sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Sobre nós no nó


Intróitos do terceiro sexo 
e algumas considerações 
eróticas sobre o nada


 Gônadas, vias espermáticas, vesículas seminais, glândulas bulbouretrais. Epidídimo, pelve, pênis. Fricção entre os dois. Nó. E nós no nó. Céu em explosão, estrelas cascateando centelhas sobre as ondas do mar. Coraçõezinhos franco-atiradores se arremessando de altos prédios cinza cantando Non, Je Ne Regrette Rien antes de chegarem ao asfalto. Maré sobre os dois corpos. Oceanos de mercúrio entre as bocas. Altitude inexplicável. Latitude formidável. Carnes agregadas, pacto de sangue. Barbas conjugadas, entrelaçamentos definitivos entretendo dramas. Sensação fluvial de desespero manso, desespero sob controle. Fogo controlado. Chamas compactas, solidão a dois no nível permitido. Um dia teremos filhos? Inundação seca.
Já ouviste sobre o terceiro sexo? O válido sexo, o que foge dos feminismos olímpicos e dos machismos transcendentais. O que foge da nudez irreal, dos transgêneros da moda.  O culto à vagina fora da Ilha de Lesbus, e a veneração à ereção fora da viadagem sem sentido. A Bissexualidade do Mundo e a Bipolaridade do Mundo. Os desejos ancestrais debelados. A sétima vogal. Onde homem que beija homem ainda é homem e mulher que beija mulher ainda é mulher. Fora do nazismo evangélico (perdoem-me os bons protestantes que nunca conheci), ou de qualquer outra entidade cruel. Porque é cruel.
O desejo que dói, que nasce espezinhado pela moral da próstata.
Um desejo que nasce abortado. Escandalizado. Escatologia sentimental. Minha heresia religiosa neste momento é pura como um amor puro. Meu desejo amordaçado faz-me pagão porque fizeram nacional-socialismo nos meus afetos.
São as indelicadezas de quem se agrada sexualmente com as escrituras pondo palavras na boca das entidades. Criam um Deus perverso e assassinam-no em uma cruz simbólica de ignorâncias sexuais.
Meu amor é arrítmico como uma bomba que explode para dentro e não faz escândalo nem quebra paredes.
Criaram a moral divina conforme suas covardias. Um Deus apócrifo. Esquecemos de simplificar Deus à sua essência. Mal conseguimos compreender suas trivialidades, e queremos complicá-lo e destrinchar sua psique. Neurastenia pura. Não deites Deus em um divã, meu caro, quem precisa de ajuda, és tu. Do mesmo modo, não botes Maria no teu colchão.
Sou ateu para todas essas formas cruéis de Deus, todas essas moralidades suicidas, essas impiedades vazias. Um ser doente e mau. Seja esse ser superior fundamentalista ou esse ser superior viciado em procriadores, como se reprodução garantisse alguma poltrona no poleiro das teologias modernistas.
Já ouviste sobre o terceiro sexo? Nó. Somos nós no nó.
Apenas nós, fatalmente, no nó.
A cauda do espermatozoide se degenera, e seu cromossomo se condensa ao ovócito após este sofrer meiose. Depois, todo o zigoto sofre meiose, apresentando, ao final, 23 cromossomos maternos e 23 paternos.
Non, Je Ne Regrette Rien.

domingo, 26 de agosto de 2012

Sobre o horário eleitoral gratuito


Os vômitos do horário político


Fique atento para os seguintes horários: 13h e 20h30. Nesse período você poderá ser alvo na televisão de uma epidemia de burrice crônica. É o horário em que seres que acabaram de sair das cavernas começam a acordar em busca de uma presa. Um pouco menos desenvolvidos, porém mais inventivos que os australopithecus, os candidatos a vereadores e até prefeitos estão à solta no horário político.
São incrivelmente prodigiosos, em um piscar de olhos constroem escolas, acabam com os bandidos, curam o câncer, inventam um Zé Gotinha pra Aids e são categoricamente contra a corrupção, com a lavagem de dinheiro, peculato, pobreza, enfim, seres que merecem ser canonizados.
Todos eles saem das grutas neste período do ano com uma capacidade intelectual comparada a de uma ameba medieval com dislexia. São candidatos, mas na maioria das vezes não conhecem a função de um vereador e prometem coisas do Executivo, inventando um Quarto Poder: o poder da safadeza ingênua. São ótimos em acabar com o desemprego também, afinal, são dotados de uma força superior cósmica. Possuem uma dominância da língua portuguesa de vanguarda, conjugam os verbos em Esperanto e detém um ânimo inenarrável para mudar o mundo.
Ajudam a formar um Estado especialista em emburrecer o povo através de uma educação miserável. A única cultura que podem valorizar no poder é a cultura da ignorância. Certas candidaturas são já uma ofensa para o constituinte, e no horário político estão simplesmente mostrando a baderna em que se encontra o Brasil.
Após localizar o seu alimento, esses seres vivos infelizmente visíveis a olho nu - e que às vezes conseguem se desenvolver muito bem para a idade da Pedra Lascada ou período paleolítico - passam a seduzir seu almoço com uma provável realidade que deixa Alice no País das Maravilhas no chinelo. Como não querem só sexo, eles demonstram seu carinho e amor neste período do ano pagando uma conta de energia, fazendo um churrasquinho pra galera, dando uma geladeira nova. O nome científico disso é propina, também conhecido como compra de votos, mas, no caso deles, podemos denominar apenas que não foi só um coito casual.
É então que, após esse ritual de acasalamento, fincam os dentes no pescoço do eleitor e sugam até a alma. Em seguida, já eleitos, sugam os cofres públicos justificadamente não cumprindo, de modo óbvio, nada do que prometeram. É então que, por fim, após todo esse processo complexo de desenvolvimento, eles voltam para a caverna: a Câmara Municipal.


