto social, filosófico e cultural e não apenas culinário, ressalto que a maioria dos romanos raramente faziam uma descrição objetiva do sabor, mas utilizavam a comida e a bebida como “instrumentos de expressão de atitudes e opiniões fortes e carregadas de emoção”. Ou seja, muitos poetas e satiristas utilizavam dos hábitos alimentares de um individuo, por ora ridículos, para alvejá-lo. O pano de fundo é uma filosofia enfatizando a frugalidade e o controle de apetites com base na moralidade. Com metáforas, associações sensuais, reais ou imaginárias, os poetas falavam também do comportamento de uma sociedade chafurdada em determinados hábitos e que ilustravam sua atual situação socioeconômica por exemplo, ou quiçá religiosa. Em suma, pessoa boa comia moderadamente, pessoas ruins eram descritas como gulosas, que ingeriam os alimentos mais grotescos. O que e como comiam revelavam sua essência. Difamava-se através da comida um inimigo político, por exemplo. “Detestavam o luxo privado, mas adoravam a munificência pública”. [Alam Outram]. Um habitante de Pompéia, inclusive escreveu: “a pessoa com a qual não me sento a mesa é para mim um bárbaro”. Isso revela, simplesmente, o quanto comer era, e ainda é, um movimento altamente íntimo.

          Até pelos períodos de fome e guerra que a China passou, ela ainda é uma das sociedades mais voltadas para a alimentação no mundo. Mas essa não é a única explicação, que o que interessa é a China Imperial, porque é nela que vislumbra-se também a transvaloração dos sentidos de comer. Textos ritualísticos antigos associavam a prática de cozinhar à civilização, e estabeleceram um utensílio de cozinha, o ding (ou caldeirão de três pés) como símbolo do Estado, onde povos civilizados eram os “cozidos” e os não-civilizados eram “crus”.
          Distinguia-se as pessoas também em de que maneira as pessoas comiam – cozinhando carnes e grãos ou não, refinavam o alimento ou não – essa distinção entre cultura e natureza traçava um elo claro entre práticas alimentares e questões de identidade, constituindo uma versão cultural e tão presente hoje em dia do “você é o que você come”. Não se trata então apenas dos “benefícios anatômicos” que um determinado alimento oferece a nossa saúde, e que tanto se preza hoje em dia. Considerava-se também os benefícios-indicadores socioculturais. A comida é termômetro de um meio, tanto as atribuições externas que lhe confere, como também internas; coletivas ou subjetivas.  Na política dizia-se que “governar um país é como cozinhar um peixe pequeno”. Tanto que, para ser nomeado e ocupar um cargo ministerial, o primeiro requisito era habilidade culinária. Mundo = cozinha: Bom governo = habilidade com alimentos. “Como na cozinha era necessário compreender os sabores para misturá-los com sucesso, no governo era necessário entender os sofrimentos e as aspirações do povo para poder satisfazer suas necessidades”. [Joana Waley-Cohen]


- Terceira camada: yin e yang da fome
“Nem excessivamente doce, nem azedo; levemente temperado, mas não insípido; com sabor de gordura, mas sem sujar a boca” [Yi Yin]
         
