quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Sobre água, cachaça e mel


P O N T O   D E   T O R R A


Ruven Afanador
 
      Xangô, deus do fogo e do trovão, rei de Oyó, galos, patos carneiros e cágados neste ambiente onde nada mais se prega, nada mais se semeia. Pois sem os olhos dela não há vergonha, sem os olhos dela não tenho de nada a certeza das vans. Machado duplo, oxé, nessa ausência de justiça entre aquela mulher, seus seios e seus cortes, me disfarçam. Aqueles seus olhos brandos de Oxumaré, a espada e o rabo de cavalo de Iansã, me devaneando a morte, não das coisas terrenas em que posso alcançar, mas das intermitentemente ocas, onde só toca minh’alma com seus dedos de Oxum, deusa das águas doces, do ouro, da fecundidade, dos búzios e do amor. Que me chispe a vingança, que me alumeie as dores desalumiadas da solidão, que eu não fique a admirar sua transcendência inexperiente, mas que me liberte e brinque no que há de mais mundano e puro entre os logradouros de seu organismo-corpo. Que eu lhe cubra quando for preciso com a terra de Obaluaiê, e lhe louve com mandalas de xaxarás reluzentes, meu deus mais interno, tímido e vingativo, detentor das minhas pestes de dentro, curandeiro besuntado em dendê das minhas pobrezas. Que eu lhe corte os desprezos com a espada de Ogum, como a cortar os bodes avermelhados que lhe ofereço, que eu lhe ampute os desamores, que lhe destronize de uma vez e te sambe no meu terreiro ao som dos tambores, que lhe gingue em minha pele e jamais te deixe escapar de novo, dispense com isso a errônea tarefa de Exu de levar minhas mensagens a ti, que não eras, nunca serás deusa. Invocador dos meus orixás, guardião da porta da rua e das encruzilhadas do meu mundo suburbano, não de tua displicência dolosa, tuas sabedorias cenográficas, teus oceanos de descobertas insípidas. Que Oxóssi, deus da caça, me liberte da sua própria intuição e emoção ao que me fazem desejar a tua bestial busca, mediante teus olhos azul esverdeado claros, em que me deixo à deriva. Tu és água, cachaça e mel em minha boca, mulher. Kó si ewé, kó sí Òrìsà, também.  Porque fizeste brenha escura, capoeira profunda e mata espessa ao redor de mim.  É que desbravo, desbravo e nunca chego ao mar. Kó si ewé, kó sí Òrìsà. Quero ser calunga de ti, repito, quero ser calunga de tuas escravas minas de ouro sanguinolentas, tudo de bom, tudo de bom, me renascer de tuas vísceras navalhadas e acima de tudo me libertar de tua candonga nevrálgica. Kawo Kabiecile Kawo, meu pai, me tire donde cá estou, azulejo lamacento dos encantos dela, fúria tropical e anestésica das canduras deleitosas safardanagens dela.  Kawo Kabiecile Kawo: Xangô, me guie às saídas desse labirinto hexagonal chamado Ela, Dédalo da minha perdição, inventora do meu caos concreto. Toco todos os abês, atabaques, alabês e agogôs nesse afoxé do desdevotamento total, da agricultura em músculo pubococcígeo dela, subsistência maldosa, economia maldita. Perdição labiríntica em ductos das glândulas de Skene, poesia nativa canibal Dela, onde me afogo inclusive em tua frigidez árida, na mais insana oceanografia das tuas lubrificações leoninas e fraudulentas. “Oyá de mim”, flor preta acendida, me vigie os ossos apaixonados para que eles não tornem a me macular com os entrelaçamentos de outrora, me eleve aos nove céus: Orun Alàáfià, Orun Funfun, Orun Bàbá Eni, Orun Aféfé, Orun Ìsòlú, Orun Àpáàdì, Orun Rere, Orun Burúkú e Orun Mare, metafóricos ou não, enleve-me leve elevemente à eles perdoando a pretensão minha, semente chumbada da minha desesperação. “Ai minha mãe Menininha do Gantoise, a estrela mais linda, hein? Tá no Gantoise”, repito a canção de Caymmi a tentar ninar meus trovões libérrimos e também cães, deglutidores de sonhos cozidos que só não deglutem a mandinga dela. “E o sol mais brilhante, hein? Tá no Gantoise”. Iansã, metamorfoseie este pranto todo meu em mar todo nosso. “A beleza do mundo, hein? Tá no Gantoise. E a mão da doçura, hein? Tá no Gantoise”. Que eu me racho o peito em abertura selvagem para que dele salte o feitiço dela, e ela toda para ele jamais regresse. Sabedoria de tudo o que não se toca, alumeie. Sarava!

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Sobre as náuseas eruditas



Diane Arbus - Seated Man
João Gilberto:
a dominatrix 
do
Brasil

    A palavra e-r-u-d-i-t-o  vem do latim eruditus, formado de ex rudis, aquele que deixou de ser rude, aplicou-se ao estudos, tornou-se instruído. No Brasil, erudito é o que não é popular. Outro erro: a bossa nova, essa masturbação de João Gilberto, além de não ser popular (é música exportada para anglo-saxão tocar em filmes “off-Broadway” e para um público restrito que tem dinheiro  bancar os mimos de um cantor que mais se parece uma entidade sazonal extra-terrestre), também não é erudita. Ou, como bem disse Lobão, é uma língua morta.
   Somos um dos povos mais violentos do mundo e ficamos cantando: “olhaquecoisamaislindamaischeiadegraça?” Sim, a bossa nova quando surgiu era suprema, hoje reflete a incapacidade do Brasil em se auto-retratar, em se interpretar, não porque somos um país demasiadamente plural e deveras indefinível, mas porque uma burguesia deveras apreciadora do estrume cultural inestético e demasiadamente apegada a um Brasil sutil inexistente financia só a arte mumificada, retrógrada. Não sabe olhar para o que é novo. É como se fôssemos apátridos ao não apreciarmos a bossa nova com seu minimalismo perfeito e sua morosidade aguda. Voltando ao Lobão: “é uma punheta que se toca de pau mole”. A bossa nova não é erudita, a bossa nova não é o Brasil, a bossa nova hoje em dia é cult, ou seja, não é nada.
           O João Gilberto ignora o Brasil e o Brasil vive a polir seus colhões harmônicos empoeirados. Não dá entrevistas; faz show uma vez por ano com ingressos de valores altíssimos; só se apresenta com determinada temperatura, calculada acústica, dosada luz; tem aversão social (certa vez pediu um baralho curioso a Elba Ramalho, quando ela foi lhe entregar no Leblon ele pediu que ela passasse o presente por debaixo da porta). E, por fim, tem a vocação comparável a do Ray Conniff. 
       O que "algumas" pessoas consideram genial, eu considero arrogante, separatista, pomposo, viadagem. A arte não faz sentido se não é feita pro povo, que é quem mais precisa do que é belo. A arte não pode existir para nerds abastados com consciência social apreciarem, por isso não laureio e nem sinto orgulho dessas manifestações herméticas, excêntricas, fragmentadas, egoístas. O João Gilberto é um OVNI na música brasileira, um vegetal sonoro e coeso deglutido por vegetarianos hipsters criados com Danoninho. O que as pessoas não entenderam ainda é que esse sujeito faz com seu público exatamente o que uma dominatrix faz com seus clientes: BDSM ("Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo"). E isso tudo só é legal na cama. No palco, vira sacanagem.