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja em 26/08, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Sobre a pornôpoética

P O R N Ô P O É T I C A



Já satirizei minha própria sânie, e foi assim que mais te enlouqueci ao te adorar.  Emporcalhei-te nos devaneios meus e ergui tua alma no pódio das minhas ruínas. Socializei tua dor de calcário nosso, e viajei teus sonhos pelos meus erros. Sustentei as suas esperanças nas minhas esperas, e esperei meu recreio no teu desalento. Fiz bruma na tua cidade abandonada, e aquarelei meus equívocos no teu cinza. Rochefort-sur-Mer, litoral da França. Um dia fizemos planos de estarmos lá, hoje odiamos a França e seus franceses porcos com suas tetas culturais de leitoa gorda. Doei meu prazer pro teu tédio, colonizei meu gozo com tua ausência de prazer. Vigiei teus planos absurdos e ignorei tuas arquiteturas erguidas. Ora te amava pútrido, ora te amava feto. Ora te detestava sonhando, ora te lascava amando.
Forcei demais a placenta e saí muito cedo do teu mundo. Tua razão foi um fórceps para as minhas infidelidades delicadas, e eu cedi. Cresci demais no teu interior, tuas células estavam se fundindo às minhas, meu sangue era filtrado no teu fígado e tua psicose ardia na minha mente. Eu mastigava com teus dentes e me deleitava com teu pênis, na tua aleluia o meu sêmen pálido, e não o teu.  Fui eu quem ingeriu teus alimentos preferidos, eu quem nauseei teus enjôos.  A minha arrebentação foi nas tuas vísceras, não nas minhas.
Fiz burgo no seu barraco, fiz Rochefort-sur-Mer nas tuas enxurradas e habitações de cartolina no deserto cálido do teu ego. Talvez até teus filhos eu tenha feito, parido teu futuro invertebrado em um útero masculino de ilusões amarelas.  Tuas lágrimas caíram foi dos meus olhos. Teu grito de dor saía da minha boca ao passo que minha velhice se refletia nos teus cabelos brancos. Envelhecemo-nos mutuamente, nos amando, nos nascendo e nos atirando de penhascos psicológicos.
Libertei teus cães presos, os canários deprimidos e as rosas de copo, as plantei num canteiro qualquer. Sim, aborreci tuas políticas eróticas e fiz putaria nos teus sacrários enquanto tu assuavas o muco do teu nariz nos meus sudários. Ofendíamos-nos no suor salubre de um amor sem precauções. Fiz pornô-poética das tuas purezas mais lindas e teus casticismos etéreos. Massacrei tua rotina simples com minhas perplexidades cartesianas. Fiz filosofia do teu nada e tu fizeste nada do meu oco.
Por fim, fiz país no teu pescoço e gruta na tua boca. Neles vivi abrigado anos a fio. Agricultura de subsistência pelos pêlos negros ao longo do teu corpo despido. Tu gemeste com minha distração, e eu surtei com tuas insanidades. Caminhei pela tua pele, porque durante tantos anos ela foi solo para minhas imaginações inúteis, enquanto tua paciência foi morada para os meus pavores.
É inverno. Vista teu gorro e tua luva. Acalme-se lentamente aqui, nestes braços, aqui. Eu me acalmo lentamente nos teus. Gorro, luva. É inverno. Braços. Lentamente...

Se não passar, a gente pula.