          Quando o ser humano quis entender mais a sua natureza (entre os sec. V e III a.C.) ele viu que o homem era capaz de se aperfeiçoar. Surge na China dessa época então um vício no autodidatismo, na busca pessoal – apesar de influenciada por várias questões – do equilíbrio que ajudasse o ser a “transcender melhor”, atingir a sabedoria. O oriente desde sempre entendeu que tudo no cosmos está interrelacionado e que não existe essa dicotomia ocidental do corpo e da mente (bom e mal), ou seja, não existe como tocar (nutrir) o corpo sem que isso exerça um reflexo na mente. Cria-se aí também uma relação de matéria e moral. Assim é fácil entender como a gastronomia passou a fazer parte disso, na eterna busca do equilíbrio alimentar para harmonização do corpo e conseqüentemente, bem estar da alma, retidão moral e sabedoria, além do prazer de se comer. Logo, voltamos a questão dos humores, agora já orientalizados e, portanto, um pouco mais complexos. 
          Para os chineses o corpo é animado por energia, denominada qi, que também residia nos alimentos em quantidades variáveis. Assim, uma nutrição correta é o equilíbrio entre os alimentos que fortalecem e os que enfraquecem. No corpo, consegue-se esse equilíbrio pelas forças yin e yang, elementos básicos em que se divide o cosmos. Gastronomicamente falando, yin significa aquilo que é fresco (ou refrescante), escuro e úmido, ex: verduras e animais aquáticos; e yang o que é quente (ou aquece), claro e seco, ex: comidas gordurosas, pimentas, sopas. Importante notar que não são coisas opostas, mas pólos complementares, assim como a ideia do feminino e masculino, respectivamente. Há um pouco de masculino no feminino e vice-versa, é a ideia mater do equilíbrio. Desta forma um alimento poderia ser mais yin ou yang, causando efeitos no corpo. Já que, segundo a teoria humoral do começo do século VI, o corpo humano era afetado por calor e frio e de maneira menos intensa por umidade e aridez, entende-se a necessidade do comedimento para o bem estar.
          Para sintetizar essa questão, utilizo um pensamento de uma personalidade do século XVI, Gao Lian: “A nutrição é o fator essencial de sustentação da vida humana. É por meio dela que, yin e yang, dentro de uma única pessoa interagem e as cinco fases se sucedem na ordem certa. Já que tudo depende na nutrição, uma vez realizada na combinação apropriada, a força vital do estômago está completa e então as energias do corpo podem prosperar e os ossos e músculos adquirem sua força total”.
          Quando Gao se refere as cinco fases, são elas: madeira, fogo, terra, metal e água, que simbolizam e afunilam toda a natureza do universo, ativadas por cinco sabores: ácido ou azedo; amargo; doce; pungente (gengibre, alho) e salgado. Todos relacionados com as cinco vísceras: baço, pulmões, coração, fígado e rins.
          Não é difícil nós, contemporâneos, pós-modernos ou moderninhos, entendermos um pensamento que aparentemente é tão arcaico e talvez mirabolante. É obvio que determinados alimentos têm efeitos sobre determinados órgãos, que suas propriedades químicas nos atingem de verificadas maneiras. Mas apenas estamos entendendo melhor disso no século XXI. Os chineses imperiais já estavam conscientes do poder da alimentação no corpo e, consecutivamente, no psicológico de cada um, sem mesmo o adjutório da ciência ortodoxa. 
          Quando os chineses falavam (e ainda argumentam) que o alimento possui energia e que base do seu sucesso no organismo depende do frescor (ou refrescância), estão simplesmente apontando que tudo o que é vivo e contrabalançado torna-se mais compatível com nossa vida animal. O alimento carrega não só história cultural, política, religiosa, filosófica, mas história química e precisamos estar conscientes disso para uma possível exaltação da saúde que creio, ainda estamos distantes de alcançar. O que diriam esses chineses da teoria humoral ao se depararem com um lanche do Burguer King? Seríamos, neste âmbito, favoráveis ou contrários a um comunismo gastronômico?  Ser reacionário neste caso é pertinente? Deixo claro que, como será visto mais adiante, historicamente e culturalmente, fenômenos como a Cola-Cola, Danone, Mcdonalds foram pura gastronomia (quase uma haute cuisine do ponto de vista antropológico), em suma, signos de um período desenvolvimentista. Mas esses símbolos pós-revolução industrial hoje pedem conservadorismo do “moderno” ou conformismo do “tradicional” em detrimento da simples evolução da fome?
         
