sábado, 29 de setembro de 2012

Sobre a carne


V o c ê  e s t á  n o  s e u  c o r p o ?

Robert Mappelethorpe
Já parou pra pensar que você pode estar em todos os lugares, menos no seu corpo? Que há algum tempo você o abandonou para glorificar suas decisões mentais, espirituais, amorosas e odiosas? E que ainda finge não saber o porquê das suas doenças e dores inexplicáveis? E que não entendeu que as contas e mais contas ao fim do mês com ansiolíticos, dipironas, pingas, sibutraminas existem tão somente porque você não vive mais dentro do seu próprio corpo?
Não: ir à academia e se seduzir no espelho não é morar no seu corpo. Enrijecer os bíceps com halteres também não é, bem como ouvir dicas de estagiários de educação física que só estão dentro das academias para exibir seus excitantes músculos; caminhar em volta do Country ou da Miguel Rossafa para exibir suas novas helancas e lycras pode também não ser.
Morar no corpo vai muito mais além, porque implica em compreendê-lo, em decifrar suas mensagens, aceitá-las e abdicar de um vício cerebral ou físico para o bem da nossa anatomia, do nosso íntimo. Nunca entendi, por exemplo, uma religião que não se importasse com o corpo, porque é ele a única porta para o que temos de mais profundo e sagrado. Então ignorá-lo para transcender, é transcender pela metade. Ou quiçá, não transcender.
Também nunca entendi como as pessoas têm tanta coragem de confiar nos médicos assim. Por ora, essa entrega plena à medicina as vezes me parece loucura. É como alguém que confia tudo a Deus e se esquece de fazer. E de fato tanta gente compara muitos médicos a santos. Santos enquanto você estiver enchendo seus bolsos e houver droga suficiente no mercado lícito.
Outra questão é que agora virou moda pilates e yoga, é um luxo praticar. Que bom, mas não acho que isso implique necessariamente em alguma coisa, apesar do mundo oriental realmente há milênios ter sabido lidar melhor com o corpo e com sua alimentação física e metafísica do que nós. O porquê, só escrevendo um alcorão metabólico para concluir.
Entretanto, percebi muito claramente: as vezes fico meses sem lembrar que tenho corpo (já fiquei anos). E quando regresso para dentro de mim (e isso pode acontecer correndo, me alongando, orando ou simplesmente inerte sobre a cama) percebo que voltei a viver. Porque não há inteligência sem a pele. Não há religião sem os músculos, não há Deus sem os ossos.
Sonhamos em ter o corpo do outro como se o outro tivesse o mesmo avesso que nós. E achamos que é saudável alcançar esse ideal degenerativo. A cada vez que nos apegamos à meta de chegar a um padrão, é um passo para trás que damos na caminhada de sermos nós mesmos, ou estarmos em nós.
Obviamente, que uma pessoa pode se cortar inteira com um cirurgião plástico em busca dos arquétipos mais míticos e estar ao mesmo tempo aconchegada e inerente a sua própria pele, consciente da sua estrutura, linguagem corpórea e necessidades orgânicas. Entretanto, a maioria só está se cortando, levantando barras de ferro neuroticamente para se auto-exorcizar de vez em busca de uma carcaça mais exemplar, mais passível de causar ereções e enrijecer mamilos. A saúde mesmo ficou lá atrás.  
Se a gente entendesse que nosso corpo é a estrada capital que leva a nós mesmos, ou ao que chamamos de Universo, ou ao que chamamos de Deus, ou ao que chamamos de Felicidade, certamente seríamos menos masoquistas e levianos, menos tarados e pervertidos pelo senso estético imposto, menos irresponsáveis com nosso instrumento de viver.  


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, em 30/09 no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Sobre anatomia


“O cú de uma formiga é mais importante do que uma usina nuclear”