domingo, 19 de agosto de 2012

Sobre o diploma

O poder emburrecedor do diploma

Já deixo claro, não sou contra quem passa algum tempo de sua vida em uma universidade. Parabéns pra você. Mas me dizer que formação acadêmica configura intelectualidade e superioriza o profissional perante outros que possuem apenas experiência, é demais para esta minha cabecinha de segundo grau completo.
O Plenário do Senado aprovou recentemente a PEC 33/2009, conhecida como PEC dos Jornalistas. A proposta, aprovada em segundo turno, torna obrigatório o diploma de curso superior de Comunicação Social, habilitação jornalismo, para o exercício da profissão de jornalista. A matéria agora segue para exame da Câmara dos Deputados.
A proposta tenta neutralizar decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de junho de 2009 que revogou a exigência do diploma para o exercício da profissão de jornalista.
Obviamente uma pessoa que demorou alguns anos para se formar, não irá gostar nada que alguém que tenha “apenas” experiência consiga o registro de jornalista profissional. Porém um sujeito que demora 48 meses ou mais na vida acadêmica e sai se achando superior e mais competente, me desculpe: tantos anos de estudo não valeram nada para você.
No período que trabalhei em uma redação, a maioria dos jornalistas formados que passaram por lá se pavoneando, tinham péssimos textos que precisavam ser revisados várias vezes. Diante dos entrevistados pareciam crianças, com a cabeça cheia de teorias e nenhum macete prático. Em suma, completamente crus e prepotentes, esperando uma hierarquia inexistente. Com isso quero dizer que saem das instituições de ensino superior com a ideia de que teriam pauteiros sempre, revisores gramaticais e o escambal, e que jamais seria obrigação deles fazer tudo isso e mais um pouco, além da reportagem. Uma visão clichê dos jornais metropolitanos que nada tem a ver com os do interior.
Eu aprendi suando no dia a dia e apanhando muito. E tenho sim senso ético e conhecimento científico, porque eu poderia não estar diante de um docente, mas estava estudando e absorvendo tudo o que os mais velhos me ensinavam. Porque o meu desenvolvimento é inferior?
Caso se confirme o fim da exigência, passamos a integrar uma extensa lista de países onde os cursos de jornalismo existem, mas não são obrigatórios. Quem deseja se tornar jornalista nesses lugares pode (ou deve, dependendo do país) fazer cursos de extensão ou especialização.
Entre eles estão Alemanha, Argentina, Austrália, Áustria, Bélgica, Chile, China, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Irlanda, Itália, Japão, Luxemburgo, Peru, Polônia, Reino Unido, Suécia e Suíça.
A profissão de jornalista não é como de um médico, a técnica pela técnica é um conhecimento vazio. Sensibilidade, intelectualidade, interesse em assuntos globais, são coisas que não se aprendem, a meu ver. Lapidam-se na realidade. E a realidade não está na sua plenitude em livros ou citações gratuitas. O ofício de jornalista é quase artístico e detentor de um nível elevado de cultura. Então não adianta aprender que 1+1=2, porque essa equação é inaplicável no dia a dia com suas distorções e individualidades.
Encontram-se jornalistas formados por experiência que são mil vezes melhores que alguns doutores. Aliás, muitos dos professores de faculdades estão dando aula porque fracassaram em uma Redação, e se munem de uma teoria que nada mais é do que uma masturbação intelectual sem fins aplicáveis. Jornalista se mostra jornalista é no dia-a-dia de uma redação, não apresentando um diploma. O que não significa que o diploma não seja importante. Mas desvalorizar um profissional sem Atestado é burrície galopante. Ambos são dignos, desde que se mostrem bons na prática. Juntar os dois em uma pessoa só então: ótimo!
Mas o culto ao diploma está pondo no mercado profissionais cada vez mais ignorantes. São pessoas que entram na faculdade porque hoje é cláusula social (muito mais do que profissional) e saem para popular o subemprego em uma demografia equina.
A ideia de que uma capacitação acadêmica coloca o indivíduo em um status quo intocável e superior é tão arcaica. Cada vez mais eu desconfio de certos mestres, porque suas atribuições nunca me deram nenhuma garantia de satisfação, mas sim seu profissionalismo intrínseco.
Os donos de jornais precisam ter a liberdade de contratar profissionais diplomados ou não (o melhor caminho é a autorregulamentação), e quem tem o dom de escrever e tocar as pessoas com informações e uma notícia mais humanizada e menos robótica (fruto da teorização das técnicas) necessita de sua liberdade de expressão assegurada.
Entrei sim em uma faculdade. Não de jornalismo, mas de gastronomia. Por enquanto estou com um processo tramitando no MTE para conseguir meu registro de jornalista mediante a comprovação do exercício da profissão. Provavelmente não consiga por causa dessa besteira anacrônica do Senado. Mas mesmo formado em gastronomia, jamais irei subestimar alguém que não possua “habilitação”. Esta pessoa que não se afundou em apostilas, pode ser sim muito melhor do que eu que sei a definição de “cortar à Juliana”, “mise en place” ou o que as pessoas da dinastia Ming comiam.
A burocracia e o papel são a maconha do Brasil assim como Evo Morales é a coca da Bolívia. Generalizações nunca prestaram, nem nunca vão prestar.


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja em 19/08, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)
 



sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Sobre o pênis e o ânus


Tenha um amigo gay 
e plante uma árvore

Está pra ser inventada uma coisa mais nociva do que a tolerância. A palavra tolerância dá para quem tolera uma espécie de “poder social filantrópico” elegantemente patológico. Em especial nós, gays, veados, bichas, seres sociais apartados, ex-aidéticos, infelizes despojados, tadinhos, carentes de amor coletivo, defeitos da natureza, filhos tortos de Deus, é pior ainda.
Uma das poucas coisas que eu gostaria de dizer para os tolerantes, prefiro não expor para manter a norma culta da língua. Pois esses tolerantes de que falo são os falsificados: aparentemente toleram um homossexual, mas teriam uma síncope se seus filhos fossem.
Em particular a classe média brasileira atual, seja da esquerda ondulante ou da direita oblíqua, adora essa arenga da tolerância. Eu não preciso ser tolerado, eu preciso que você não me mate, distinga ou me desrespeite pela minha sexualidade e, se o fizer, seja punido. É mais simples do que se pensa.
A tolerância tem um alto potencial para se tornar um câncer mascarado de uma simples prisão de ventre. É na tolerância que se esconde uma das piores progênies do preconceito.  Tolera-se com qual intuito? Por que você precisa me tolerar? Eu por acaso sou uma aberração polida? Claro que se enfatizam aí fatores de formação cultural, mas os meus sentimentos e a minha psique danificados, não têm tempo de compreender a cultura de cada um antes de se machucar perante uma discriminação. Além do que, parece que está se criando para os gays uma espécie de cota da tolerância que todo ser bom deve possuir, mais ou menos como acontece com os negros nas universidades. É mais uma espécie de misericórdia e desencargo de consciência do que reconhecimento de igualdade verdadeira.
Por isso tudo, desculpe-me e boas notícias: você não precisa me abrigar. Tens todo o direito de não me suportar porque faço amor com outro homem, mas, veja bem, cuidado: respeito é bom e todo mundo gosta, inclusive os gays, essa raça promíscua e hedonista.
A miscigenação brasileira, a liquidificação das culturas, a ambivalência geral, as diversas colisões étnicas e místicas, fizeram com que, o que deveria ser o país mais sereno, seja um dos que contém a mais boçal ancestralidade do preconceito e, por excelência, o mais severo.
É para ser riponga mesmo neste momento em que falo: nenhum ser humano é responsável pelo o que sente, ainda que algumas convenções religiosas ou morais legislem exceções sob determinados sentimentos, aqui, neste texto, chamados de “cálices”.
Amais uns aos outros, mas não façais amor com o outro se o mesmo possuir a mesma genitália que a sua. Porém amai. Porém não amai. Porém amai. E o coração do ser humano, esse bicho imperfeitíssimo lá entende de exceções afetivas? Por favor! Neste ponto quero ser subdesenvolvido para sempre. E se eu amo outro homem, isso é tão orgânico quanto qualquer divindade ou processo biológico. E, além do mais, as traseiras de caminhões me ensinaram: Deus é amor.
Por ora, este meu amor não tem rabo nem duas testas para ser tolerado pelo amor barroco. Qualquer forma de afeto tem nos seus prótons e nêutrons, a mesma pureza, a mesma força, a mesma “moral”, o mesmo “Santo”.
Não treine seu filho a aceitar alguém, minha senhora, meu senhor. Começar ensinando-o que precisa tolerar alguma pessoa, já implica que esse sujeito seja perigosamente diferente. Ensine-o a ser um ser humano, humano. O resto, Deus cuida.

(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

Sobre cheiros


Amêndoa velha, capim molhado e madeira antiga



Há suor morno grudado em seu colarinho que foi sendo acumulado durante um dia quase extravagante. Não, Fábio não vai tirando o sapato, alargando o nó de meio-Windsor ou se desfazendo das meias como nos filmes. Fedido, Fábio só consegue parar no centro da sua habitação e virar lentamente seu pescoço 22° para o porta-retrato. Neste objeto ele e Lucas estão sorrindo quase que eternamente para a máquina fotográfica, uma antiga Rolleiflex que ele tinha por exagero de nostalgia e por causa da música do João Gilberto, que ele detesta a pessoa, embora lhe agrade muito a canção.
As pálpebras de Fábio ao olhar a foto descem um micrômetro e meio, mas temendo cair num processo de ilusionismo prático ele rapidamente coloca a cabeça para fora dágua e arregala seus olhos. Estrabicamente, por assim dizer.
Volta a cabeça 22,6° e respira. Mas não muito. Fábio abre seus lábios em um movimento quase que imperceptível e coloca dentro de si duas libras por polegada quadrada de ar. Esse ar, diga-se de passagem, seco, entrou como a abrir uma porta que ele não queria que fosse aberta. Agora sim, fecha os olhos totalmente e escuta o ranger esdrúxulo dessa porta se abrindo. E é, de fato, um ranger muito dos esdrúxulos, range como aquelas portas que não são abertas há séculos e cujas dobradiças estão empoeiradas na ferrugem. A porta se abre totalmente até que a maçaneta bata na parede e faça uma pequena marca no concreto. Após a passagem, um silêncio assim: redentor. Mas há um calor meio humano vindo de lá de dentro, como se alguém estivesse hesitando em sair, mas não pudesse conter que sua respiração atravessasse o batente, levando para fora um ar cálido em meio aquele freezer de ideais congelados. Tão congelados, vencidos. Assaz congelados.
Não se ouve passos, ou mesmo alguém pigarreando, uma tosse, um estalido, um som de roupa se friccionando contra a pele, qualquer coisa. Fábio continua assim, com os olhos fechados, fedido, no centro de sua casa cuja última faxina ele nem se lembra mais. Está usando a última roupa limpa, enquanto todo o seu armário se amontoa preguiçosamente na lavanderia, num clima funesto. Sua casa tem cheiro de amêndoa velha, capim molhado e madeira antiga. Há de se notar que vezenquando a tudo isso se adiciona um olor rascante de cosmético para axilas ou perfume cítricos. Ele prefere os cítricos aos amadeirados ou doces.
A porta permanece aberta e se porta como uma boca gigante que a qualquer momento vai pronunciar algo. É desinteressado em esperar que ele arrasta uma das cadeiras que vê, da mesinha do telefone e do abajur sem lâmpada. Senta-se e com a ponta dos dedos do pé esquerdo puxa o sapato pelo calcanhar do pé direito. Depois o contrário. Não que o cheiro de suas meias seja desagradável, mas é interessante adicionar este olor ao capim molhado, à amêndoa velha e à madeira antiga.
Também diferente dos filmes, Fábio não olha ao telefone esperando-o tocar. Na verdade Fábio observa o abajur e tenta acendê-lo. Ele não acende, como foi dito há pouco: está sem lâmpada. É assim que ele tem seu primeiro pensamento verdadeiramente útil durante todo o dia. “Preciso comprar uma lâmpada”. Pronto. Novamente a vastidão engole sua mente. Mas ele se sente orgulhoso por ter pensado em algo tão importante.
Muito menos de meio metro cúbico de ar sai pelo seu nariz num sibilo defeituoso. Virando a cabeça agora 55,2° ele pode ver outra vez o retrato em que Lucas têm um sorriso daqueles de estupidez permitida, característico dos que parecem felizes, embora encabulados com tal felicidade não muito confiável. Alguém ali talvez temesse perder antes do que se pensava perder. Ou alguém aspirava deixar antes do que se pretendia.
A noite começa a escorrer pelas janelas, pretejando a casa por dentro. Fábio acende a luz. Seu estômago envia-lhe uma mensagem solicitando o fornecimento de alimentação. Fábio não obedece. Fatiar, cozinhar, temperar, requentar, mexer são coisas que ele não faria neste instante nem por requerimento divino. A cama está arrumada como se jamais alguém houvesse feito dela um leito. Tamanha é a pachorra com que ele se deita que a cama, após seu pouso, permanece como se jamais alguém houvesse feito dela um leito.
Pausa.
Outra pausa.
(...)
Mais uma.
(...)
Uma mão branca e cheia de juventude aparece do breu da porta e a respiração de Fábio atravanca imediatamente. Seus órgãos por um instante cessam o funcionamento. Mesmo o coração, não bate como a engolir uma saliva muito grossa.
A mão, a mão branca e doce revela um braço comprido. Essa mão, cujos adjetivos mais olímpicos não podem delinear sua importância, tateia a porta vagarosamente (lenta, mas com uma bestial afobação embutida), tateia até encontrar a maçaneta gelada. Com um cuidado soberano, esta mão passa a fechar tão devagar esta porta, que mesmo a ferrugem das dobradiças não pode produzir um mínimo rumor.
Só quando a porta se encaixa no batente é que se houve aquele barulho triste. Aquele barulho triste que Fábio pensava que jamais ouviria outra vez.
Sono profundo.
(...)
Pausa.