- Quarta camada: a colher de pau está nas mãos do sagrado

          Quando avaliamos o mundo islâmico, a priori medieval, vemos agora a religião interceder na gastronomia, dividindo as comidas em halal (permitidas) e haran (proibidas). E diferentemente da concepção greco-romana da carne, para mulçumanos e sobretudo Maomé, ela é vista como “o alimento mais nobre deste mundo e do paraíso”. Entendia-se como halal os grãos, leite, mel, vegetais, nozes, quadrúpedes corretamente abatidos, aves e carne de caça fresca. Já haran era carniça, sangue, porco, animais abatidos de forma imprópria, bebidas intoxicastes, aves de rapina, moluscos, etc. Para entender o porque desses alimentos serem proibidos, além da obviedade do assunto, existem questões que só mesmo a engenharia alimentar poderia responder. O fato é que, mesmo que com outra roupagem, a questão humoral ainda pode ser considerada “presente” na culinária islâmica medieval. A comida, também aí, é de tanta importância que passagens do Alcorão estão repletas de referências sobre comidas que esperam os fieis no paraíso. “Rios de vinho que não intoxica; leite que não talha; mel puro fluindo por jardins com árvores frutíferas de todo tipo onde as pessoas se sentam em tronos dourados e a “carne de aves” é servida por saudáveis huris de olhos castanhos, enquanto jovens esguios mantém permanentemente cheio os cálices de ouro e cristal”.  
          Neste caso, as restrições das escrituras delineavam a evolução da alimentação. Mas passando do incorpóreo para o materialismo e a comida como status, por exemplo, em uma refeição o califa era servido de até 300 pratos, ilustrando para o povo as suas façanhas governamentais. “Obviamente, desde o começo do período abássido havia médicos dissidentes do culto ao estômago, pelos exageros, baseados em princípios gregos”. [H. D. Miller]
          Com toda essa glutonia e ostentação sobre a comida, neste período, ilustra-se questões políticas principalmente pela ausência da mesma. Ou seja, a comida vira válvula de escape para fugir do que realmente necessitava ser discutido. Um pensador da época, Salih Quddus, escreveu sobre isso algo que lhe custou a vida: “vivemos no meio de bestas sempre à procura de novas pastagens, mas que não procuram a compreensão. Escrever sobre peixes e verduras é para eles um mérito, mas a exposição de assuntos realmente científicos os deixa cansados e entediados”.
         Na época, dentro do contexto dos califas e da ufania posta à mesa, Salih teve a sua razão. Entretanto hoje, com progressos da tecnologia, ou como, por exemplo, na gastronomia molecular de Hervé This, compreende-se cada vez mais atraente a simplicidade provinciana das diversas culturas e regiões do mundo junto à ciência universalizadora de chefs que se transmutam em químicos, físicos e estetas na cozinha em busca da perfeição através da engenharia do sabor.
           
          “O tempo passou e os mulçumanos deixaram legados que persistem até hoje, como a prática de jantar composta por vários pratos: entrada, principal e sobremesa. Califados e teocracias foram destruídos pelas invasões, mas a culinária não se destrói como eles. Nem os cristãos ibéricos com seu gosto por carne de porco e uvas fermentadas ou os mongóis, ambos invasores, estavam imunes ao charme da culinária mulçumana, e muitos dos pratos sobreviveram após derrubadas políticas no limiar do século XIII.” [H. D. Miller]

          Na Europa da Idade Média comer demais era um hábito pagão, mas paralelamente oferendas a base de comida eram encontradas em jazigos. O cristianismo estimulou a abstinência por seus benefícios espirituais.  Privação de gorduras e laticínios, enfim, da carnalidade era tão presente como na Grécia antiga. A compreensão do jejum passa a identificar o mundo culinário na Europa medieval, com uma dieta também influenciada pela teoria humoral, numa combinação de alimentos com características ideais a fim de atingir um estado temperado, quente e úmido. O cozimento mudava a natureza de um alimento e a digestão também era uma forma de cozimento a ser conduzido de maneira calculada para transformar a comida em sangue ou em outro humor: o exagero à mesa poderia produzir desequilíbrio de humores. [C. M. Woolgar]. Dentro desses humores associavam-se oito sabores: doce, gorduroso, amargo, salgado, aguçado, severo, salgado como o mar e avinagrado. O uso de especiarias torna-se bem evidente então. Nas classes alta e baixa, obviamente de modos díspares, mas seguindo o mesmo conceito.