A frase que intitula este artigo é de um poeta chamado Manoel de Barros. Nela me interessa a formiga, o cú, a usina e o núcleo. Impossível, sendo humano, não passar por um momento, ou mesmo um átimo de segundo na vida, em que abrimos a porta e tudo se tornou gigante, e nós, insetos. E que precisamos aprender: estamos sozinhos, acabou papai, acabou mamãe, somos pequenos artrópodes no coletivo e facilmente substituíveis. Animais sem pedigree. O vento quase arranca a cortina dos trilhos, arrasta a chaleira sobre as bocas do fogão. Eu que é bom, não. Só na hora de ser arrastado pelo vento é que voltamos a ser grandes, só na hora de voar, é que somos pesados demais. E essa grandeza nos dana.
Nobreza para que? Nossa família não nos ensinou a sermos insignificantes. Saímos de casa com uma imprecisa impressão que algum naco de chuva temos a acrescentar no deserto, que seremos vistos pelos nossos feitos e que somos únicos. A verdade é que, fora das ruas provincianas, poderemos andar com uma melancia pendurada no gargalo ou uma bigorna amarrada nos colhões, com um batom escarlate bosquejado de uma orelha a outra ou virar a Monga em retrovisores de automóveis que ninguém irá dar a mínima. E negar a necessidade de ser percebido é negar a própria existência humana.
Sim, tentamos tudo isso: melancia, bigornas, batom, roupa de neon, macaca, ilusionismo, andamos pelados, declamamos O Manifesto do Partido Comunista em cima do balcão de uma loja do Mcdonalds, inventamos alguma parafernália teletransportadora, ficamos bonitos, sadios, halterofilistas, espiritualizados. Nada. Ainda sim, seremos só mais alguém tentando chamar a atenção de algum apóstolo contemporâneo.
Do ponto de vista poético é lindo que o cú de uma formiga seja mais importante do que uma usina nuclear. Mas do ponto de vista humano, é torturante. Porque, no fundo, o cú de uma formiga é realmente mais notório do que nós, em um planetinha forreta como esse em que somos medidos pelo que fingimos ter, e não pelo que realmente temos. Loneliness pocket, do mais, a não ser as jubas da sociologia do inexistente ou as aleluias do sonho, somos mosquitinhos cristianizados. Queremos ser vistos pelo terreno, o olhar perpétuo do divino já não nos sacia. A transcendência nos enfada, precisamos da consagração da matéria. Interessa-nos mais a celebridade do perecível. Ou seja, queremos que o passageiro nos dê importância, ao passo que lutamos dia a dia pela eternidade física.
Minha mãe sempre disse – se comparando aos astros de cinema, grandes músicos ou poetas – que seu anonimato lhe incomoda. Incomoda passar por essa vida e não deixar algo de super importante pra humanidade, sermos valorosos, quase míticos e especiais, ainda que abaláveis. Seremos lembrados apenas por micro-heroísmos, em um círculo bem estreito de conhecidos. Depois de mortos talvez ganhemos um lugarzinho na estante de alguém que diga: “aquele fulano era bacana, né?”
Não espere mais nada além disso. Adélia Prado e Ernest Becker já alertaram: o heróico é no pequeno. Super-homem está sofrendo de esclerose múltipla e respirando com ajuda de aparelhos, usando fraldas geriátricas e sendo alimentado por sondas.
Aqui dentro somos astros, lá fora somos ratos.
Não é a toa que nos amamos.


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, em 23/09 no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Sobre a transcendência da fome


Comida não é pasto

Foto - Robert Mapplethorpe

Desde criança gosto de ver as pessoas enquanto comem. No silêncio, apenas mastigando e sentindo os sabores (dos mais simplórios aos mais rebuscados) parece que se revelam. Não se pode mentir enquanto se come. Pode parecer que estou psicologizando, mas não, nada mais do que uma nota.
O safado tem um jeito de comer, a virgem, o hilário, o depressivo, o perdido, o sensato, o ignorante, o astuto, o vagabundo e o operário. Porém mais do que um Ser, gosto de ver o Estar aflorando. Parece que é a hora do dia em que a vida dá uma pausa para que se ouça o som ou a ausência de som que vem de dentro. Detesto conversar enquanto como, prefiro escutar o que aquele alimento está a me dizer.
Primeiro de tudo, comer é uma coisa linda. Adoro os prazeres da boca, todos. É na boca que começa o labirinto do nosso corpo, e é por ela também que moldamos nosso ser e recheamos nossa forma. Óbvio que na loucura dos dias não ficamos libando especiarias, apenas enchemos a barriga, e graças a Deus.
O alimento às vezes está nos momentos mais importantes da nossa vida... Seja no chá de bebê, ou naquele pão com mortadela servido nos velórios, quando se ouvem até os farelos se espatifando ao chão como caquinhos de vidro. É no jantar entre duas pessoas que se amam, ou é enchendo a boca de duas pessoas que não se suportam ouvir mais.
Pode parecer tolice, mas quando cozinho para alguém, sinto que é um aceno de afeição, quem sabe um apego dos mais salubres. Quando cozinho para quem amo, o que estou a dizer é “Eu te amo”. Não é patriarcal, não é matriarcal. É diligência.
Do mesmo modo, adoro ser alimentado por quem amo. Não precisa nem ser um prato peculiar, até mesmo aquela bolachinha sonsa de água e sal com manteiga levada na cama num monótono domingo pode ser uma delícia, um presente. Sou meio gato: me alimente e serei eternamente seu.  De feijão, de sims, de nãos, de sexo, de desespero, de sexo, de aleluia, de medo, de alucinação, de chata rotina, de pimenta, de Deus e de força. Em suma, me alimente de vida, e pronto, ganhastes um animalzinho de estimação. Mas necessito de tudo isso.
Farei questão de olhar pro seu rosto bonito e imperfeito enquanto você come, fixar meus olhos bem lá dentro dos teus, de uma maneira enigmática dizer sim... sim, tudo isso ao nosso redor é verdade. Sim. Fizemos isso como a preparar uma lasanha, camada por camada. Conheço teus segredos mesmo sem saber espalhá-los, sei o que te faz rir, e o que lastima. Sei que hoje, apenas te vendo comer, teu mundo está do avesso, ou empolgante. Sei dos teus sonhos mortos e das tuas esperanças reanimadas.
Terminamos de comer, nos abraçamos no sofá.
Como é bom sentir às vezes que o pouco quase nada que temos, é um muito quase tudo. E vice-versa.