(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

[Foto: Luto Cloak II, Robert e Shana ParkeHarrison]

Sobre os intelectualóides


Por que certas pessoas que gostam de arte geralmente são tão imbecis?

É nauseante ouvir certas conversas dentro de uma galeria ou em um saguão de teatro. São sempre as mesmas verborragias. Clássicas. Existe uma atmosfera de exibicionismo cultural às vezes definitivamente patética.
A arte não existe para te tornar melhor que os outros, mas sim tornar-te melhor a ti mesmo. Virou moda ter um pé no José Saramago e o outro no Calvin Klein. E não vejo isso como problema não. Mas quando o discurso do sentimento torna-se maior do que o sentido vira um desastre total, vira la merde!
A mesma coisa a arte. Que nojo esses marxistas classe média alta e ecológicos defendendo teorias sociológicas e filosóficas, enfeitando algo que não precisa de enfeite. Adélia Prado me ensinou: a arte não suporta discurso. Ela já é bonita demais! O problema é que hoje há muita arte sendo feita pra artista (ninguém entende nada porque nem ele entende, e pior, ninguém sente nada porque nem ele sente) e não pro povo, que é quem mais precisa do que é belo, sem falso esquerdismo. Culpa de alguns professores, do governo e de artistas, talvez.
Uma vez uma professora de Artes, no terceiro ano do Ensino Médio, disse para toda turma que o inventor da Art Pop foi Leonardo da Vinci, que “fazia as suas arte para por nos outdoor”. Antes fosse um sarcasmo! Depois ela soltou mais uma pérola: disse que música cubista (que eu nem sei se existe), é música de Cuba. Ninguém percebeu seu erro galopante. E houve outros, com outros docentes.
Comparo essa professora a muita gente que discute arte com a maior eloqüência, academicismo e pose daqueles estilosinhos com dó de pobre.
Quando a professora percebeu minha cara, foi até minha carteira e disse constrangida e sincera: “você me desculpa, mas eu não entendo nada dessas coisas deste livro. Pra mim arte era desenho”. Eu ri. Ela riu. Nós rimos. E a arte entrou na maior deprê.
A cultura não é masturbação de artista, nem existe para masturbar o intelecto de certos públicos “privilegiados”. Acredito piamente que a arte tem um poder enorme, entretanto é jogada no vaso sanitário por tantos professores, artistas, ativistas socioculturais, secretários de cultura, estadistas, enfim, por administradores públicos locais, por assim dizer.
Queridos certos defensores da arte: parem, por favor! Estou falando de uma experiência pessoal. Jamais me interessei por arte porque alguém a defendeu apenas. Assim como jamais convenci ninguém com meus discursos mimados. Façamos arte, mas aquela de verdade, e para quem precisa. Não apenas para entreter crianças com maçantes peças do Menino Maluquinho ou escovar a razão de meia dúzia de nerds de óculos quadrados e grandes e roupas customizadas.

(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Sobre o assassinato

Você já matou o seu amor hoje?