          A partir do século XVI, com a invenção da bússola, da pólvora e da prensa tipográfica a gastronomia sofreu inúmeras rupturas com o passado. A prensa auxiliou na elaboração de livros culinários, a bússola viabilizou viagens oceânicas e força mortal possibilitada pela pólvora mudou a ascensão dos primeiros impérios europeus ao redor do globo. Ou seja, influências e vários alimentos começam a ultrapassar fronteiras e estabelecer um diálogo gastronômico de culturas, segundo aponta o pesquisador Brian Cowan. Isso tudo culminou em distinções entre culinárias nacionais. Mas com o surgimento dessa vertente de homogeneizações do sabor, surge um grupo no Renascimento defendendo o Humanismo entre Colombo e a Revolução Francesa. Com as pressões modernas houve acesso a novos alimentos e técnicas possibilitados pelo comércio ultramarino em expansão e seu mercantilismo, por outro lado os humanistas defendiam os legados culinários dietéticos da Antiguidade, já expostos neste ensaio. Entretanto, segundo J. H. Elliot, “em alguns aspectos o Renascimento envolveu, ao menos no início um estreitamento da mente em vez de uma abertura. A veneração à antiguidade tornou-se mais submissa”. O que podemos supor, neste caso, é que a derrubada das barreiras trópicas levaria ao que hoje podemos intitular de fast-food? Ou a uma simples troca de influências que tornaria a comida mais rica em termos étnicos? A máquina a vapor responderá essa questão mais adiante.
          “Detesto a raça desses homens, não seus pratos”. Essa frase de um autor desconhecido revela bem o espírito humanista, que estava aberto a diálogos internacionais, mas queria conservar os benefícios da boa comida antiga. Para eles – e é então detectamos o cerne deste ensaio – compreender como o alimento nutre o corpo leva a uma vida mais saudável para todos e, portanto, a uma sociedade mais feliz e próspera através da moderação e da frugalidade, sempre mantendo um cuidado com os vícios excessivos, condenados pelo pensador Platina que criticava os obesos de Roma e outras cidades italianas. Estavam tão saciados que seus apetites só eram estimulados por meios artificiais. Estamos falando de Antiguidade, mas a frase se aplica perfeitamente para o problema da obesidade norte americana, mas de um modo geral, no mundo todo. É importante lembrar que também essa culinária humanista baseava-se na fisiologia galênica, ou seja, a dietética embasada na ciência do equilíbrio dos humores do corpo pelo controle do consumo de alimentos. “Alimentos supostamente perigosos eram melhorados (cogumelos, por exemplo) por meio da correção de suas qualidades corruptivas com outros alimentos ou especiarias”. [J. H. Elliot] Essa fisiologia não falava apenas do que comer, mas também como comer. Platina desaconselhava o consumo de vegetais depois do consumo de frutas, pois a digestão seria dificultada pela ingestão de vários itens frios e úmidos de uma só vez.
          Vamos um pouquinho mais além e propor uma transcendência filosófica. O humanismo renascentista também falava de etiqueta. Por exemplo, vasculhar a comida em uma travessa era sinal de epicurismo [ou hedonismo, que erroneamente é tratado como sinônimo], as pessoas deveriam pegar o que estivesse a sua frente. O epicurismo foi uma corrente filosófica na qual o prazer era o começo e o fim de uma vida feliz e eram divididos em duradouros (que encantam o espírito como boa conversação, contemplação das artes, audição de músicas, etc.) e imediatos (movidos pela explosão das paixões e que, ao final pode resultar em dor e sofrimento). Dominar os prazeres exagerados da paixão para desfrutar os prazeres do intelecto. Os epicuristas buscavam a ataraxia, isto é, o estado de ausência da dor, quietude, serenidade e imperturbabilidade da alma. A diferença do hedonismo é que o epicurismo trata da administração racional e equilibrada do prazer, evitando ceder aos desejos insaciáveis que terminam em sofrimento. Já o hedonismo é, grosseiramente falando, a procura desenfreada pelos prazer mundanos. Apesar de ser uma filosofia interessante, ser chamado de epicurista ou hedonista na época era bem pejorativo, já que o prazer era tabu. O ser humano ainda está aprendendo que pode sentir prazer, inclusive na gastronomia, deixando apenas de encher a barriga e procurando apreciar e entender o que lhe chega à boca.

[Este ensaio é embasado no livro "A História do Sabor", com organização de Paul Fredman] 

domingo, 16 de junho de 2013

Sobre a glória

d'Absence
Foto: Pina Bausch, autor desconhecido

Não, não mocinho. Senta aqui e fica quietinho. Respirar tão fundo para quê? Correr de quem, exatamente? Aqui é justamente o que você carece. Suas necessidades todas poderão ser mitigadas neste lugar. Portanto, não há motivo para sair. Não, não mocinho. Senta aqui e fica quietinho. Apaga esse cigarro porque idade você ainda não tem. O cabelo desse jeito não era exatamente o que eu pensava para você. Devo confessar. Entretanto, é compreensível que você ainda não saiba do assunto. Não, não mocinho. Senta aqui e fica quietinho. Tens tais talentos. Ouça Deus. E saiba: Deus não é poliglota, tão menos doutor. Seja simples, monossilábico, lacônico. (Pausa média, um cigarro) Deus não suporta hipérbole. É preciso que você comece sempre com as palavras pai-nosso e termine com o termo amém. A humanidade preferiu ao longo da história utilizar este vocábulo ao invés de amem. É que amar é lei e amém é comiseração. Não inverta. Inverter é ser subversivo e fora da realidade. Calma, menino, eu também já fui paixão. Mas também já fui caixinha de música. Quando não, confetes de valeriana me caíram sobre a cabeça. Eu estive ausente por um ancho período. Mas eu voltei e agora meu corpo inteiro é teu. Serei tua mãe e tua cadela. Serei teu Deus e teu sertão. Não, não mocinho. Senta aqui e fica quietinho, ouve que eu aprendi a tocar e me eivo em duas pelo roço teu. Ouve que bruma, cerração e silêncio têm barulho.