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)


Sobre os patrões



Já tentou estrangular 
seu patrão hoje? 


Temos nos punhos fechados uma herança escravocrata importante. O brasileiro até hoje se sente escravo em busca de uma terra áurea. Por milhões de motivos, mas entre eles, o mais óbvio e ululante: temos que ir ao supermercado e nos proteger da chuva e do frio. E é exatamente por isso, que os olímpicos feudais deitam e rolam. E os escravos, que hoje possuem um nome mais ajeitado, funcionários, ainda gentilmente acreditam no que os senhores da Corte falam. E os senhores da Corte, possuem uma interpretação extremamente requintada das leis trabalhistas, convenções coletivas e seus dissídios.  Eles sabem enxergar nas entrelinhas dos direitos dos escravos (sim! Eles têm até direito e sindicato minha gente!) coisas que ninguém vê. Esse é um donativo dado por uma entidade misericordiosa greco-romana talvez, dos Alpes suíços Dufourspitze, uma galáxia espiral ou do Leste Europeu, quiçá da cloaca de uma galinha frígida, sei lá, que só empreendedores possuem. Alguns, inclusive, detém laços apaixonados com um tal de Ministério do Trabalho, coisa muito fina, embora eu ache a relação um pouco incestuosa. Mas amor é amor, rompe barreiras e será sempre insofismável.
Bem, mas o interessante mesmo de notar é que os senhores da Corte não apenas possuem uma interpretação de hipopótamo, como são agraciados também por uma oratória e eloqüência sublimes para com os seus “funcionários” (que nome mais forte) na hora de lhes dizer sobre os seus direitos. É coisa linda de ver.
Ah, e é nessa hora que entra o Complexo da Ingratidão (Complexus ingratudineun), um microorganismo comparado a Peste Negra e a gripe do porco ainda sem vacina no postinho de saúde. Como questionar este homem tão bom? Que me deu essa chance única de ser um Funcionário?! Não, jamais! Esses sindicalistas são uns pervertidos! Ainda mais com este Homem idôneo, probo, judicioso, que me garante o pão de cada dia! E tudo que eu tenho que dar para ele são apenas (meu deus, como ele é Grande!) oito horas de uma simples mão de obra por dia, porque até mesmo o lucro não lhe chega por estes punhos enfastiados e comuns (toda esquina tem um desses), mas sim pela confiança e contentamento do freguês. Ah, se não fossem os fregueses, que abrilhantam toda a Corte! Os f-u-n-c-i-o-n-á-r-i-o-s (essa palavra é pior do que o alemão dos teutônicos) que hoje, com a história do politicamente correto viraram c-o-l-a-b-o-r-a-d-o-r-e-s (agora virou um livro de Nietzsche), são apenas uma vil escadinha que eleva a beleza dos senhores.
Os Senhores (permita-me Deus) são equiparáveis à vossa magnitude. Qual padre, qual monge, qual nada! São os senhoris da Corte o elo mais fidedigno entre este holerite de um salário mínimo de merda e a terra prometida. Viva os patrões!


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

domingo, 16 de setembro de 2012

Sobre a puta



Diário de uma puta decadente
Least Developed Countries 
Ou 
reminiscências da cuisine faible
Ou
A história de uma puta que ouvia Fábio Junior e gostava da palavra “pernóstica”