Não se escolhe um dia para matar. Quanto menos um local específico. O local do crime pode ser na varanda estendendo as roupas ou na fila da padaria, entre um orgasmo e um soluço. Também não há rifles, facas, ou qualquer artilharia específica. Não existe um ritual, o amor morre sempre sem rastros, para que não fiquem provas. Nós o matamos sem que ele sinta que está sendo degolado. Cotidianamente, sob a luz forte do sol e olhar míope da lei. Sem sangue esparramado pelo chão ou qualquer ruído de dor. Sem estalidos, cenas heróicas, trilha sonora ou gran finale. A morte do amor entre duas pessoas é tão imperceptível que chega a ser uma idiossincrasia. Às vezes ali, no café da manhã, ele está sentado à mesa, tomando o seu leite morno e comendo a sua torrada com manteiga quando de repente: ploft! Cai ao lado e padece como uma mosca. Um amor pode morrer às 17h43min, ou quem sabe na hora de um nojento pôr-do-sol nojento de meio de semana. Nunca um amor morreu na guerra, mas sempre na quietação de uma paz imortal. E este é o seu mistério.
O fato é que o amor não morre após conversas épicas e indelicadezas transcontinentais. Ele expira nas pequenas coisas. Nos maltratos diários entre um “me passa a colher do arroz” ou “acabou o ketchup?”; nas ofensas sutis, nas omissões despercebidas e desencontros vocálicos. Naquela palavra errada na hora errada, no valor não dado às jóias invisíveis e do valor demasiado aos lixos palatáveis. Morre com olhares embaçados, com desinteresses rotineiros, com silêncios hostis, ternuras logradas. Morre na soma das acusações mais banais e de tolinhos jogos infantis assassinos.
Mas morre, e uma vez padecido ambos ficam com a cara ao nada, tentando entender o que ocorreu ou procurando respostas em turgescências. O amor morre mineiramente. Em um conta-gotas impiedoso e cheio de bom gosto. É morto dentro da lei, dos princípios e da moral. Será sempre impune o seu homicídio porque ele sempre recomeçará. Não existe túmulo. Existe amargor por dentro.
Não se entenderá nunca, porque nunca iremos entender que é o pequeno que machuca, e que é o pequeno que ressuscita. Nunca entenderemos que nossa simplicidade pode ser fatal bem como pode ser lúdica. Que às vezes somos corruptos com o outro porque deixamos a nossa própria “personalidade” administrar nosso Ser. E porque nossos ideais falam mais alto do que nossas bem querenças. Porque não entendemos que os ideais só nos levam à merda de uma realidade frustrada. E que jamais poderemos encontrar no outro o que queremos para nós, desde crianças.



(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja em 12/08, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)




segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sobre a náusea

Plenário clown


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É, sem dúvida, um dos lugares mais grotescos da sociedade. A Câmara de Vereadores tornou-se um aterro sanitário das infâmias e deslustres humanos. É ali onde, na sua maioria, se revelam a preguiça, a mentira, a versão mais chula das militâncias. Um ambiente masturbatório que aniquila a comunidade a cada sessão mais que ordinária, e mais que extraordinária. É transordinária, supraordinária.  Pena que cretinice não tem como provar. É óbvio que existem ótimos plenários, ótimos vereadores, mas são mais raros do que urso panda no nordeste.

E há um culpado pelas câmaras se tornarem um prostíbulo: o povo. Obviamente que o povo não tem culpa pelas transgressões de dignidade dos eleitos, mas tem culpa por dizer, ao se ausentar em todas as sessões, principalmente de cidades interioranas: deitem e rolem nesta casa, façam dela uma vaca profana, ninguém está vendo! E, de fato, ninguém está vendo mesmo. Em todas as sessões, 90% dos assentos vazios. Como então cobrar que as coisas sejam feitas? As pessoas adoram objurgar e argumentar política, mas da maneira mais platônica, só pra dizer que não estão sendo feitas de otárias. O problema, é que estão.

O povo quer escorraçar os vereadores, mas não tem vontade de ir assistir uma sessão sequer, ou, nas horas vagas, visitar alguns gabinetes e questionar: então, o que você está fazendo a respeito disso ou daquilo? O que você tem proposto de bom para a comunidade, e quando posso voltar para ver os resultados? Parece absurdo, não é? É tão absurdo que quem se sente um otário ao propor tais coisas, sou eu.

Só quem participa de algumas sessões para saber do show de horrores, um circo de freaks, de segredos, de total vazio. Quem ainda ousa argumentar algo, argumenta já exausto, porque suas palavras estão mais surradas do que qualquer bêbado dormindo no borralho de uma sarjeta.   É a prova da máxima rodrigueana: toda unanimidade é burra. E os vereadores só são “unânimes”, porque o povo se faz de cego, para não atestar a vulgaridade da sua fraqueza voluntária e tristemente coletiva. Os políticos estão nos chamando de imbecis, de covardes, de filhos de uma pátria mãe puta. Todos com o sorriso mais carinhoso e benevolente impressos nos santinhos.  Malandros!

Fica a dica. Ao invés de pedir para tampar buracos no asfalto do seu bairro ou cortar árvores incômodas da sua rua apenas, faça algo de mais vantajoso. Vá ao plenário assistir um pouco de teatro, e vamos ser inteligentes para não cometer o mesmo erro em outubro ao escolher atores tão ruins, tirados da mais patética pornô chanchada.


