quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Sobre política



ativismo 
inútil

    Desconfie de quem levanta bandeiras, até mesmo porque o que mais tenho visto é gente abraçando causas sem ainda sequer ter um mastro.  Nós geralmente viramos ativistas quando não conseguimos executar os ideários da causa em nossas próprias vidas, então gritamos para o mundo os nossos direitos, mas não fomos ainda capazes de merecê-los. Existe uma diferença entre ativismo político (que é o que, creio eu, traga algum resultado) e ativismo lírico. Os ativistas líricos, apesar de bem enfronhados, são como adornos, eles ornamentam, mas não possuem efeito prático, são bonequinhos falantes e justiceiros brincando de política no playground das discriminações. Conhecem das leis e querem expor o que lhes deixa indignados, mas não entenderam ainda que não existe ativismo que não se experimenta na própria vida, a priori. Tornou-se banal lutar pelos direitos do coletivo e esquecer-se das obrigações subjetivas. Tornou-se banal mobilizar-se, mas é só uma tentativa de mostrarmos que não estamos amordaçados, quando na verdade, quem realmente precisava nos escutar já tapou os ouvidos em uma determinante surdez induzida. Enfim, nem nossa liberdade adianta mais, pois a combatem com seu pior inimigo: o desprezo.
    Não existe “plantar sementinhas”, não existe “vamos nos dar as mãos”, não existe “conscientização”. Estamos em pleno século XXI, no Brasil, e as pessoas ainda acreditam na conscientização? Nada mais pseudo-pedagógico. Um ativismo que não parte do interno para o externo é uma demagogia, é ele que faz as pessoas crerem em algoritmos prestímanos, como se a sociedade fosse feita de ursinhos carinhosos.
     O povo não entende mais a linguagem da delicadeza, da civilizicidade, da homeopatia. Panfletagem, passeatas, discursos calorosos, artigos científicos, não fazem nem cócegas na falta de dignidade de certos políticos ou de certas pessoas. Não se retira um tumor no estômago pelo umbigo. Chegamos ao ápice da frieza humana. Ainda sofremos de uma metafísica lepra que nos extrai a sensibilidade. Anestesia geral!
       O que me pergunto é: quando foi que enterramos nosso melindre? E onde? Só nos cortando fora uma perna ou um braço para sentirmos que fomos feridos? Pequenas incisões são inúteis. Bisturis não adiantam mais. Machados sim.
    Alguma coisa precisa estar prestes a acontecer, ou continuaremos gritando nossas reivindicações acobertadas por ativismos inúteis, recebendo como retorno apenas o eco de nossa própria voz.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Sobre eu e Deus


S E N S U A L I D A D E 
B E T H Â N I C A

Banksy - Jesus Shopping

    Como se as rochas se diluíssem e houvesse uma saída ao meio do céu, como se todas as precipitações atmosféricas fossem suficientes para limpar a porquice de determinadas purezas, como se solidões juntas formassem companhias, como se as alegrias possuíssem botões de stop e start, como se os poços fossem rasos, como se violinos fossem tocáveis por qualquer leigo, como se as corrupções se transubstanciassem incorruptíveis, como se o moinho dançasse os pedestres, como se o terremoto remontasse o já destruído, e não desmontasse o construído, como se Deus tivesse voz física e verbal, como se houvesse sintaxe e fonética na solidão do criador, como se recreássemos o Pai, já que o filho já fora criado, como se evangelizássemos nossos demônios, catequizássemos nossa mesquinhez, como se ensangüentássemos nossos desertos e secássemos nossos coágulos, como se fizéssemos hemorragias na nossa falta de amor, como se convidássemos mais as pessoas para dançar ao invés de convidá-las para discutir a eclíptica da astrologia ou a epistemologia de Kant. Como se elegêssemos reis e não soberanos, como se ouvíssemos santos e não santificados, coisas sagradas e não diáconos pedófilos, pais e não padres, como se comêssemos a coisa e não seu simbolismo, como se entendêssemos que zênite é o ponto na Esfera Celestial que está diretamente sobre a cabeça e que uma linha que vai do centro da Terra através do observador irá até o zênite, se entendêssemos que isso não importa, se parássemos de louvar os pastores e percebêssemos mais a eloqüência das ovelhas, se deixássemos de comer apenas o filé mignon dos homens e percebêssemos o sabor divino dos seus miúdos, se parássemos de celebrar o crucificamento de um ser, se entendêssemos que morrer de felicidade também pode ser um gesto heróico, se morrêssemos de felicidade, se felicidade matasse e não apenas a consternação. Como se parássemos de executar a semiótica do vácuo, como se parássemos de nos gabar pela nossa dureza como sinal de maturidade, se reproduzíssemos mais bondade e menos filhos para sanar nosso desejo de sermos imortais. Como se nos permitíssemos sentir desejo pelo o que temos desejo, e não pelo o que nos pedem para desejar, se parássemos de construir um mundo perturbado, se nos queimássemos de lua, se parássemos de acasalar e fizéssemos mais amor, se fizéssemos amor com almas e não com porras, se não tivéssemos assassinado nossa infância e suicidado nossa criança, se deixássemos de crer no sobrenatural e percebêssemos mais o poder do que é banal. Se soubéssemos a cor dos olhos com quem estamos a falar. Se pavões voassem, se anjos fossem quadrúpedes, se amanhã chovesse. Quem sabe assim não pegaríamos de volta a plenitude de Deus, e devolveríamos a sua doce insanidade.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Sobre as tontices humanas


A doce cadeia alimentar dos homens
  Algumas pessoas passam em nossa vida e dão descarga. É literal. Atenção: o texto será pedante. Mas o pior de tudo é que além de pedante, ele será rigorosamente literal. Quando digo que de fato somos jogados na latrina e encaminhados para o esgoto, em determinado momento somos coagidos a pensar: estou sendo vítima dessa descarga ou eu mesmo facilitei para que um dia isso calhasse? O fato é que, em algum momento da sua vida, alguém vai dar a descarga em você. Mais ou menos como se um dia você houvesse sido um rega-bofe singular, uma champanhe francesa saboreada, digerida e ejetada como a mais ordinária coxinha da esquina. Sejam nas relações amorosas, amistosas ou parentais.
    É mais fácil expurgar um ser humano do que soltar um felino em um bosque porque ele mijou no seu sofá ou lhe arranhou as canelas. É mais fácil porque o ser humano é descartado educadamente, socialmente. A priori, ele é ignorado, com total moralidade. O sujeito que aperta a descarga jamais se sentiu ou se sentirá culpado, porque ele exclui dentro da lei, das leis humanas.   Ele te caga sem exalar maus odores. Te defeca amorosamente. Para alguns representamos um passado a ser esquecido e, por isso, somos descartados. Para outros, somos símbolos de um futuro não condizente com a projeção feita, e engendramos um verdadeiro desastre de abalos sísmicos irrelevantes. E ainda, tem aqueles que simplesmente nos eliminam sem motivo algum. Esses, são os mais corriqueiros.
    A bem da verdade, o que dói mesmo é que nós, na qualidade de fezes, de sedimentos, sentimos o peso dessa latrina, desse WC, desse toalete, do saneamento básico da República Federativa do Brasil inteira. Porque apesar de não sermos mais amados (e algumas vezes nem deixamos de ser) continuamos amando, sentindo saudade daquele sistema digestivo que durante tantos anos nos confortou com sua doce bílis da promessa de que aquela amizade, aquele amor, aquele beijo, seria pra sempre.