Enquanto eu lhe aguardava você parecia tão pequeno. E quanto mais eu chegava perto, ao invés de você aumentar, mais você diminuía. E tudo era tão absurdo que apoucavam-se teus mausoléus de amor. Três meus passos para trás e tua forma mais linear se garatujava na minha retina. Pipoco de êxtase, és gigante na distância e micróbio na adjacência. Mas agora eu voltei. Faço monólogos, sim, faço monólogos. São carpetes felpudos sobre o chão aguardando teus pés. Exagerei? Exagero. Exagero porque tu és meu sonho ainda envolto em placenta. Exagero porque ora te arranco com fórceps, ora te volto pra dentro com a força das mãos. Histérica. Fica. Fica e não sai nunca. Não há como alguém viver sem um órgão capital. E tu és como um órgão. Eu te organizei dentro de mim. (Pausa, respiração afoita. Descanso. Fim da pausa). De tal forma que disputas com a vitalidade do que me é imprescindível. Não, não mocinho. Senta aqui e fica quietinho. Torno a amarrar teus cadarços nas pernas da cadeira e a pregar a cadeira ao chão e a cimentar tua doçura ou desafetação inicial em concreto bruto no que tenho de mais meu. Não perca tempo relativizando a sua ambiguidade em tulhas de dúvidas ilógicas. Faça dicotomias nas duas partes e crie um fractal. Já está tudo devorado mesmo. Aproveite para limpar os farelos do bolso de uma década, quando pensavas ainda que tua algibeira de garoto era um cofre onde poderias guardar o que te era mais valioso. Crianças são assim, acham que esconder a cabeça sob o travesseiro lhes protegerá de corpo inteiro dos monstros noturnos mais colossais e inumanos. Diga-me com toda a sinceridade. Não é isso que temos feito? Quantos quilos de farelos há em teus bolsos?

Não... não mocinho... Senta aqui e... fica quietinho. (Pequena pausa)

Se eu pudesse lhe mostrar um chocalho e você cessasse o choro. Se ao lhe encher de leite você dormisse a esquecer das tuas bestas. Se, ao deixar o abajur acesso, não existisse mais a escuridão e, por fim, se com um simples beijo em teu cenho, tua solidão se diluísse na atmosfera. Mas nada disso adianta. E tu choras com fome, medo, saudade e brasa coalhada. Metade birra, metade desespero.  Metade quero teu extermínio, metade te canonizar. Metade sou mãe querendo tacar o filho pela janela quando ele chora, metade lhe aleito de cálida disposição.

(Início da pausa)

Acalanto em preamar, meu único bem. 

(Fim da pausa)

Rapazinho escute: a ilusão não é gráfica. Perder-se é mais Pollock do que Tarsila. E eu me perdi criando teus planetas e içando-os no universo como balões de gás hélio cheios de confetes. Hoje tenho neste apartamento uma Sapucaí suja e obscura, como se um carnaval houvesse passado por ele, quando na verdade, só o que passou foi tua preterição oblíqua. Eu sei que são metáforas e tempos, pessoas verbais demais para você. Tu que sempre foras de uma só linha para explicar o que era de mais complexo e disparatado, e de verdadeiras ontologias fenomenológicas para explicar o que era de mais ordinário. Doido.

Não, não rapaz. Eu não acabei. Eu sei que você já está fatigado. (Pausa extensa, uma música. Fim abrupto da pausa extensa seguido de um olhar quase triste) Mas senta aqui e fica quietinho. Eu tenho uma enchente a ser dita, tal e qual vômito que se engole inúmeras vezes por não se estar em local e ocasião apropriados. Eu fui me tornando aquário de todas as minhas náuseas e hoje sinto uma vontade assombrosa de me apurar. Eu fui me tornando monstra pelas vezes todas em que tentei agradar tuas conveniências!

Você está entendendo o que eu estou dizendo menino? Olha, rapaz.
Eu vou parar.
Não ser será minha próxima náusea. Ausência com cheiro de brotos de gardênia. Não é assim?

É preciso que você saiba que eu estou tentando por a cabeça para fora d’água e não estou conseguindo, menino.
É um aterro de subjetividades. (Pausa)

(...)

É horrível. (Outra pausa. Um silêncio).

Pausa.