(Foto: Robert Wilson)

Sobre o altar

Eu te “escolho”, 
entre 7 bilhões de pessoas, 
pra sempre
 Pois é, as pessoas se casam. Em pleno século XXI as pessoas ainda se casam. Que aberração! Que incoerência! Chamem alguma autoridade, sei lá! Isso é muito fantasmático, fantasmal, fantasmagórico, isso não pode! Casar? Que atitude mais vertiginosa. Casar é para os fracos, é subversivo, é contracultural, é antirreligioso, é coisa digna de Woodstock! E o mais absurdo, têm até heterossexuais se casando! Oh my Good!
Às vezes, com tanta banalização do amor, fico pensando como certas pessoas têm força de se emparelhar. Há casais que visualizo no altar não com cupidos ao redor soltando coraçãozinhos rubros pelas orelhas, mas anjinhos vestidos de terno com uma pastinha preta e papéis de divórcio na mão: a flecha é uma esferográfica Bic. Eros por Eros, festança por festa, e o amor lá no sudoeste das Cuscuias. Mas tem uns casais que, fugindo dos estereótipos e dentro deles ao mesmo tempo (pois vão aos cartórios e sobem ao altar) parecem resgatar a simplicidade e brandura do que é verdadeiramente uma união.
No próximo sábado vai acontecer um casamento assim, nessa cidade com pouco mais de 100 mil habitantes, localizada no noroeste do Paraná. É um evento que não acontece freqüentemente, e não costuma sair nas revistinhas da demente sociedade “feliz”. Tenho até medo, vai saber, não é coisa muito normal, duas pessoas se casarem assim, tão implexas e entrelaçadas (no bom e no mal sentido!), é muito estranho. Para se casar tem que ter certo distanciamento afetivo sabe, senão não é esmerado, chique, tem que ter uma maturidade do tipo: somos um, mas quando eu quiser que sejamos dois, vai ser, tá?!
Muitas vezes, assinar um papel é pouco perante o que duas pessoas sentem uma pela outra, e quase não quer dizer nada; outras vezes, um documento rubricado é muito luxo perante a ausência de amor e daquele sentimento – que uns chamam inocentemente de inocente – de eternidade.
São burros os que acreditam na fugacidade do amor, fingindo ser maduros o suficiente para aceitar que o amor acaba. Essa intelectualidade não presta, não para mim. Existem certos tipos de consciência que só servem para enricar farmacêuticos, acabando com seus estoques de codeína e fluoxetina. Acreditar no eterno é uma das poucas coisas puras que ainda resta ao ser humano. Esse papo de que amor acaba é história de gente lascada. Nós na verdade só estamos aqui ainda, porque queremos que seja eterno, e vai ser. Isso não tem nada a ver com romantismo. Acreditar no eterno faz parte da anatomia humana, e é lindo demais. O cara pode se ferrar mil vezes, se ele realmente sabe o que é amor (mesmo que abstratamente, e sempre será abstratamente), mais mil vezes ele se ferrará com todo prazer tendo certeza que a tragédia romântica anterior foi a derradeira e que, daqui para frente, tudo será beautiful.
Até o último bombom da caixa, a gente come com a leve impressão que, de alguma forma muito sobrenatural, ele perdurará entre os dentes durante umas três horas. Ou... Que um cairá do céu, talvez, vai saber. Pra quem gosta de chocolate, é claro, tudo é possível.
O engraçado é que, todos os meus amores que quando começaram eu idiotamente sabia que um dia acabariam, acabaram mesmo. O amor nos obedece sim, ele tem o tempo dele, mas nos obedece. Não teremos um amor eterno se não formos capazes de fazer o outro feliz eternamente, ou seja, por este curto período de tempo denominado “pra sempre”, dito nos altares. Deste modo, é bom que certos amores acabem. Todo mundo tem direito de ser feliz no ramo da osmose humana.
Amor bem sucedido deveria ser o primeiro artigo da Constituição Federal ou da Declaração dos Direitos Humanos. É Lei Orgânica na terra dos sentidos, ninguém administra a própria vida sem ela. É uma boa ideia pros vereadores que só sabem aprovar nome de ruas e distribuir títulos de cidadãos honorários para pessoas insignificantes.
Amar moderadamente? Amar maduramente? Amar equilibradamente? Amar “saudavelmente”? Que nada! Amar doidamente é que é o bacana. O resto é burocracia e solidão.

(Texto publicado originalmente na coluna dominical Culturanja, no diário Umuarama Ilustrado, Paraná. Copyright © 2012 EMPRESA JORNALÍSTICA UMUARAMA LTDA – Todos os direitos reservados)

