segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Sobre a beleza da covardia


Ruven Afanador

R É S
       Talvez eu seja uma das poucas pessoas que não goste de Natal, de ano novo, tenho uma sensação que esse rumor da renovação não é tão verdadeiro. É como se nessa época todos fossem obrigados a ser felizes, a adotar a irmandade, a anistiar nossos oponentes, a acreditar que tudo será diferente no ano próximo. Mas não sei por que, é nessa época em que mais se esboça a solidão dos homens, ou quem sabe, a solidão DoHomem.
Tenho certeza que minhas vivências pessoais e percepções ultra-subjetivas não interessam em nada. Mas queria tomar nota deste ano, pois de certo, estamos sempre fazendo isso: uma tomografia das nossas ausências, um Raio-X do que não houve, um check-up do que poderia ter acontecido. Lateja mais o que faltou. É coisa humana.
O fato de estarmos esburacados, já não incomoda. Uma hipótese é que apenas a destruição total pode nos abalar, ou nos fazer titubear um pouco. Um pouco, ao menos. Precisamos do genocídio para provar nossa humanidade. Pequenas fraturas não nos comovem mais, nem nos impedem de ignorar o sangue esparramado e seguir em frente, caminhando... De cabeça erguida e alma ao rés.
Acordamos com as mesmas expectativas de quando éramos crianças. Apesar da realidade desapiedada, nos primeiros cinco segundos após a abertura das pálpebras, uma esperança nas coisas já desenganadas temos na maior preservação. Mas não mais a partir do sexto segundo. Do sexto segundo em diante, tudo está perdido.
Mas não é porque tudo está perdido que não continuamos. É claro que continuamos. Alguém nos disse que precisamos continuar. Talvez tenha sido na TV, talvez foi o padre quem disse, talvez eu tenha ouvido isso numa propaganda de refrigerante, talvez algum namoradinho do passado, talvez mamãe, talvez papai. Isso está estampado a todo tempo em todos os cantos da cidade: você tem que continuar. Você precisa. Continue! Continue!
...E em um determinado momento, tão simples e tão rápido, tudo o que precisamos ouvir é: você não precisa continuar, se não quiser...
Quem sabe assim não perceberíamos o que nos faz ainda estarmos aqui? Insistindo, absolutamente loucos, absolutamente pirados, absolutamente embevecidos por essa ideia de conseguir um lugar ao sol, quando tudo o que nossa pele tem precisado, é de luz lunar. Mais suave, menos opressora, menos reacionária, menos fundamentalista, menos unilateral, menos explícita, menos democrata, menos ríspida, menos aguda.
Talvez eu queira ter dito isso para mim há algum tempo atrás. Se pudesse me encontrar mais novo, me sentar num balanço colorido e dizer: “calma, você não precisa ir para frente, se você não consegue, se você quer parar por aqui”. Ninguém nunca nos diz que podemos simplesmente desistir. Por que desistir é tão feio? Por que precisamos sempre ser vencedores, quando já desistimos de jogar? Há tantos caminhos, mas alguma coisa muito cruel nos leva a sempre atravessar o mesmo, e ainda ter que sermos felizes. 
Estamos todos cansados de precisar ser bem sucedidos. Alguém por favor, entenda: nós também fracassamos.

domingo, 28 de outubro de 2012

Sobre a utilidade do inútil



O mito
da escola particular

          Eu ainda estou tentando entender quem foi que disse que ensino privado é automaticamente melhor do que ensino real. Quem foi que disse que os esquizofrênicos professores de escolas particulares, que por ora mais se assemelham a palhaços em cursinhos pré-vestibulares, estão promovendo o conhecimento com aquele vômito de informações que só querem formular uma manada de rostinhos no caderno de aprovados?
Outra questão interessante é que os alunos passam a vida inteira estudando no ensino privado. Que ótimo que seus pais possam pagar por seus estudos. Daí, de repente, na hora de entrar na faculdade, todas essas famílias ficam pobres e são obrigadas, paupérrimas, a por seus filhos numa universidade federal. Que dó. Sou contra a piedade institucionalizada das cotas para negros, mas extremamente a favor das cotas para alunos que estudaram toda a vida no ensino público. A universidade pública é a personificação da ausência de democracia, esse pequeno tumor brasileiro.
Quando ganhei uma bolsa para cursar o primeiro ano do ensino médio em uma escola particular, não suportei três meses. Estava gastando um monte com cópias inúteis de livros “mais conceituados” para ter aulas com professores iguais aos do ensino público. Essa ideia de que quantidade faz qualidade é tão obsoleta, é tão enternecedora. E o pior, a gente continua achando que está aprendendo!
Obviamente que tive professores retardados no ensino público, mas encontrei muito piores no ensino privado, principalmente em cursinhos de vestibular. Alguns “docentes” chegavam a ser preconceituosos, porque quando iam falar de outra cultura, se apegavam a estereótipos como se eles corroborassem essencialmente o que estava sendo estudado, as vezes só para aparentarem ser espirituosos. Parece que é mais importante fazer a manada rir com suas piadas pseudo-científicas, do que fazer a manada conhecer e não ser apenas um depósito das suas informações ruminadas para formar bestas acadêmicas.
Mas também tive professores incríveis no ensino público, que apesar de lento, me dava ao menos a sensação de que o conhecimento estava entrando no ritmo do meu cérebro, e que eu não estava aprendendo apenas para entrar na faculdade. Já está provado que vestibular não testa inteligência de ninguém. Uma vez, o escritor Mário Prata em uma entrevista disse que respondeu as perguntas de um vestibular feitas com um texto seu. Resultado? Ele errou todas as questões. O verdadeiro conhecimento não suporta espora nem arreio.
Uma advertência: é preciso deixar claro, apesar de óbvio, que esta é a minha opinião, baseada nas minhas experiências.
Tenho uma sobrinha que começou a vida escolar no ensino privado. A impressão que tive é que as crianças privatizadas são instituídas dentro uma bolha, porque o mundo real não pode ter a chance de lhes tocar com sua promiscuidade e ignorância orgânicas, apenas o mundo perfeito onde só existe pirulito, Jesus Cristo e Monteiro Lobato. O pior é que quando saem da escola, essas crianças continuam envoltas de uma micro-bolha privada, com a leve impressão que podem dominar o mundo. Agora minha sobrinha está no ensino público, e confesso que está muito mais inteligente. Será porque no ensino público professor não tem a obrigação de mimar aluno e criá-lo como se ele fosse o próximo Robinson Crusoe?
Nossa educação brasileira é miserável? Sim, é miserável. Mas temos também que dessacralizar o ensino privado, porque ele não é tudo o que prega ser.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Sobre o que Alejandro Jodorowsky tem a ver com Bento XVI