Foto - Robert Mapplethorpe

Já diria Lobão: decadence avec elegance, e vice versa, no meu caso mais versa do que vice, vixe? Confesso que já me despi de todos os meus inutensílios e as minhas inutensilidades, como falou aquele poeta, que se parece com meu finado avô, como é o nome dele mesmo? O fato é que um dia já fui uma puta emergente, subdesenvolvida, membra do Mercosul, da Alca, bilíngüe até.  Fiz união aduaneira com os mais belos órgãos genitais (agora que estou fazendo curso técnico não falo mais pica e palavras de baixo calão, pretendo lagar essa vida e virar cuidadora de idosos). A verdade é que hoje eu sou pernóstica. No mais, moro num kit net pernóstico, como eu. De bitch pra cocota.
Já sonhei com asteróides fosforescentes saindo da boca de um conde montado em uma égua metálica de asas de algodão ao pronunciar sua ternura por mim, com beijos fulgurantes. Hoje, me contento com um simples “boa noite” e costas na cama. E é no avançar da madrugada que as costas dele tornam-se uma muralha da qual nunca consigo atravessar. O lado de lá é quase que um parque de diversões hermético, um playground interditado. Mas a gente aprende a fazer dobradinha com os miúdos que a vida nos oferece.
É também de costas para mim que eu conto as vértebras dele até dormir. Um dia foram carneirinhos coloridos... Assim como um dia, fui uma puta anglo-saxônica. Hoje sou salsicha com pão. Mas não faz mal, o que é uma cuspida na goela pra quem já brindou com saliva?  Heim? Heim?
Decidi. Agora só extraio deslumbramentos das coisas rasteiras. Um dia, quando tentava me arrebatar com o monumental, acabei amando é as migalhas. Neoliberalismo do corpo, meu bem, o refúgio dos que apenas se taiaram na província do amor. “Quand on est dans la merde jusqu’au cou, il ne reste plus qu’à chanter.(*)”
Falando nisso, acabou meu Lítio 100mg.
{...}
Certa vez ele me levou para comer haggis escocês, um prato onde são cozidos dentro de um estômago de carneiro, pulmões de vaca, seus intestinos, pâncreas, fígado e coração, com cebolas, gordura, rim de boi e aveia cozida. Diga-me, um homem que leva sua amante para comer pulmão de vaca, merece seu amor? Golfei três dias, mas comi finamente, arguciosa e pernóstica. Ele comia isso em todo ano bissexto, não me pergunte a razão. Só sei que desde menina (ou menino), só me envolvi com tipos grandiloqüentemente pirados.  Até que um dia me apaixonei por uma monja lésbica em um templo budista. Foi lindo. Ela talvez tenha sido um dos subterfúgios mais puros dessa minha confusão, quando visto as roupas, me limpo e vou pro mundo real, onde monstrinhos desumanos de paetês e abortos bem sucedidos de gravata vagam pelos calçadões ao meio dia. Teratologia pura meu bem. Sabe o que é teratologia? Eu te explico gracinha. É um ramo da ciência médica que estuda as causas, mecanismos e padrões do desenvolvimento anormal. Sou teratogênica, meu doce. Quem me vê por dentro, pensa que nasci de gárgulas, e não de mamãe. Mas isso tudo porque as pessoas costumam ver no outro primeiramente o que as eleva e as torna um pouco melhores, procuram ver o que fede em ti, só depois de saciadas olham pra tua beleza. Sou puta, mas ouço Fábio Junior, doce.
Obviamente (ou talvez não tão obviamente) que a monja não me quis, apesar de todas as minhas indiretas pernósticas. Já estava virando Buda, e nenhum alento, a não ser a luz tecnicolor do templo refletindo em sua careca quase translúcida, de tanta astúcia. Enquanto isso eu ficava zarolha de tanto zazen a imaginar um Beto Carrero World embaixo daquele rakusu.
{...}
Nenhuma cabeça atingiu tantos nirvanas como a minha, ao passo que se abria um lótus, uma mandala entre estas pernas, tamanho agrado e benignidade que tinha eu por aquela mulher. Amar as vezes nos custa os bagos, ainda que você não os tenha mais. Desisti e voltei pro templo das putas: as alamedas sob a luz anônima do luar. Bonito isso de luz anônima, é bom escrever pra usar com sujeito fino. E eis que cá estou, no meu santuário a céu aberto, asfáltico, com um Tilibra frouxo e sujo nas mãos a escrever meu evangelho underground (...). Não que puta não possa comungar.
O que falar do resto? Só a querer me usar como se eu fosse uma personagem de Jorge Amado! Sem pronúncias, por favor. Eis os restos: eu mesma, filha de um holocausto particular. Sou hoje o que sobrei de mim, a parte que não quiseram comer, que deixaram pra mais tarde, e azedou. Macrobiótica pura, meu doce. A narrativa do meu corpo é a história da gastronomia suburbana, beatnik-vietcong total. 
O fato é que, inevitavelmente, mesmo puta e subdesenvolvida, asteróides fosforescentes saindo da boca de um conde montado em uma égua metálica de asas de algodão, ainda me atormentam as ideias.
{...}
No mais, cheiro de lavanda e batata frita no ar: eis o amor. Só lavanda e batata frita.
Enfim, um cliente.



(*) Quando se está na merda até o pescoço, não resta nada a não ser cantar – Samuel Beckett


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja em 16/09, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)