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Sobre o tédio


Masochistic sex cult


Dez e vinte
Jamais voltar a comprar aparelho de barbear Bic. Razão: suicídio facial.
Dez e vinte e três
How long i'm lost without you
Dez e vinte e três
Dez e vinte e quatro
Lipídios desconfortáveis. Elogio de cliente: relógio convenciona com vestimenta superior. Cor: vermelho escarlate, carmim ou coisa que o valha.
Dez e vinte e seis
Uma navalha na carne vale mais do que dois bonitinhos mas ordinários? Ainda não se faz necessário fazer sangria neste caixa (PDV32). Nota empírica: a música norte americana, vulgo anglo-saxônica, vulgo americana, é uma merda.
Dez e trinta. Correção: trinta e cinco
Poder de persuasão grotesco, entretanto próspero.
Dez e quarenta e quatro
A depender da ocasião, a objetividade pode se tornar uma equação irresolvível, vulgo irresoluta.  Se aprender para ti é um parto, não aprenda.
Onze e um
Espetinho de boi, maionese, um pão francês e farofa (4,90), três Itaipavas, a quarta é de graça, uma dose abastada de gim. Desejo descrito Ok.
Onze e seis
Todos são substituíveis quando o assunto é.
Vazio sanitário. Hora de iniciar o Cerco de Jericó. Sem comoções possíveis. Zero porcento de slip. A necessitar do vazio de Ana Maria Braga, aquele vazio matutino era fantástico.
Quanto tempo perdi sem ti.
Onze e quatorze
Eu não sei se odeio ou detesto o que estou fazendo. Vale investigar?
Onze e vinte e três
Um friúme por dentro e uma sensatez me pedem pra parar.
Onze e vinte e sete
Tenho medo de só poder voltar a conviver com minha família por perto quando  meus pais não puderem mais sentar no chão da varanda comigo e beber cerveja. Saudade também há. Sem previsão de abraço.
Isso dói
Onze e quarenta
Isso dói
Onze e quarenta e um
Isso dói
Onze e quarenta e quatro
Doze e seis
Lilly Allen não é filha do Wood Allen.
Doze e vinte
Só me subtraio em altos valores. Não enxugo poças. Quero enxugar são fossas.
Treze e três
Não há friúme nem sensatez, mas agora, sem mais, eu paro.
Quatorze e dezenove
Sutil ardência de raiva no estômago.
Quatorze e vinte
Permanência da ardência com leve conformismo. Burocracia amoral. Esperança não se reproduz por mitose.
Quatorze e vinte e dois
Não aceitamento da música. Excesso de luz no ambiente. Algumas expectativas espúrias. Desejo do corpo alheio em desequilíbrio do desejo ao próprio corpo, ou, déficit de auto-desejo. Púcaro búlgaro.

Quatorze e vinte e cinco

Dez e oito. Minto: e nove
A zeladora esfrega seu pano ao chão no silêncio do ambiente e barulho das máquinas. Suas botinas de plástico exalam um som de como se a cada passo grudassem no azulejo. E grudam. Ela percorre o zigue-zague da fila do Caixa e incomodada com o silêncio afirma que ontem isso aqui parecia uma casa noturna e que, hoje, parece um velório.
Dez e quatorze
Chega o primeiro. Camisão salmão, meia idade, óculos com cordinha, mexe em papéis, está malcontente.
Dez e vinte e oito
Quase entrando em letargia. Esta noite sonhei que pescava uma piranha com pelos e patas, correndo atrás das pessoas, sobretudo de mim, como um cão. Quanto tempo perdi sem ti.
Dez e trinta
Faz-se necessário entender a política do sacrifício remunerado ou sucroalcooleiro.
Dez e trinta e dois
O que é insacrificável para mim? Retorna a trilha sonora do Demo. Um canto gregoriano cairia bem. Desejo Ok.
Dez e trinta e sete
Envaidecer-me seria um ato propício para dada hora.
Dez e trinta e nove
Ayer yo havia dicho que lo que estoy hacendo se poneria muerto. Pero hoy más muerto está mi sueño, y, por supuesto, escribo, otra vez. Estoy de broma.
Dez e quarenta e cinco
Te amo, mas estou sozinho.
Onze e trinta
Você não tem o nível de privilégio necessário para alterar a hora do sistema.  ¿Rey, que soy yo?
Onze e cinqüenta e oito
Um certo emagrecimento da alma enche o corpo de gordura. Uma certa gordura na alma enche o corpo de formosura, mesmo que ele seja já gordo. Paradoxalmente insuspeito.
Doze e trinta e novembro
Como levantar a cabeça e tocar a bola para frente quando o crânio pesa três toneladas e cujos pés estão amarrados por cadarços e cuja bola é uma bigorna e cuja frente está amarrada no passado?
Doze e quarenta e dois
Bigode de leopardo, língua de lince. Chacal. O dia nublado é perfeito para amputar dores e emputecer rancores. Masochistic sex cult.
Treze e oito
Rouquidão, zonzeira, tosse, calafrios nas pernas, cansaço auditivo, lábios inferior e superior ressecados e despelando. Concentração de muco na garganta, espírito empreendedor decadente. Mãos geladas: início de hipocondria ou tristeza somatizada?
Têmporas doloridas, coceira auricular, coceira capilar, precipitação de caspas, percentual de aproveitamento zerado. Sopa de feijão com batatas grandes e pão pra molhar. Desejo Ok.
Treze e quinze
Dor torácica. Calafrios agora no plexo e antebraços e ponta dos dedos. Metabolismo famélico.  
Treze e dezenove
Anseio patético de punir o corpo como uma forma de corrigir a mente e o coração.
Treze e trinta e seis
Mãos extremamente geladas. Extremamente geladas.
Treze e quarenta e um.
Quanto tempo perdi sem ti.
Treze e quarenta e um.
Quanto tempo perdi sem ti.
Treze e quarenta e um.
Quanto tempo perdi sem ti.
Whatever.