Robert Mapplethorpe - White Gauze, 1984


RITUAL
URBANO
DO
ABANDONO

          Após um correr pelo apartamento atrás do outro com uma faca de pão suja de Qually, eles finalmente se aquietaram. De fundo toca Nana. A noite se descortina em estrelas opacas. Pelo vitrô, o mundo arde espargindo tesão morto.
“¿Cómo podrías recordar mis caricias si cada noche cambias de piel?”. Ele falou afetado, citando a bosta daquele escritor chileno outra vez, o tal Jodorowsky. A faca de pão está caída, a margarina besunta o taco velho. Feito uma dama malhada sobre a alcatifa.
“Pelo menos parou de ler aqueles pervertidos. Estava ficando igual. Torpe igual”.
“Me passa o cigarro”.
“Não”.
“Me passa a porra do cigarro!”. Ele gritou de novo, não acredito que ele gritou de novo.
“Por que você gritou de novo?”.
Alguma coisa pairou. É como se uma gota de quartzo houvesse rompido a estratosfera e caído entre eles lentamente. Feito a bomba de Hiroshima. Japoneses radioativos correm para a beira do rio.
A bomba cai. Como um guardim. A embarcação tomba. O mastro quebra a proa. Alguns tripulantes pulam no mar.
“Você estraga tudo sem deixar vestígios! Nunca vi alguém que pudesse devastar uma metrópole inteira sem ninguém perceber. Você estraga tudo sem deixar vestígios!”.
“Você está longe de ser uma metrópole inteira. Quer?”.
“Enfie esse scotch maldito no nariz!”
(...)
“Você tem a delicadeza de um búfalo no cio”.
Glândulas lacrimais eriçadas. Vou chorar. Não devia, não deveria. Não deverei. Não vou. Covarde. Segura. Não seguro.
“Não se humilhe assim, não chore pelo lei...”
“Sou totalmente ateu para esta tua divindade, é profana! É profana! Já não me destrói mais a tua predominância! Eu nado nesse rio de leite derramado, morno, coalhado, fétido, e tu és uma vaca de largas tetas frouxas!”
Os dois se calaram outra vez. Glândulas lacrimais em processo de derramamento. Lubrificação ocular executada com sucesso.
(...)
“Aequam memento rebus in servare mentem”.
“Para de falar essa língua que eu não entendo! Você e sua mania de achar bonito não ser compreendido! Dane-se o latim, dane-se Bento XVI, dane-se o Vaticano, dane-se a Renascença, os carmelengos tristes e solitários, os presbíteros ortodoxos punheteiros da Bulgária, a capela Sistina e aquele neurótico do Michelangelo! Bota Janis Joplin pra tocar no lugar desses insuportáveis cantos gregorianos, frios! Dane-se os cônegos tarados da Itália menor! Nada disso tem valor se aqui está tudo apodrecendo!”
Em algum lugar do mundo, um vagão se desprendeu do resto de uma locomotiva e descarrilou por planícies baixas.
“Eu te...”
“Para!”
“Eu te am...”
“Estúpido! Masoquista! Inferno! Sinistro! Para de se torturar! Para de se torturar! Para de se torturar!”
Alguma coisa pairou. É como se...
A Nana está louquinha. É aquele disco que nunca acaba? A Nana enlouqueceu.
“Sim, é aquele que nunca acaba.”
“O que?”
“O disco, é aquele que nunca acaba.”
É como se...
Outro silêncio. Eles surgem como militares, não respeitam meritocracia. Até porque não há mérito. Esses silêncios surgem como cães, lambuzando as âmbulas, despetalando as flores. Glândulas lacrimais descontroladas. Um tiro cego numa terra escura de balas claras. Olhei para a faca de pão suja de margarina. Eu lebre, tu coiote. Eu jacaré, tu lince. Eu nocivo, tu santo. Sistema límbico epilético. Meu mundo é de erupções inúteis.
“Você me queimou com o cigarro”.
“Eu sei”.
(...)
“Eu detesto esse seu perfume, me lembra cheiro de spray Karina com pinho”.
“Compreendo...”.
Simples assim.
Alguma coisa pairou. É como se...
E eu chorei.
E ele chorou.
(...)

Ele toma banho.
Queimando enquanto ele toma banho tudo de Jodorowsky.
Se não fosse esse Jodorowsky nada teria assim se sucedido.
Há Jodorowsky queimado no tanque.
Muita fumaça.
E essas lágrimas não apagam esse fogo.

E não apagam esse fogo.

E não apagam.


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, em 21/10 no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)